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por João Toledo
La Buena Vida, de Andrés Wood
por João Toledo
No silêncio noturno da cidade, um filme grita, “ei, olhem pra mim, vejam como sou contemporâneo”. Lamentavelmente, o grito inaudito é mais insistente e desafinado que a maioria dos gritos desesperados. Sempre que surge um movimento, ou uma movimentação em torno de processos estéticos semelhantes, legitima-se uma forma; e cria-se, a partir daí, um modelo que é apropriado e emulado obstinadamente de forma a esvaziar qualquer estética e temática de sentido. Este é o caso de La Buena Vida; o filme trabalha com flacidez em cima do que se poderia chamar de hiper-realismo granulado. O modelo é: câmera leve, tons pastéis, muita textura e pouco brilho na imagem, montagem simples, poucos cortes, pouco movimento de câmera, mise-en-scène mínima, pouco deslocamento, silêncio, contemplação, trilha sonora minimalista e moderninha.
Essa receita estética do filme, no entanto, é apenas a cobertura do bolo, é uma camada de tinta – que por acaso está na moda – que esconde o enredo. E este, na sua tentativa de se alinhar a debates pós-modernos, da solidão urbana e essa coisa toda, acaba sendo ainda menos eficaz que sua estética barata. O filme é de um esquematismo discursivo que parece derivar mais da vontade de alinhar-se a um determinado segmento cinematográfico que a uma vontade real de dizer certas coisas, que surgem na tela de maneira tão formulaica, tão simplista e clicheresca que revelam um total desinteresse por seu principal objeto de exame. O ser humano é um desgastado retrato de suas já cansadas representações habituais, o xerox de um fax de um rascunho. Como não poderia deixar de ser, o filme possui uma estrutura de multi-plot, ou seja, de narrativas paralelas que se entrecruzam em algum momento, seguindo a mais óbvia tendência do cinema atual. E, claro, cada um desses segmentos vai significar alguma reflexão sobre o estado do mundo hoje.
O jovem músico, apesar de talentoso, não consegue espaço na filarmônica porque nesse “mundinho contemporâneo” é mais importante ter contatos do que ter talento. Os jogos de poder abordados são mostrados de forma bastante boba. Logo na cena inicial, por exemplo, o teste do músico não é levado a sério pelos jurados, e isso é feito de forma a nos manipular para que fiquemos do lado do injustiçado rapaz, criando repulsa pelos velhinhos do júri. Isso segue de forma semelhante em todos os outros núcleos. Na trajetória do homem com dificuldades financeiras, por exemplo, aprendemos que no mundo impessoal de hoje, um homem e sua memória valem menos que bens materiais, e são transformados em valor monetário pela perversa máquina capitalista. Ao mesmo tempo em que ele se debate com essas questões, se vê seduzido pelo desejo de comprar um carro. Cria-se toda uma situação para que o homem precise enfrentar a escolha fundamental entre o utilitarismo e a dignidade. E se ele opta pelo utilitarismo é apenas para que venha, ao final, a redenção, e ele resolva que enterrar seu pai é um valor mais importante e humano que adquirir o automóvel.
Em outro núcleo, temos a jovem filha grávida, a mãe separada e a dificuldade de comunicação entre elas. A profissão que supõe uma cabeça aberta serve apenas para revelar que por trás disso há um conservadorismo latente. Mas os conflitos, obviamente, se resolvem e o aborto planejado vira outro momento de redenção com o nascimento do bebê.
Esse tipo de simplismo – e que não basta ser raso, precisa ser também esquemático – perpassa cada longo minuto do filme e culmina numa leviana convergência festiva entre os núcleos, como se o filme quisesse dizer que ainda há espaço para o afeto no frio e impessoal mundo contemporâneo. Se caíssem as máscaras, restaria no fundo um manual de auto-ajuda.
Filmes citados:
La Buena Vida (Idem, 2008/Andrés Wood)







