por João Toledo

O cinema, em 15 minutos - Rafael Gomes e Esmir Filho

Convivendo em meios cinematográficos, onde a ampla fauna de cineastas, cinéfilos, críticos e espectadores relaciona-se (quase) harmonicamente – com sua farta diversidade de opiniões – ouvimos, vez por outra, idéias e preceitos que ousamos contestar. Pois foi em uma exibição gratuita dos curtas-metragens de Esmir Filho que me decidi pela relevância de levantar a (velha?) discussão sobre o tema em questão, para discordar homericamente do que foi dito na tal sessão. Eu me revirava na cadeira, desconfortável, enquanto o apresentador/debatedor dizia que não costumava discutir a obra de curtas-metragistas, pois um cineasta só se revela através de longas-metragens. O curta – ele dizia, com extrema autoconfiança – é não mais que um “ensaio” para o longa. O filme curto é mais fácil – continuava o sujeito –, vamos ver se Esmir terá fôlego para sustentar a narrativa de um longa-metragem, e mostrar que é um verdadeiro cineasta.

Pois é justamente antes do lançamento do primeiro longa que quero não apenas discutir a relação de alguns jovens cineastas com o cinema (a partir dos curtas aos quais tive acesso) mas também desmerecer por completo o terrível aviltamento desse formato cinematográfico de curta duração ante a suposta preeminência de filmes mais extensos.

Concordo com Esmir quando ele diz crer que a relação longa-curta é análoga à relação romance-conto. Trabalham dentro dos mesmos processos de linguagem, mas são absolutamente distintos, e não somente em termos de duração – e mesmo que fosse, desde quando qualidade se mede em proporção ao tamanho? Se não se enganam meus pensamentos levianos, era um tal de Nietzsche que afirmava pretender dizer mais em uma frase que pessoas dizem em livros inteiros. Pretensão alcançada e por vezes até ultrapassada. Pois não são poucos os exemplares na minha lista de breves mergulhos profundos. Para ficar só no exemplo mais esdrúxulo e bobinho, é impressionante como uma única foto de Cartier Bresson pode ser mais instigante, rica e deslumbrante que todas as duas horas e meia de um Código Da Vinci. E não me façam multiplicar esse tempo exorbitante pelos 24 fotogramas que ocupam cada segundo de filme! Grandeza e extensão definitivamente não são sinônimos.

Mas sem deixar que nos percamos nessa retórica maluca, eis que retomo a questão. Existe uma distinção fundamental no processo de concepção de curtas e longas; trata-se de narrativas que operam de maneiras diferentes, primando por elementos diversos. Em um curta, estamos no campo da síntese, da construção icônica de personagens, da agilidade e eficácia das metáforas. Narrativamente é o universo de construções motivadas por poucos elementos, todos inevitavelmente orientados para o único clímax, que coincide com o final. O curta é como a preparação para um tiro; a bala, a mira, o gatilho, o estrondo, e quase nunca a repercussão, os resultados, o entorno. Esses, o filme deixa para o espectador construir sozinho. O curta costuma ser apenas um ponto de partida, sem pretender esgotar qualquer tema ou assunto, mas permitindo-nos novos pontos de vista, novas avaliações, novas formas de enxergar as coisas. Parece-me realmente incompreensível que se possa considerar essa construção mais “fácil”, simplesmente por ser mais breve. É justamente por esse caráter temporal limitado que uma construção minuciosa e detalhista do todo se faz absolutamente imperativa.

Tendo em vista meu ponto de partida, pretendo abordar, no restante dessa parole enrolada, alguns dos curtas-metragens de Esmir Filho e Rafael Gomes, colegas de formação e sócios na produtora paulistana Ioiô Filmes, que sempre fazem participações ativas nos curtas um do outro. Não sei se já se pode classificar o conjunto desses filmes como “obra”, mas é algo que – para exaltar tanto quanto para, possivelmente, desvalorizar – certamente merece um foco de atenção, seja pela temática rara (e comumente abordada de forma simplista) na cinematografia nacional, seja por fenômenos que envolvem algumas de suas produções.

