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por João Toledo
Missão Madrinha de Casamento
O medley sexual constrangedor como cena inicial é, de saída, uma espécie de carta de intenções: esse será um filme de mulheres bem diferente daquele que a indústria tipicamente demanda de um chick flick. Não, ele não quer escapar do gênero, não se aventura narrativamente por caminhos desconhecidos, também não escapa do que a crítica tipicamente reduz a “clichês” (como se os clichês não fossem ricamente representativos de uma cultura imersa em estereótipos – e como se escapar deles fosse um mérito intrínseco). Não se trata aqui de um portal de novas descobertas cinematográficas; enquanto macro-estrutura, estamos em terreno seguro, devidamente explorado e decodificado pelo espectador mais desavisado. São, afinal, os detalhes que dão vida, energia e complexidade a essa estrutura cansada.
Em Missão Madrinha de Casamento, dá-se prosseguimento à saga dessa geração de cinema – produzida por Judd Apatow –, de renovação da comédia americana a partir de um olhar franco e atento para o mundo, passando pela desconstrução da típica família americana, pela re-fundação do personagem enquanto sujeito e não mais objeto do filme, pela não negociação com a moral e com o bom gosto. O desajuste não é mais mera fonte de humilhação de uma órbita secundária do cinema industrial americano, mas o núcleo de um projeto que está longe de se deixar sucumbir à sedução barata da beleza fácil e do bom gosto, dos imperativos de mercado e clichês mais perniciosos da indústria. Todo o Missão Madrinha de Casamento, aliás, é uma espécie de briga épica entre o requinte, beleza e glamour (representados pelos preparativos de uma festa de casamento), e a podridão explícita e ruína moral que está por trás e vem a reboque dessa grande festa de excessos e imposição visual da perfeição e do gosto popularmente aceito e legitimado: uma briga entre o belo e a aberração.
Não cabe nesse cinema o modelo de beleza, de comportamento, de sucesso e de relacionamento que o cinema americano forçosamente oferece ao mundo. Ao invés disso: protagonistas masculinos acima do peso, protagonistas femininas acima da idade típica, personagens desempregados, sem rumo, sem meias palavras, vacilantes e constantemente equivocados, vivendo conflitos comuns, ordinários, vivendo dores tangíveis e pequenos sucessos. Se parecem conosco, e nem por isso são menos cinematográficos.
Confesso que tem sido cada vez mais difícil criticar negativamente qualquer filme que ainda resista com alguma pulsão humana dentro de um contexto industrial grotescamente tecnicista, que cada vez mais acentua a polarização entre o produto, acessório da praça de alimentação do shopping, e aquele outro cinema que chega pobremente às salas sucateadas do dito circuito alternativo, para uma breve temporada. Em um cenário de difícil otimismo, toda obra que de algum modo ameniza esse abismo merece aplausos e um pouco de carinho, pois indica ainda a possibilidade de um mundo menos binário, menos pobremente dividido entre coisas boas ou ruins. Não, não se trata de um grande filme – apesar de alguns grandes momentos.
No mínimo, o filme de Paul Feig explora o humor de forma arriscada. Ele sabe que o humor não é uma coisa fixa, imóvel. É algo que, por certos caminhos e ângulos, pode ser domado e até compreendido enquanto mecanismo; muitos diretores o fizeram com controle e precisão clínicos. Mas interessa a Feig o humor enquanto fera instável, indomada, reflexo de seu tempo, interessa testar seus diversos limites, visual e dramaticamente. Há, desde a comédia visual rasgadamente grotesca (cena da prova de vestidos), à comédia visual mais sutil (borboleta dentro do convite do “chá de panela”). Explora-se tanto o terreno mais evidente dos diálogos, inflexões, subtextos e curiosos personagens, quanto se explora o humor na experiência da duração de uma cena, na insistência, no constrangimento (cena do discurso na festa de noivado). Se explora o banal (a amiga rival) tanto quanto o bizarro (casal com quem a protagonista divide a casa), a situação mais mundana (uma multa) e a mais absurda (uma longa tentativa de chamar a atenção do policial). Em muitos momentos, o filme perde o fôlego em tangentes longas e diálogos desinteressantes, mas mantém sempre o frescor de sua inquietude, da presença constante do inesperado.
Em tempos de dominação de reality shows na programação televisiva, o gosto por presenciar o constrangimento alheio – esse misto de humor e tortura – tem se tornado uma espécie de espírito de época. O gosto fetichista de perscrutar a intimidade e ter acesso ao limite do embaraço alheio parece um novo e favorito tipo de humor que começa a ganhar a ficção. O que interessa nisso não é o dado em si, mas a forma como o filme de Paul Feig se utiliza disso pra explorar um tipo de cena que tensiona o ritmo ao limite do suportável. Há aí uma resistência a um tempo de cinema que se pauta sempre pela eficiência; onde a montagem está a serviço de metas a serem cumpridas, da transmissão de informações de forma objetiva. A cena do discurso na festa de noivado, muito mais do que revelar a inveja e rivalidade entre as duas personagens (função primária), expõe no corpo e no tempo de cada uma, suas fraquezas e seu desespero mesquinho. Há uma transformação física ocorrendo, e é nesse tempo que se dá a transição da personagem de amiga para madrinha: algo essencial, pois é justamente esse cargo e suas atribuições enquanto gestora de eventos que a afastam do convívio intimista e pessoal com a amiga. O peso desse tempo suporta em si todo o peso das atribuições de sua função. Seu fracasso só faz sentido a partir dali.
Em grande parte, o humor do filme que funciona é justamente aquele que está a serviço dos personagens, a serviço de tirá-los da bidimensionalidade usual das comédias, que só fazem masturbar os mesmos estereótipos, cair nas mesmas soluções óbvias e redenções fáceis. O que falta ao filme, em geral, é aventurar-se na mise-en-scène com a mesma entrega e entusiasmo com que se aventura na exploração da comédia. Não se trata de um filme mal filmado, ou desprovido de noções de construção visual da cena; o que incomoda é justamente o excesso de segurança, o caminho esperado, a gramática invisível a serviço da criação de um espaço seguro para os atores. Faz-se uma hipoteca da exploração visual como garantia à comicidade, mas cria-se um desequilíbrio, como se a insegurança da mise-en-scène não suportasse a potência explosiva de certas cenas. Um pouco mais de ousadia faria bem ao filme, agitaria um pouco do marasmo que se instala entre os momentos mais intensos.
De todo modo, não me parece um filme qualquer. Como um adolescente desajeitado, o filme caminha trôpego, mas é vivo e intenso, sem medo de errar. Na expressividade de Kristen Wiig, o filme ganha um corpo, na resistência das relações em meio aos excessos de uma cultura em plena decadência, o filme ganha uma voz; não é a priori uma grande obra política, tampouco um ícone de eficiência cômica, mas é no mínimo um filme que te permite olhar pra tela e ver o mundo, reconhecer nele um pouco daquilo que pateticamente consumimos, reconhecer nele nosso desespero, um pouco de nossas crises. Nos divertimos, e não às custas do diferente, do estranho. Rimos um pouco da nossa própria loucura.
Filmes citados:
Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011/Paul Feig)







