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por João Toledo
Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar
Não há escapatória. Este é o texto que precisa nascer, independente da clareza (ou falta de) das idéias que se pretende aqui abordar. O processo de gestação vem se dando desde a 11ª Mostra de Tiradentes, onde pudemos nos confrontar com muitas formas de se pensar e ver o cinema que busca se construir por aqui, por esse país que nos abriga, por essas terras vastas e identidades ainda mais vastas; lá na pequena (e praticamente cenográfica) cidade barroca, pudemos encontrar os mais variados pensamentos acerca não apenas da produção de imagens, mas da produção de pensamentos a propósito das tais imagens que, felizmente, se multiplicam não só em número, mas em complexidade também. Em seguida veio a 1ª Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica; e foi aí que as contrações começaram a se intensificar e eis que me encontro diante de vocês em pleno trabalho de parto, sem sequer saber o sexo do bebê. Espero, portanto, que seja uma aventura prazerosa.
Afinal, para quê serve escrever sobre cinema, e para quem é que se escreve também?
Pode até não ser uma regra, mas a idéia de discorrer criticamente e com responsabilidade sobre um esforço fílmico me parece algo necessariamente ligado a uma vontade grande de entrega ao filme e ao que ele tem a nos dizer, ao que ele pode suscitar sensorialmente, intelectualmente, instintivamente entre outras coisas. Se levarmos em conta essa necessidade de entrega, essa abertura plena ao que quer que seja, fica fácil entender que cabe inevitavelmente ao espécime crítico uma postura de constante purificação de preconceitos que atrapalhariam a fruição da obra. Essa desconstrução de juízos me parece uma das mais importantes características de um bom crítico, e o que nos leva a perceber que talvez seja também algo importante na difusão da idéia de um filme enquanto obra individual e que deve ser avaliada, primeiramente, a partir de si, de suas especificidades internas, para, a partir daí, ser vista dentro do contexto da obra de um possível autor, pertencente a um espaço-tempo específico, conseqüência de determinados fenômenos e por aí vai. Não como algo que se restringe a si, mas que deve partir de dentro para fora.
Nesse sentido, a escrita não preconceituosa é uma forma também de abolir a visão prévia que se tem de certas “espécies” de filme, como se fossem reproduções sistemáticas toscas ou acefálicas que sequer mereceriam a atenção de alguém que leva o cinema a sério – um ótimo exemplo desse tipo de abordagem é a crítica extremamente elogiosa de Ruy Gardnier, da revista Contracampo, ao filme As Panteras Detonando. Ali se desconstrói a visão de filme fácil, bobo ou irrelevante, que um projeto como esse, dentro de um vasto contexto de filmes idiotas, pode suscitar no espectador.
Nesse processo de compartilhamento e discussão de idéias que extrapolam a simples crítica per si, o crítico estaria trabalhando também na construção e reforma da maneira de se assistir a um filme. Para além do clichê equivocado do crítico – que teria como prioridade falar bem ou mal de filme e demonstrar com arrogância seu vasto conhecimento e superioridade aos autores da obra –, ou mesmo para além da visão desse sujeito como sendo o cara que discute com complexidade as articulações estético-narrativas do filme com o propósito de simplesmente desvendar o que há por trás da obra, o crítico pode ser um agente transformador não só de uma cinematografia (a partir da maneira como a discute e a coloca em tensão com a realidade), mas um agente transformador do público, da visão que se tem do cinema. É um papel não de direcionamento do olhar ou restrição a fórmulas regradas de observação, mas de ampliação da percepção e constante demolição dos estereótipos que se constroem. E nesse sentido é possível propor ao espectador/leitor uma experiência que perpetue o assistir-perceber-refletir de forma que ele também se torne um agente transformador da realidade e propagador de pensamentos críticos. A dialética do crítico chega à síntese e é tornada novamente em tese para que a discussão se multiplique.
Escrever crítica, portanto, figura como um processo de construção, reconstrução e desconstrução constantes; um processo dialógico que se dá a partir do atrito com o universo de um filme (microcosmo), de uma cinematografia (macrocosmo), e que gira em torno de uma busca por posicionamentos em relação à parte e, conseqüentemente, ao todo. É um processo de ingestão e digestão, que, em seguida, demanda uma tomada de partido – e aí reside muito da questão: a criação de pensamentos acerca do fazer cinematográfico a partir de qualquer embate audiovisual torna o crítico parte relevante do processo criativo, pois ele não outorga juízo de valor apenas, mas participa da criação de formas de pensar, reciclar, renovar e transformar uma cinematografia a partir da partilha do seu olhar com quem estiver disposto a aceitar o desafio.