Comecemos por aí. Para quem não sabe, a dupla Esmir-Rafael (+ Mariana Bastos) é responsável pela coqueluche “youtubiana” Tapa na Pantera, que é certamente um dos filmes brasileiros mais assistidos de todos os tempos. Apesar da aparente simplicidade no registro, que emula uma entrevista documental, há algo ali para além da cativante personagem de Maria Alice Vergueiro. Existe um jogo que transita entre a atuação brechtiana – uma espécie de desmistificação crítica de valores sociais e paradigmas imagéticos relativos à terceira-idade – e o olhar irreverente e intrinsecamente jovem dos realizadores, por um viés descompromissado com o naturalismo e a verossimilhança. Isso se reflete em alguns dos comentários da atriz; como as brincadeiras sobre a memória e sobre o não-vício de mais de trinta anos.

Reconhecido este ângulo de observação e construção de suas obras cinematográficas ficcionais, somado a um interesse pelo teatro – presentes tanto no curta de estréia da dupla, Ato II Cena 5, quanto em Tudo O Que É Sólido Pode Derreter, curta seguinte de Rafael Gomes –, e já começamos a perceber a motivação de certas escolhas estéticas e narrativas. O despontar de elementos recorrentes e abordagens que representam um olhar da dupla sobre o mundo começam a demonstrar integridade e a tomar forma de “estilo”.

No primeiro curta, apesar de engrenagens um pouco mal lubrificadas – planos que não parecem se encaixar, cortes abruptos e movimentos de câmera que tentam trazer movimento a uma mise-en-scène de pouca riqueza (apesar do bom trabalho de fotografia e um razoável esforço de direção de arte) –, já se vê a importância dada à busca pelo primor do texto; esmero incomum na produção nacional, mas ainda com tal qualidade. Mas, principalmente, vê-se que a verossimilhança é mandada às favas, o realismo é transmutado em operação dramatológica, enchendo a cena de movimentos marcados. Já é o primeiro passo numa direção que seria seguida por ambos e, também, um passo na contramão das atuais tendências ultra-naturalistas, marcadas por planos longos onde a ação dramática costuma se desenvolver como um todo, pela liberdade dialógica dos personagens, e por atores devidamente stanislavskianizados por oficinas anteriores às filmagens. Que fique claro que não me oponho a nenhuma das duas formas, apenas aponto as diferentes estratégias como forma de identificar o cinema que esses jovens têm feito.

Para uma abordagem mais rica da obra de Rafael, é preciso falar de seus dois filmes seguintes: Tudo O Que É Sólido Pode Derreter e Alice. De cara já dá pra dizer outro elemento que passeia por todos os percursos cinematográficos do rapaz; a utilização da narração em off via protagonistas. O que indica um interesse pela escrita, pela dramaturgia, por uma busca tanto imagética quanto
verbal na expressão de valores e sentimentos. Seu maior mérito é a qualidade de ambos elementos em separado. Seus roteiros são honestos, repletos de textos ricos e líricos (sem nunca soarem piegas), e sabem dar voz aos personagens que retratam. Os escritos de Rafael se adequam ao universo abordado com a sutileza e o cuidado de alguém que parece já ter estado lá, pertencido àquele universo de dúvidas e descobertas. Sua preocupação formal na retratação do tema também é apropriada, seus planos são expressivos e bem recortados. O problema maior está no encaixe das pecinhas.

A voz do roteiro, essa narração quase onipresente, desloca os filmes de qualquer preocupação acerca de uma construção sólida do enredo através de cenas significativas em termos de apresentações de motivações ou conflitos. Estes são apresentados pelo off e apenas reverberados na imagem. Mesmo a construção dos personagens, através de interações com as outras personagens e com o meio onde se encontram é posta em segundo plano diante da opressão dessa construção por meio de narrações. Isso cria um estado de desencontro entre a voz e a imagem, um espaço vago na mise-en-scène que dá aos filmes um ar etéreo, pouco palpável, relegando a imagem a uma construção simplória de signos espalhados e dando à montagem uma liberdade quase videoclíptica.

