por João Toledo

Meu Mundo em Perigo (2)*, de José Eduardo Belmonte

por João Toledo


Muito em breve a afirmação de que José Eduardo Belmonte é não só um dos mais proeminentes nomes da atual cinematografia brasileira, mas também um dos mais sensíveis, integrará com justiça a lista de clichês que povoa a reflexão crítica do cinema nacional. E, no entanto, seria uma afirmação banal se não viesse acompanhada de discussões acerca dos aspectos que tornam sua obra tão própria nesse espaço de cinema cada vez mais amplo. O cinema de Belmonte, apesar de uma estética mutante que busca a cada trabalho uma forma própria de enxergar o mundo das personagens, traz certos elementos que conciliam as diferença entre as obras e tornam fácil a designação de autor.


Seus filmes trazem a sensação de haver por trás da construção dos personagens um fôlego humano que redime aqueles seres, ante o espectador, de quaisquer erros e defeitos, por mais absurdos que sejam. Os personagens sempre erráticos desenham sua trajetória por entre os meandros da família, nos espaços da cidade que habitam, e, principalmente, ao redor dos problemas e sentimentos íntimos que habitam o mundo particular de cada um. Os encontros, mesmo quando parecem se dar, são escassos e complexos; não parece haver momentos onde a ambigüidade não nos instiga a buscar cada vez mais elementos que nos permitam compreender aquilo que é necessariamente incompreensível: o íntimo de um ser humano.


Talvez seja este o aspecto mais impressionante e particular na obra de Belmonte; não apenas a veracidade, mas a humanidade e complexidade dos personagens que compõe a trama. Tanto no longa Meu Mundo em Perigo quanto no anterior A Concepção os personagens não possuem uma trajetória definida, um projeto concreto; estão apenas em busca de algo que os apazigúe da dor que trazem tanto a presença quanto a falta da família. Criam-se projetos de fuga da realidade pessoal que são ao mesmo tempo projetos de busca por encontros. E estas, por mais estranhas que sejam, são observadas sempre com o carinho cúmplice da câmera que os observa.


Meu Mundo em Perigo é um filme que caminha para a demolição de um mundo particular, mas que para além dos aspectos trágicos mantém um olhar de tal forma terno que nunca se consegue pensar mal de nenhuma daquelas pessoas cujas fraquezas são também o que as leva ao encontro. Se fogem cada vez mais para dentro de si, se estendem timidamente ao outro na solidão em busca de alguém disposto a compreender-lhes. E no ímpeto da busca por compreensão, as palavras acabam atropelando o encontro com desimportantes informações do passado. Aliás, a palavra parece ser sempre o ponto fraco dos encontros, que se dão sempre com mais intensidade e veracidade através do olhar e dos gestos que a câmera não poupa esforços para buscar. De certa forma, a trilha sonora nos diz muito isso; ela coroa muito mais os gestos, os momentos e os sentimentos do que aquilo que se diz. As músicas trabalham em perfeita harmonia com aquilo que as personagens extravasam ou escondem, muitas das vezes se permitindo inclusive abafar o som das vozes para representar o que mais interessa ali: o íntimo de cada um.


O filme de Belmonte parece partir justo da instabilidade das relações – retratada pela inquietude da câmera que parece respirar o ar colérico dos personagens e se deixar levar pelo volátil – para encontrar aos poucos os momentos em que pode assimilar os olhares com mais calma e buscar na expressividade do corpo dos atores pequenos gestos e movimentos que dêem conta de representá-los, ou mesmo de detalhes, fotos ou elementos que os enriqueçam. É uma estética que se deixa levar pela forma como os personagens apresentam seus sentimentos. E o impressionante disso é que a realização é totalmente permeada pelo acaso; Meu Mundo em Perigo é filmado nas ruas e em um hotel e os personagens não conhecem as motivações uns dos outros. Apenas as descobrem à medida em que as cenas avançam. O que o diretor faz, às vezes inclusive com a câmera na mão, é improvisar em cima de sua partitura, e permitir aos atores a constante construção das personagens, fazendo com que se dê uma espécie de documentação criativa dos momentos de efetiva criação das cenas e, em decorrência disso, das personagens.


A difícil relação com a família e com o passado parece ser sempre o estímulo máximo de qualquer transformação. A mudez da menina Ísis, mais do que um distanciamento dela, representa uma dificuldade de lidar com sua realidade, digerir e expor suas dores. Elias, o protagonista, faz o oposto: articula e prepara discursos que sempre usa, seja o contexto qual for, como forma de acreditar, ele próprio, na sua integridade, eximindo-se da culpa que sente e tentando forjá-la como ódio pela ex-mulher. Trata-se de um filme de homens frágeis, enrijecidos por mecanismos de defesa e mulheres fracas que não conseguem efetuar os rompimentos que desejam, que se redimem somente com o tempo, com a morte desses homens. A libertação para as mulheres é sempre um alívio que elas não fazem questão de esconder; assim se sente a mãe de Ísis, a mulher de Fito e, no final, depois da tragédia de Elias, a sua ex-mulher, que brinca com o filho em um parque, em um dos poucos planos mais abertos do filme.


O longa de Belmonte certamente merece uma revisão mais atenta aos detalhes e minúcias narrativas, ao trabalho que ele cria com seus colaboradores em um contexto de precariedade financeira – precariedade essa que não se reflete no resultado na tela -, merece uma atenção grande porque faz de seus filmes um espaço para versar sobre o íntimo ser humano sem dele se distanciar, sem perder por ele o carinho, por mais catastróficas que sejam as repercussões de suas ações, potencializadas pelo ignóbil e incontrolável acaso.

 

*Texto escrito para a 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes


Filmes citados:

Meu Mundo em Perigo (Idem, 2007/José Eduardo Belmonte)