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por João Toledo
Chove em Nosso Amor, de Ingmar Bergman
João Toledo
Tem-se dito muito por aqui, em Sampa, que essa mostra está bem fraca. A programação não traz nenhuma grande novidade em relação ao que tem sido exibido nos principais festivais mundiais, mas traz talvez algumas ausências que foram sentidas – dentre elas os filmes de Eric Rohmer e Lucrécia Martel. O lado bom disso, no entanto, é que dá pra aproveitar as programações paralelas sem muito peso de estar perdendo algo seminal, fundamental, imperdível.
Apesar desse clima tranqüilo, quem não foi ao Festival do Rio tem muito o que correr para conseguir ver uma parcela significativa dos filmes mais relevantes no cenário contemporâneo. E quando acontece de não bater o horário, dá pra achar sempre um Bergman em meio à programação e descobrir filmes menos óbvios do diretor sueco.
Fui assistir a Chove Em Nosso Amor, segundo filme do diretor e um pouco distante ainda do cinema que viria a marcá-lo como um grande autor, com seus longos primeiros planos de mulheres desesperadas, com sua temática da culpa, presença ou ausência de Deus, sexualidade reprimida, etc. O que temos aqui é um melodrama convencional, de trajetória clássico-narrativa, mas que, ainda assim, possui algumas peculiaridades do cinema de Bergman. A presença inexorável do tempo – sempre presente no ruído do ponteiro do relógio –, agindo contra os personagens e demolindo o estado construído de sonho; também o flerte com o circo, com seus personagens erráticos, cômicos trágicos, atores mambembes etc.
Definitivamente trágico e triste, esse filme não chega a ter o mesmo peso e densidade dramática de filmes mais relevantes de sua carreira. Me faz pensar que talvez seja o A Felicidade Não Se Compra, versão bergmaniana. Além de, curiosamente, serem ambos de 1946, há uma série de semelhanças com a obra-prima de Frank Capra. Em muito, a trajetória dos dois amantes que dividem sua miséria e buscam uma vida mais digna, lembra o filme citado, temática e estruturalmente. Muito pela importância dada a ressaltar que a felicidade está no amor do casal, nas amizades que fazem, e não no que adquirem, mas principalmente pela presença de um narrador-personagem, que surge na vida do casal vindo de não se sabe onde, e interfere no rumo deles quando os defende o homem em um julgamento. Ou seja, sai de sua condição de narrador para um deus-ex-machina que, se não resolve todos os problemas do casal, ao menos os atenua e chama a atenção para aquilo que une os protagonistas. Enquanto somem na chuva, que, por mais felizes que estejam, não estia, os dois se perguntam se aquele homem não teria sido um anjo.
Filmes citados:
Chove em Nosso Amor (Det Regnar på vår Kärlek , 1946/Ingmar Bergman)
A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946/Frank Capra)








