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por João Toledo
Durval Discos, de Anna Muylaert
João Toledo
O filme de Anna Muylaert começa como um interessante relato sobre o dia-a-dia de Durval, de sua loja de discos, sua mãe, seu convívio com aquele universo intrinsecamente paulistano. Mas, aos poucos, vamos percebendo no enredo um determinismo patente, que, mesmo quando entregue ao máximo do bizarro, tem por trás uma função e um discurso sobre uma época e um meio.
O que em um primeiro momento pode ser confundido com uma simpatia do filme pelo apego sentimental de seu personagem a determinadas tecnologias (vinil), que são de uma hora pra outra substituídas, tornadas descartáveis, se revela ao longo do trajeto de Durval como não mais que um mote para propalar o saudosismo simplista do filme. Simplista porque não basta ao filme ser apenas saudoso de um passado que interessa pessoalmente aos realizadores, ele ainda discursa sobre valores perdidos, sobre como a cidade inviabiliza determinadas ações desligadas de fins práticos, sobre a impossibilidade de se confiar, de se julgar pelas aparências, e principalmente sobre como somos enlouquecidos pela modernidade, pelo confinamento, por toda a loucura à nossa volta. A loucura da mãe não existe simplesmente enquanto anomalia, mas enquanto resultante de uma série de questões do mundo moderno e avassalador, que leva à ruína qualquer sujeito apegado ao passado.
Portanto, me parece extremamente coerente que Durval Discos seja um filme rodado em película, atendendo a uma gramática tradicional, com uma câmera que descreve os ambientes em pequenos travellings e uma fotografia da qual sobeja expressionismo – no sentido de se pretender sempre traduzir o clima das cenas. A técnica apenas reafirma a visão passadista do filme. No entanto, quando uma cena se sobressai ao discurso do todo, quando os personagens sobrepujam suas representações deterministas, criam-se bons momentos de incrível simpatia e humor. Durval é um esquisito bastante carismático, mas sua simpatia é relegada a pano de fundo – ele é tornado peão de xadrez de um time que está perdendo.
Filmes citados:
Durval Discos (Idem, 2002/Anna Muylaert)







