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por João Toledo
Maksuara – Crepúsculo dos Deuses, de Neville D’Almeida
João Toledo
É difícil descrever o quão estranha é a experiência de assistir ao novo filme de Neville D’Almeida. O discurso pretensamente político/filosófico/ecológico do filme é tão pateticamente banal que fica difícil acreditar que se leve realmente a sério. Um comercial de incentivo à preservação ambiental consegue ser mais complexo que o raciocínio flácido do filme. Há uma total precariedade em torno da forma de abordar o discurso, que revela uma imensa ingenuidade, tanto cinematográfica quando temática. Querer brincar de ficcionalizar a partir de elementos do real me parece uma tentativa grosseira de emular o filme Serras da Desordem, de Andrea Tonacci.
Mas, ao mesmo tempo em que o filme busca essa aproximação, não poderia se distanciar mais, pois não parece compreender sequer que, quando fala dos problemas do mundo – da forma mais simplista e moralista possível – está falando de uma realidade muito mais complexa que meros valores de preservação X destruição. Afinal, o próprio cinema é fruto de industrialização, modernização – ainda mais o cinema digital, que por acaso possibilita esse tipo de filme –, e ele parece querer afirmar que a única forma correta de viver a vida é aquela que o índio representa, e todo o resto significa não mais que degradação. Nesse sentido, há um contradição fundamental aqui, pois o filme não reflete sua própria condição de corpo-estranho naquele meio apresentado – ele se pretende invisível e nesse sentido parece querer se isentar, como se não tivesse um papel nesse universo criticado.
A realidade via Neville é representada por axiomas, tudo é generalizado. Não bastasse esse maniqueísmo infantil – índio versus homem branco –, o discurso leviano ainda é continuamente reiterado; coisa que revela um imenso vazio por trás das imagens, um não-ter-o-que-dizer que torna o formato de longa-metragem simplesmente injustificável. O filme, apesar de curto, é constantemente excessivo. Parece ter sido esticado numa espécie de Leito de Procusto para, ainda que sob a pena de estar morto enquanto cinema, se adaptar ao formato escolhido. E no vácuo criado, nas enormes lacunas, são enxertadas topo tipo de imagem assustadoramente inexpressiva e repetitiva. A trilha corrobora para o sentimento de estarmos assistindo sempre à mesma cena, pois martela ad infinitum uma mesma melodia – que também ajuda a acentuar a contradição entre o discurso naturalista e a modernidade por trás do processo.
O paralelo que o filme cria entre o índio e a figura de Jesus, chegando ao ponto de encenar uma crucificação, é algo que, de tão primário, chega a ser vexatório. Assim como a cena do petróleo no mar, ou como a suposta relação libertina e despudorada entre o casal de índios na cachoeira. Neville parece interessado em mostrar a nudez dos índios como um modelo de liberdade, mas a explora como choque de conceitos. A partir da naturalidade da exposição do corpo em constante simbiose com a natureza, o filme fetichiza esse corpo. De maneira grosseira e insistente, a câmera se aproxima da nudez, tirando o naturalismo do que é por premissa tão natural. É como se o filme quisesse provar à força, com sua presença obstinada, o quão natural é aquilo. É um processo praticamente análogo àquele do zoom no rosto do ator emocionado da novela, mais explorando que realmente mostrando a emoção.
O purismo com que Neville retrata os índios também é bastante curioso, ainda mais depois de um filme como Serras da Desordem, pois me parece de uma extrema ingenuidade que qualquer um, em contato direto com essa outra realidade, não se perceba necessariamente como um agente modificador: trata-se de um processo muito pouco consciente de si na medida em que ignora o fato de que essa pureza, tratada por ele como ideal, é necessariamente por ele próprio influenciada, modificada, desvirtuada. Trata-se de um processo muito pouco consciente de si. Nunca um abismo entre querer e ser me pareceu tão grande.
É nessas horas que a gente mais se pergunta: pra onde foram as pornochancadas? Mesmo quando massacrava obras-primas como Matou a Família e Foi ao Cinema, Neville fazia melhor. Esse filme ultrapassa todos os limites imagináveis de carinho pela imagem. Neville filma uma aberração audiovisual que – se é que pode – talvez não deva ser chamada de cinema.
Filmes citados:
Maksuara – Crepúsculo dos Deuses (Idem, 2008/Neville D’Almeida, Tamur Aimara)
Serras da Desordem (Idem, 2006/Andrea Tonacci)
Matou a Família e Foi ao Cinema (Idem, 1969/Julio Bressane)







