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por João Toledo
A Vida Moderna, de Raymond Depardon
João Toledo
Em A Vida Moderna, o conhecido documentarista e fotógrafo francês, Raymond Depardon, volta a perquirir cuidadosamente a vida de camponeses e fazendeiros do interior da França. Ele retorna aos personagens que retratou pela primeira vez em 1991.
Na contramão das possibilidades que se abriram para a produção documental com a era digital, Depardon faz um filme de retratos, de uma construção de um álbum narrado e comentado por ele próprio – personagem significativo dentro do filme. Ao invés do uso de câmeras perseguidoras de momentos e espaços, que seguem os personagens em busca de retratar todo e qualquer momento do acaso que possa ser significativo para construção visual-narrativa do que seja aquele cotidiano, Depardon fixa seu tripé e observa com bastante cautela o silêncio, a quietude e as expressões que normalmente nos fogem enquanto estamos sendo guiados por gestos e cortes em demasia. Ele dá ao filme um tempo que o próprio espaço parece impor. A câmera está ali, observando os rostos, assim como o diretor está ali, como um convidado na mesa, conversando, com genuíno interesse, sobre o dia-a-dia dos camponeses.
Além desse outro tempo cinematográfico, que escolhe a cena, o momento, o enquadramento, o personagem e só depois faz o registro, ao invés de improvisar diante do que possa vir a ocorrer, existe também uma constatação de um outro tempo. O próprio título, ao mesmo tempo que parece reafirmar de certa forma um tempo que aos poucos se impõe à realidade retratada, também reforça os contrastes entre o que se pensa ser a “vida moderna” e aquilo que vemos na tela. São personagens a viver em outro tempo, sob outra regência, outro ritmo de vida.
No álbum da decadência dos fazendeiros composto por Depardon, existe espaço para esse tempo que já não mais parece ter espaço no dia-a-dia do homem urbano, e há um profundo carinho por esse universo outro que vive seu ritmo particular. Não há, no entanto, nenhum discurso fatalista, tampouco pregatório da necessidade de manutenção daquela realidade. Não há muitos discursos que não os pessoais e emotivos, desligados de valores políticos e morais. Em meio aos retratos do filme, ao mesmo tempo em que há uma intensificação da ruína, há indícios de uma possível sucessão, da herança de profissão passada a uma nova geração, mas mesmo isso é notado com uma certa melancolia. Nenhum elemento desse tipo é usado pelo filme para construir um discurso esperançoso – ou vice-versa –, e nada diminui seu caráter de despedida. É uma obra, ao final, sobre o carinho de Depardon por aquele espaço-tempo que ele vive-filma, um filme que aos poucos vai vendo se apagar uma realidade e acenando enquanto se distancia na estrada, observando o pôr-do-sol. Um belo filme, um afago carinho na face do real, no expressivo rosto silenciado.
Filmes Citados:
A Vida Moderna (La Vie Moderne, 2008/Raymond Depardon)







