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por João Toledo
Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes
João Toledo
O filme de Miguel Gomes é uma obra que tenciona as fronteiras entre a criação ficcional e o documental; e o abertamente, em tom de brincadeira, sempre com muito humor. Passa-se quase como um filme sobre o processo de um filme, que elege um espaço cênico (uma pequena cidade) e seus habitantes para protagonizarem tanto o roteiro quanto suas próprias histórias, como personagens de si mesmos. O filme propõe uma deliciosa brincadeira de nos deixar perdidos diante da impossibilidade de classificar o nível de controle do plano; quanto daquilo é criado e quanto é real; e, mesmo aquilo que é criado, quanto é controlado e quanto é espontâneo.
Afeiçoamo-nos à equipe do filme, aos homens do vilarejo, aos personagens da ficção – e esse estado de não distinção entre os limites de ficção e não-ficção, além de não interferir, parece atuar diluindo essas fronteiras, misturando as coisas de forma que nosso interesse e apego pelas imagens, assim como nosso empenho sentimental, ocorrem da mesma maneira em todas as camadas dessa amálgama inclassificável.
O filme se mostra sempre muito consciente do seu processo de rompimentos e ao mesmo tempo em que ficcionaliza a realidade – de um jeito um tanto curioso, justo por se aproximar tanto do que se entende por real –, também se une ao documental quando a equipe entra em quadro e participa da filmagem de um show, ao mesmo tempo revelando o artifício e se aderindo a um momento que ali ocorre. Muitas vezes também, o fato de o show interessar à narrativa ficcional não o torna menos verdadeiro; é ficção, mas está ocorrendo e o público está todo ali, a dançar de fato. Por outro lado, enquanto da ficção erguida emana esse gostinho de real, dos momentos em que assistimos à equipe do filme em cena fica a sensação de encenação. Uma encenação que sempre gira em torno de questionar suas escolhas e pôr em xeque a idéia de um projeto conceitualmente planejado.
Diversas vezes ao longo da projeção o filme parece bastante interessado em explicitar e discutir os conflitos entre a apreensão crua do real e a apreensão calculada, manipulada. E ainda que ele trate isso em diversos níveis do filme, nos permanece obscuro o quanto daquilo é planejado e o quanto é espontâneo. E ele parece mais interessado nessas possibilidades de curto-circuito, que em sanar a questão. Entre algumas das cenas-chave do filme que criam esse conflito, está o momento em que dois homens discutem seus papéis na ficção do filme como se a câmera não estivesse ali; outro é quando pessoas reais, como os três estrangeiros, colidem com a narrativa ficcional; ou também quando o possível produtor do filme pergunta ao diretor sobre a ficção, sobre onde estão aqueles personagens e sobre o que se tem feito com a equipe do filme ali durante todo aquele tempo se ainda não estão a filmar o roteiro.
O final também é especialmente interessante, quando o diretor e o captador de som discutem sobre a objetividade do som captado, sobre aquilo que está no ambiente de fato e aquilo que é trazido para o ambiente, talvez com propósitos dramáticos, mas isso é elevado a um âmbito surreal, dando à própria manipulação um caráter de descontrole. Ou seja, teriam surgido no áudio elementos sonoros que não poderiam estar no local de captação. Mas como? Aquele Querido Mês de Agosto é, no fundo, o filme de humor experimental. Ele usa recursos radicais de linguagem, testando limites dos artifício, para brincar com o espectador.
Ao mesmo tempo que Miguel Gomes se alinha a Pedro Costa (grande nome do cinema português contemporâneo) quando dissolve fronteiras, misturando pessoas e personagens, ele também se distancia quando se revela interessado em dialogar com o espectador, brincando com a forma como ele se relaciona com as várias instâncias narrativas. Gomes parece interessado por tratar a realidade, mesmo quando diante dos problemas das pessoas, de forma alegre, sem o pesar crônico dos homens esvaziados de Costa. Há nesse filme um imenso carinho pelos retratados, por todo o vilarejo, um apreço pelo humor e alegria dos portugueses. Uma excelente surpresa e uma grande revelação.
Filmes citados:
Aquele Querido Mês de Agosto (Idem, 2008/Miguel Gomes)