Mas porque e para quem se escreve afinal? Escreve-se, acredito, por pura falta de opção. Afinal, qual é o propósito se já não há tantos críticos? Pois – parafraseando Cyro dos Anjos em O Amanuense Belmiro – porque é que uma gestante haveria de dar a luz havendo já tantos de nós? A vida, com diz o amanuense, fecunda-nos a seu modo, e nos faz “conceber qualquer coisa que já está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço”. E a todo exercício de paixão é impossível impor questionamentos que transcendam a inevitabilidade desse tornar-se parte e buscar-se em meio ao todo, ser pertencente a algo, e não alheio a ele, como é comum que se pense o crítico. E nessa busca por brincar com as peças, redescobrir as regras e pertencer a algo, o crítico passa a tentar encontrar, no pensamento concreto, elementos que consigam (na metáfora do editor da revista Cinética, Eduardo Valente, extraída do documentário Crítico, de Kleber Mendonça Filho) “tirar o filme para dançar”, fazê-lo bailar com as novas regras que se cria para aquela obra em particular. É algo como tentar dialogar com o filme, e não a partir de pressupostos particulares – alguns deles, inclusive, inevitáveis e até positivos –, mas buscando aprender a falar a língua dele, a compreendê-lo a partir de sua sintaxe única. E o resto é mera conseqüência do inevitável primeiro ato.
Nessa eterna busca por discutir, no cinema que é feito, aquilo que nos move e nos transforma enquanto seres humanos – a partir dos infindáveis meios de organizar e conciliar imagens, formas, cores, movimento e sons – qualquer eventual direcionamento e adequação a um público específico parece limitador no sentido de não haver equações que consigam, de fato, prever nem o cinéfilo e menos ainda o leitor. Assim como o crítico, o leitor é conseqüência do cinema, e a condescendência com certas limitações desse possível interessado é a mais cruel das práticas da arrogância. O ato de subestimar o leitor pode ser inclusive um ato de complacência com a própria ignorância, já que nivelar por baixo é desculpa para manter a argumentação à superfície.
Cléber Eduardo, também editor da Revista Cinética, argumentou em uma mesa redonda da Mostra Filmes Polvo que, como crítico, primeiro faz o bolo para depois de pronto descobrir se alguém se interessa em comê-lo. Eu não só compartilho do bolo do Cléber, mas também da metáfora que foge de um erro que é insistentemente cometido tanto no âmbito crítico quanto no da realização – um exemplo disso é o recente filme mineiro, 5 Frações de Uma Quase História que, ao ser apresentado na última Mostra de Tiradentes, teve manifestada a idéia de que aquele era um legítimo representante dos filmes feitos para “o público”. E falavam com orgulho desse tal público como se ele existisse de fato, como se fosse algo concreto, algum tipo de massa expressiva com gostos específicos, enfim, qualquer coisa a que se pudesse de fato direcionar um filme. E a essas alturas já deveríamos saber; público (assim como leitor) é um conceito ficcional – a não ser, e esse já é outro assunto, que se transforme arte em objeto prioritariamente mercadológico. Aí o trem vira uma sopa de estatística, público alvo, moda, tendência, economia. E o pior de tudo: costuma dar errado.
Mas é aqui também que se esconde outro probleminha. Não é porque o conceito de leitor é ficcional que se deve tratá-lo como um fantasma; ele é parte ativa do processo e deve ser considerado. Toda operação de expressão é também uma operação de troca. Nesse sentido, não o hermetismo inteligente (este que pode incitar a pesquisa, aguçar a inteligência e do qual se pode extrair deleite intelectual tal como dum filme complexo), mas o rodeio de palavras e o excessivo enfirulamento despropositado da argumentação embarreiram a transmissão do conteúdo. Todavia, esses certamente são artifícios menos repreensíveis que o ato de subestimar o leitor, mais do que atrapalhar, impede qualquer possibilidade de crescimento.
Voltando à colocação de Cléber, essa liberdade de que a crítica pode e deve gozar – ou ao menos essa nova crítica autônoma – parece o geneticamente enriquecido fruto da migração a mais acessível (em todos os sentidos) mídia disponível ou existente hoje; a internet. E isso não é nenhuma surpresa, mas há questões mais complexas por trás disso. Por um lado, há tantas vantagens como liberdade editorial, liberdade de formas de expressão, de tamanho de textos, de pluralidade de idéias, de liberdade de acesso, de não restrição a públicos-alvo, de complexidade e profundidade argumentativa, possibilidade de ensaios que rediscutem a forma e espaço da crítica além de outras várias coisas que não me ocorrem aqui e agora, na mesa de parto. Mas, por outro lado, há também uma série de questões como a de estar perdido em um infindável oceano de dados, diluído em meio a uma quantidade espantosa de lixo-virtual, e isso somado à desconfiança que se tem (e que se deve ter) das informações na rede, a essa postura do leitor que, a priori, não dá nenhum tipo de crédito ao espaço virtual de propagação de pensamentos em oposição à legitimação excessiva da mídia impressa.
Estranhamente, o não vínculo com grandes empresas e a inexistência de pagamentos aos redatores da maior parte dos veículos de crítica online as relega às margens dessa nossa sociedade pautada por valores financeiros e que encontra legitimação somente nas resultantes do câmbio desses valores. Isso dá a esses espaços um ar de negação do vigente, rompimento absoluto, pensamento marginal (sem referência qualquer com o movimento) e doutrinamento quando, na verdade, a inexistência da obrigação do trabalho por meio de pagamento, o fato de escrever-se sem compensação salarial, demonstra, talvez não o valor profissional do sujeito cuja ascensão levou-o ao jornaleco bambambã, mas o valor do sujeito cuja vontade de discutir e a indiscutível paixão levam ao extremo de uma dedicação sem fins lucrativos. Esse algo que deveria ser pressuposto e ser considerado louvável é um esforço (ainda) praticamente pulverizado mediante o peso histórico de um periódico.
Mas há aspectos negativos também no âmbito crítico. É fácil perceber, por exemplo, que muitas vezes a carapuça serve e há sim uma espécie de rompimento, de negação desmedida do vigente. Talvez negar faça parte do percurso histórico em busca de um equilíbrio, mas é comum que se veja, por exemplo, a crítica militante de internet radicalizar no posicionamento acerca de algumas discussões. Exemplo disso é o excesso de defesa de uma discussão da mise-en-scène em detrimento da discussão da organização narrativa, da construção do roteiro (pensando que estes elementos carregam uma carga sociológica, ideológica, política, histórica, mercadológica e tal, e que podem ser geradores de fenômenos sociológicos, mercadológicos e por aí vai), quando, na verdade, essas coisas deveriam aprender a andar juntas, sem que se desconsidere algo por suposta menor importância. Por outro lado, não se pode negar que a discussão proposta, mesmo que radical, ainda me parece muito mais rica, inteligente e comprometida com o que o filme tem a oferecer do que a crítica de historinha, a crítica de moral, a crítica de bom e ruim, a crítica de vá ou deixe de ver, a crítica que analisa elementos do filme em separado, que se permite ser pautada por questões de mercado, que se permite rebaixar-se a comentários simplórios, a ser condescendente com o leitor, a ser editorialmente esquartejada e relegada a espaços ínfimos e desimportantes e, principalmente, a crítica que se permite submeter-se.
A crítica, assim como os filmes, continua me incitando a interrogar o mundo e a ela própria no sentido de compreender seu espaço (literal e abstrato) no universo do cinema e meu papel colaborativo dentro desse universo. Na tentativa de compreender a mídia, ao que tudo indica, ainda falta o suficiente pra render muita discussão. E na tentativa de compreender o processo de descobertas, tensões, articulações, mudanças de parâmetros e paradigmas, formas de ver, descobrir e relacionar com a obra, desmistificar verdades e repensar sentidos, certamente há ainda muito mais do que eu possa prever, e espero que esses pensamentos, por menores que sejam, possam sempre gerar discussões amplificadoras.
Como não existem ainda exames de ultra-som para pensamentos críticos, descubro-me ainda imerso em excessos de fragmentos de idéias e percebo-me diante de um parto ainda maior do que o estimado – é possível dizer que será um nascimento demorado, pois se trata de gêmeos. Seguem, portanto, na próxima edição, com mais ou menos lucidez, o restante das elucubrações sobre a crítica, a realização, suas influências mútuas, e o espaço de ambos neste momento de pluralidades e convergências que hoje vivemos e, espero, assimilamos (de preferência, com algum gosto).
Filmes citados:
Crítico (Idem, 2007/Kleber Mendonça Filho)
As Panteras Denotando (Charlie’s Angels: Full Throttle, 2003/McG)
5 Frações de Uma Quase História (Idem, 1979/Cristiano Abud, Cris Azzi, Thales Bahia, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo, Armando Mendz)
Livros citados:
O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, 2001
Revistas citadas:
Contracampo (http://www.contracampo.com.br/)
Revista Cinética (http://www.revistacinetica.com.br/)
Festivais citados:
11ª Mostra de Cinema de Tiradentes
1ª Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica: entre a reflexão e a realização