Esse tom impera em ambos os filmes, mas ainda assim, aquela juventude buscando autonomia no espaço, nas relações íntimas, buscando se encontrar mesmo quando o acaso não permite, quando o ambiente se impõe enquanto barreira, buscando respostas em meio a tanta dúvida e incerteza ainda me atrai. Essa esperança quase desencantada do jovem perdido na solidão das angústias individuais diz respeito à nossa juventude, a mim, a essa geração de pais divorciados, sem utopias nem grandes sonhos coletivos. Nesse sentido, a atmosfera volúvel das diversas fotografias que compõem o todo, encontra alguma razão de ser, alguma solidez, mas, como o próprio Rafael anuncia no título de seu curta, pode derreter.

O tema da juventude também é central na obra de Esmir Filho, que acirra cada vez mais a busca por retratos desse aterrorizante universo de incertezas. Mas, antes de chegarmos lá, visitemos imagens de sua fábula musicada, onde ele apresentou os primeiros sinais de riqueza cinematográfica, apesar de alguns poucos excessos desajeitados. O belo roteiro de Ímpar Par que, ao contrário do que foi dito sobre Rafael, consegue justamente a precisão na costura da imagem com a voz do narrador; é um trabalho de harmonização constante, com engrenagens que fazem oscilar entre a narração e a imagem de forma que um sempre completa e acrescenta sentidos ao outro.

Detalhes como a narração que alterna entre o off e o on-screen; ou pequenos recortes nos olhares para a vitrine; os gêmeos atrapalhados lendo jornal e escolhendo errado os sapatos; as rimas visuais; as metáforas presentes tanto nos diálogos (o ranger dos calçados como resposta aos caminhos percorridos) quanto na imagem (caixa de cimento fresco que mais tarde se solidifica, como a relação); a presença de um violinista que, justamente por estar descalço, alheio àquele mundo, demonstra a qualidade de um também narrador, alguém que ajuda a conduzir, sonoramente, a história; são todos elementos que fazem, deste, um filme que se atravessa com sorrisos largos.

A riqueza de minúcias é a primeira coisa que salta aos olhos, e é justamente essa exuberância que nos pode afastar o foco de alguns detalhes narrativos um pouco desajeitados. Em um dado momento – só para ilustrar a causa – o sapateiro deixa, de presente, um lindo par de sapatos para a bela Helena; com o despertar da cidade, ele sai às pressas com medo que Helena o veja, deixando pra trás, sem que perceba, uma de suas velhas botas. Ele percorre o caminho de volta até sua loja, onde, finalmente, percebe a falta do calçamento. Tudo bem; é uma narrativa fabular, regada de inverossimilhanças; mas esse caráter irreal precisa ser crível para que embarquemos juntos na verdade daqueles personagens, por mais absurdos que sejam suas trajetórias. Durante todo o filme, a narrativa nos faz crer nos poderes quase psíquicos do expert em sapatos. É no mínimo estranho vê-lo perder os seus próprios sem sequer notar.

Mas sejamos justos; alguém poderia advogar que essa perda do calçado demonstra metaforicamente como sua excessiva preocupação com servir aos outros o estava fazendo esquecer-se de si. Também é possível defender que isso representa o despojamento dos medos e das guardas, afinal, e só depois de despir os pés que ele se abre completamente e se permite conversar com Helena. Tudo bem, não gosto, mas também não abomino – ficamos empatados?

Enfim, voltemos ao que interessa: Ímpar Par, em sua construção, é puro vaudeville, e alude ao universo teatralizado do cinema mudo, da mise-en-scène marcadinha, expressividade excessiva, presença constante da música, dando o tom da cena. A diferença são aquelas cores vivas de um lugar fantasioso qualquer, em tempo algum, e a presença da voz, da narração e dos diálogos embebidos de significações. Nesse sentido, trata-se, talvez, de uma atualização do gênero, de uma revisita interessada, tanto no passado glorioso desse cinema, quanto no presente e nas possibilidades que o cinema nos trouxe desde aquele tempo. Das homenagens, a mais rica.

