por João Toledo

Documentário

por João Toledo

O espetáculo de abertura do CineOP, ilustrado por seus diversos vídeos, já prenunciava, com uma montagem frenética de imagens de filmes nacionais da década de 60, a tensão surgida do diálogo histórico proposto pelo festival. De certa forma, o que víamos era a inventividade de uma década – onde um estado de absoluta efervescência cinematográfica nos deu grandes mestres do calibre de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla (não à toa, sujeitos foco da mostra) – recortada e revisitada pelo presente, por suas ferramentas tecnológicas e seu frenesi de fusões, fragmentações e sobreposições – uma loucura de certa forma institucionalizada, acomodada em sua forma ágil que emula as pseudo-novidades da MTV.

De Qualquer maneira, o que veríamos em seguida seriam os primeiros curtas-metragens de Glauber e Sganzerla, que, se de alguma forma nos transportam ao passado, revelando pensamentos urgentes de dois artistas seminais, também demonstram a atualidade de uma construção que não carece de atualização. Ao longo do tempo, elas se tornariam imagens sem tempo, de um tempo-brasil ou tempo-algum em busca de uma forma ideal de construir a imagem-reflexo de um país que, mesmo mudado em aparência, permanece o mesmo em essência.

Documentário, primeira experiência fílmica de Sganzerla, é um curta-metragem a passeio pelas ruas de São Paulo, acompanhando dois amigos que procuram um filme que ambos queiram ver.  Muito mais que uma brincadeira neo-realista com a câmera na mão, acompanhando as três horas de indecisão dos dois amigos cinéfilos, o curta é uma extensão do Rogério crítico (que na época escrevia para o Estado de São Paulo) e de seus pensamentos acerca da produção nacional. Aquele era o início de sua busca por um cinema do corpo antes de um cinema da alma, de uma narração imagética que fosse antes mise-en-scène que história, de uma câmera flagrante da realidade brasileira, não apenas revelando a realidade do homem no espaço subdesenvolvido, mas retratando-o com um cinema também subdesenvolvido, precário em seu aparato, parco em sua condição financeira, simples em sua estrutura mas, ainda assim, extremamente eloqüente, comunicativo e sofisticado no seu recorte do espaço-tempo.

Se aqueles personagens estavam (estão ainda) em busca de um filme que os satisfaça, estava também Sganzerla em busca de um cinema que o satisfizesse, um cinema que respondesse às questões que ele enquanto crítico levantava. Era a prenunciação de magníficas coisas vindouras. O CineOP começa bem; espero que o presságio de Documentário se repita na mostra, abrindo caminho para grandes filmes.

Filmes Citados:
Documentário (idem, 1966/Rogério Sganzerla)