por João Toledo

Adoração, de Atom Egoyan

por João Toledo

É uma pena ver que Atom, cineasta canadense que já fez excelente filmes como Exótica e O Doce Amanhã, se encerra cada vez mais em uma busca por se afirmar como autor. Nessa busca, ele parece se mostrar mais e mais perdido em meio à necessidade de carregar cada imagem, cada plano, cada cena, de tom e estilo próprios. E isso muitas vezes parece ser anterior à idéia de delinear uma trajetória e construir personagens. Ou seja, arquitetar uma cena que seja visualmente interessante é mais urgente que pensá-la dentro do macrocosmo do filme. E isso me parece uma estranha inversão de sentidos se pensarmos que o desenvolvimento visual de uma cena é conseqüência estética das discussões que o filme como um todo propõe.

E esse movimento de inversão fragmenta o filme em seus diversos arroubos estilísticos, momentos de uso interessante de linguagem. Apreciamos, portanto, a competência de Egoyan em ambientar suas cenas, em gerar interesse pela imagem. Mas isso, no fundo, é algo limitador, pois a imagem passa a atender, não à composição narrativa, mas a uma prisão autoral. As próprias relações entre personagens e suas inesperadas ações-reações são desenvolvidas de maneira forçada; a estranheza urdida serve melhor ao clima da cena que à fudamentação do discurso político. Criam-se excentricidades despropositadas, que em nada favorecem ao tema abordado, mas que são eficientes na criação de uma atmosfera de suspense e inquietação. Trata-se um talento estilístico desperdiçado na medida em que a ele é relegada uma auto-importância tão grande que se perde de vista o enredo e suas imbricações. O discurso, tão presunçoso e pretensamente relevante, vira papel de parede. Empalidecido e esvaziado, perdido no meio das imagens, e ainda assim pleno de pretensão.

No meio dessa coisa meio amorfa que é o filme, sobram um amontoado de conversas supostamente reveladoras de um “conflito humano”, em busca de discutir “questões relevantes” do “mundo contemporâneo”. É a síndrome do cinema sociologicamente relevante. Então, o que presenciamos é o desenrolar da história de um garoto que é confrontado com relatos de seu avô sobre seu pai que fazem-no questionar suas lembranças e, em meio a isso tudo, se identificar com uma reportagem sobre um terrorista na aula de francês. A professora, então, lhe propõe um desafio de levar sua interpretação pessoal da história à frente. São levantadas, a partir desse jogo de encenação do menino, questões relativas ao terrorismo, aos homens-bomba, ao amor e à entrega a determinados valores que nos são ensinados e que, muitas vezes, não conseguimos sequer perceber. Isso tudo funciona mais no sentido de criar um estado de suspense em relação a quanto de verdade há no discurso do menino do que realmente de levantar questões menos superficiais e óbvias acerca do tema.

Mas essa mise-en-scène que carrega o discurso simplista e pretensamente relevante, quando culmina no desastroso final, irrestritamente entregue à pieguice reveladora dos segredos de cada personagem, mostra que o suspense era realmente a melhor qualidade cênica de Egoyan – e os segredos eram mais instigantes quando ainda ocultos. Sua câmera sabe onde buscar a imagem, conhece o tempo do suspense, mas seu discurso político é não apenas ingênuo, mas sem foco. Perdido em meio a efeitos narrativos, em meio a uma busca toda arquitetada que intenciona clarear e redimir o passado obscuro dos personagens, de forma a eliminar certos fantasmas... por acaso, as únicas nuances do filme.

 

Filmes citados:
Adoração (Adoration, 2008/Atom Egoyan)
Exótica (Exotica, 1994 /Atom Egoyan)
O Doce Amanhã (The Sweet Thereafter, 1997 /Atom Egoyan)