Seguindo rumo ao próximo curta de Esmir e à temática premente do universo dos jovens, entre as diversas descobertas acerca da sexualidade (também presentes no bobinho Vibracall, no premiado Saliva e, pelo que tem dito em entrevistas, também estará em seu longa-metragem), embarcamos no, até então, mais premiado de seus filmes, chamado Alguma Coisa Assim. Esmir constrói aqui um belo retrato de uma noite importante para dois personagens. O verniz visual, os recortes, a montagem dinâmica, as marcações e os diálogos bem delineados, com respostas sempre interessantes, demonstram novamente seu desinteresse por uma retratação fiel à realidade. As cores cortantes e os constantes chicotes e cortes ágeis referem-se claramente a esse olhar do jovem para o mundo, a esse domínio particular oscilante, em constante transformação.

A música em Alguma Coisa Assim também nos abraça a todo o tempo, como fizera no curta anterior, mas aqui o silêncio também ganha força e vigor. Ao sair da boate, o casal de amigos atravessa as ruas desertas de uma São Paulo apagada, emudecida. Ambos caminham em busca do próprio foco; não se comunicam, talvez justamente por não saberem sequer como eles próprios sentem-se a respeito do que acabara de acontecer. Eles são alguma coisa assim, em uma situação mais ou menos assim, indefinível, como seus valores, pensamentos ou posições de encaixe nos rótulos que a sociedade oferece. São jovens, são inconstantes, são impulsivos, amedrontados e atrevidos, são amigos e alguma coisa além, mas não sabem direito o que fazer com tudo o que sentem, e dizem justamente o oposto do que deveriam, enquanto dançam, com seus diálogos entravados, ao redor dos assuntos que não conseguem abordar.

Somente a partir da seqüência do supermercado, a dupla Caio e Mari começa a demonstrar um interesse real um pelo outro. Primeiro, Caio divaga sobre saber e não saber o que realmente quer; em seguida, se comparando com comidas congeladas que possuem rótulos contendo modos de preparo e molhos que combinam melhor, Mari fala sobre a sedução de rótulos supostamente facilitadores. As únicas verdades são ditas como mentiras e as conversas transitam entre uma busca por expressar suas pulsões – mesmo que apenas através de metáforas – e uma vã procura por tentar encontrar o outro a partir das chaves sociais simplificadoras e limitadoras. Ali, naquele ambiente, eles nunca se encontram, a não ser na irreverência de brincadeiras quase infantis.

Na linda cena final, os dois sorriem, de costas um para o outro, pois se não ousam dizer a verdade sobre o que sentem, ao menos ousam sonhar. E é ali, na possibilidade do sonho, que o filme termina. E mais uma vez o silêncio se impõe; talvez, para que projetemos nossos próprios sonhos. Quando dizem que Esmir Filho e Rafael Gomes são promessas do cinema brasileiro, enganam-se redondamente pois, na cinematografia nacional, ambos já fazem sua parte. Compartilham seus olhares conosco através disso que é, certamente, tão cinema quanto qualquer longa-metragem. Cinema em quinze minutos.

Filmes citados:
O Código Da Vinci (Da Vinci Code, 2006/Ron Howard)
Tapa na Pantera (Idem, 2006/Esmir Filho, Mariana Bastos, Rafael Gomes)
Tudo O Que É sólido Pode Derreter (Idem, 2005/Rafael Gomes)
Alice (Idem, 2005/Rafael Gomes)
Ímpar Par (Idem, 2005/Esmir Filho)
Alguma Coisa Assim (Idem, 2006/Esmir Filho)
Vibracall (Idem, 2006/Esmir Filho)
Saliva (Idem, 2007/Esmir Filho)