por João Toledo

A Erva do Rato, de Júlio Bressane

João Toledo

Julio Bressane é certamente um dos grandes estetas do cinema brasileiro. Além de um atencioso e rigoroso criador de imagens, ele está sempre a propor novos sentidos e novas formas de nos relacionarmos com seus filmes, um autor cujo maior prazer parece ser o de se reinventar. Mas essa atitude de desenvolver plasticamente cada detalhe do filme não faz dele um formalista; longe disso. Bressane é um experimentador de idéias temáticas tanto quando o é de idéias estéticas, e uma é feita através da outra e vice-versa.

Seus filmes – e A Erva do Rato não poderia ser diferente – demandam um processo dialético constante, onde cada imagem precisa ser pensada e adquirir um sentido no fluxo narrativo; ele depende da participação ativa do espectador. É um filme difícil, que demanda uma atenção constante aos labirínticos detalhes iconográficos que povoam cada enquadramento, mas, diferentemente do que estamos acostumados, aqui vemos um Bressane trabalhando na chave do humor. Um humor subversivo, talvez, mas ainda assim trata-se de um filme estranhamente engraçado.

Ao mesmo tempo despudorado e severo, o filme vai caminhando entre sombras e afloramentos, honestidade e encenação. Ele se revela nesse movimento de gangorra entre esconder e mostrar. E as situações se desenvolvem até atingirem o paroxismo do absurdo construído.

Se em Encarnação do Demônio o rato é objeto de máximo desprezo - e a cena da penetração do roedor se mostra como o mais vil e assustador pesadelo, inclusive graficamente, aqui, o rato pode ser até mesmo objeto de desejo. Ele vai tomando conta e envolvendo o dia-a-dia do casal e invade, literalmente, a atriz em uma cena onde está presente a dualidade que perpassa todo o filme; o desprezo e a sensualidade, a atração e a repulsa. Bressane é muito eficaz na criação desses universos de seres pouco ligados ao real, mas convincentes em seus pesadelos quiméricos. O casal perverso, enclausurado no ambiente opressor da casa, segue sua rotina repetida dando vazão às suas perturbações psíquicas e, aos poucos, se acabando, se entregando à ruína, se envenenando.

 

Filmes citados:
A Erva do Rato (Idem, 2008/Julio Bressane)