por João Toledo

EM2: Mostra Especial Minas 2

 

Com os filmes: Matodentro, Ará, The Nature, Tricoteios, Moradores do 304.

Por João Toledo

 

Em protesto à má qualidade dos produtos audiovisuais das duas seleções da Mostra Minas gostaria de indagar sobre o “Especial” que dá título à seleção. Mais do que representar o mérito dos filmes, essa valoração parece ter função publicitária na programação, de forma a atrair mais vítimas para dentro do cinema. Até aí, nenhum problema, pois é mesmo interessante que se tente atrair a atenção do público para uma produção local em possível efervescência e crescimento. O problema está no fato de que os filmes selecionados, em grande parte, ou são muito ruins ou são não-filmes; vídeos caseiros, registros de viagens e coisas que representam algo muito mais para quem faz do que para quem vê. Não se vê ninguém propondo instigantes questões a partir de investigação estética, de linguagem. O que se vê é uma seleção que, se não existe para aguçar os contrastes entre si e a mostra competitiva, simplesmente não faz sentido. Exibir para cumprir tabela me parece um conceito incompreensível.

Matodentro

O filme de Dellani Lima e Ana Morais é resultado de uma viagem a Conceição do Mato Dentro. Pelo que Ana deu a entender na apresentação do filme no início da sessão, ele surge de uma notícia de que algo destrutivo à natureza acontecerá na região; o deslumbramento com o espaço, é, portanto, fruto de uma relação nostálgica por antecipação com o lugar que será palco de algo terrível. O filme funciona algo como uma mensagem ecológica aguçada pela relação de simbiose entre homem e natureza. O vídeo, inteiro realizado com fotografias da viagem, é um enorme compêndio da mais insignificante exploração visual de um espaço. Do stop-motion que constrói com pedrinhas diversos símbolos que de alguma forma representam libertação, não emana nada além da óbvia relação que travam com o ambiente. É, no final das contas, um registro pessoal de uma viagem, e merece ser guardado nos arquivos do computador como lembrança afetiva, mas não explorada enquanto produto audiovisual significativo ou relevante já que não o é.

Ará

O coro musical em tom de seriedade e o pequeno foco de luz na tela já parecem dar indícios de que este é um filme-tese, que busca opinar sobre um assunto a partir de signos que invadem a tela. A luzinha, como não poderia deixar de ser, é a luz da vida, que da forma a um embrião e se torna mulher, mulher de massinha. A mulher, então, caminha pela estrada da vida e é constantemente interrompida por objetos assustadores que transformam seu corpo à medida que avança, retalhando-a e sugando a luz de sua vida. Apesar da intenção de certa forma louvável de trabalhar a estranha relação do homem com seu corpo a partir de dados estéticos, incorre pela bobagem de emitir um juízo de valor generalizante principalmente na forma exagerada que trata cada procedimento de transformação estética da mulher. Revela, de forma banal, o óbvio da auto-escravização em função da busca por perfeição, e o revela de forma auto-importante, buscando impacto emocional com a música e a brutalidade do gesto de mutilação do corpo. Ao final, como não poderia deixar de ser, a mulher se torna um rato, correndo em uma esteira; a luz da vida, então, se apaga.

The Nature

O curtíssimo filme, intitulado The Nature (em inglês, sabe-se lá por que), associa uma imensa e crescente quantidade de luzes, holofotes e clarões de todas as cores com sons de animais. Grilos, pássaros, moscas e outros bichos parecem se agitar mais e mais à medida que o número de luzes aumenta em quantidade, tamanho e ritmo. O título parece confirmar a suspeita de que seria, também, um filme ecológico. Mesmo em sua extrema simplicidade visual e sonora, é possível traçar um paralelo com o visualmente e tecnicamente bastante complexo Pajerama, animação 3D da competitiva brasileira. Dois filmes sobre a invasão urbana no espaço da natureza; dois discursos sobre a modernidade que nada acrescentam a qualquer discussão.

Tricoteios*

por Marcelo Miranda

Pegar o Grupo Galpão e levá-lo ao cinema poderia até ser um exercício interessante, visto ser este uma das trupes mais significativas do teatro mineiro. Mas carecia de haver um pensamento de cinema para além de apenas colocar na tela o Galpão ele mesmo. O que se vê aqui é um teatro filmado - não naquela idéia de palco ou marcação que insiste em servir de muleta para quem "acusa" determinados filmes de serem "teatro filmado", mas sim na linguagem e nas escolhas estéticas de Tricoteios para o que pretende narrar. Basicamente trata das fofoquices típicas de interior de Minas, com um casal acompanhando determinada situação e criando eles próprios um enredo que nada tem a ver com a realidade. As interpretações vão do histriônico ao exagero verbal e corporal, numa chave dramática mais apropriado aos limites de um palco do que ao infinito do campo cinematográfico.

 

Filmes Citados:

Matodentro (Idem, 2008/Dellani Lima, Ana Morais)

Ará (Idem, 2007/Sheila Neumayr, Juliana Xavier)

The Nature (Idem, 2007/Eduardo Zunza)

Tricoteios (Idem, 2008/Eduardo da Luz Moreira, Cristiane Zago, Rodolfo Magalhães)

Moradores do 304 (idem, 2007/Leonardo Cata Preta)

*texto extraído da cobertura da 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto