por João Toledo

Estradeiros, de Sérgio Oliveiro e Renata Pinheiro

por João Toledo

 

Estradeiros começa com vista para o mar. A sinopse diz “terra à vista”. Para onde e, acima de tudo, de que maneira olhar; eis a questão central de qualquer filme. Estradeiros, boa parte do tempo, parece estar perdido no oceano, brincando de olhar sem o compromisso de enxergar coisa alguma. O gesto do olhar está dissociado de tudo o que se vê, como se as formas estivessem destacadas dos sentidos. Nesse sentido, a vontade do filme de mostrar a que veio quase sempre fala mais forte do que o interesse pelo que seus personagens têm a dizer.

 Nunca chegamos de fato muito próximos dos tais estradeiros, desses nômades, tribos, seres deliberadamente à margem – mantemos uma distância saudável para observarmos sem muita imersão. Somos tocados superficialmente; só ouvimos deles o discurso oficialesco que eles oferecem a qualquer passante. A condição do filme na relação com esses seres nunca transborda essa relação passiva, passante. Não os seguimos, os assistimos passar. Sobram momentos em que, com generosidade, atribuímos sentido aos gestos íntimos de uma família; percebemos o afeto e nos entregamos. A distancia, no entanto, continua. O filme não se desvencilha de seu olhar estrangeiro, que observa aqueles personagens de uma perspectiva que tende a uma aproximação antes sociológica que íntima. Está-se em busca de estudar aquela realidade, ao que parece. Não de se chocar com ela, de produzir relações. O verniz os mantém longe, intocáveis. São, agora, peça de arte. Formas para contemplação. Porque tudo ali é antes arte que mundo.

  Para quê, afinal, a câmera está a girar? Porque insiste em nos entortar? Como metáfora, tudo é tão superficial quanto o contato com os estradeiros. Um ou dois dias, e adeus. A estrada vista de longe é transformada numa pista de autorama, e a pedra gravada de hieroglifos vira tela para a projeção de imagens diversas. Tudo parece distante, descompromissado. Enquanto imagens de uma passagem, de um trajeto radical e transformador, me parecem imagens bastante estáticas; não movimentam afetos, não propõem questões, apenas insistem nos vícios de um cinema já acostumado a ser notado por sua excêntrica presença. O real personagem do filme é a câmera. Se é que já avistaram a terra, tomara que aportem logo, pois estou com um leve enjôo estético.

  

* Visto na 15ª Mostra de Tiradentes

 Filmes citados:

Estradeiros (2011/Sergio Oliveira, Renata Pinheiro)