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por João Toledo
CORDA BAMBA - entre a literatura e o cinema
Entre os mais comuns de todos os lugares-comuns do meio cinematográfico, encontra-se uma frase que se propaga ad nauseam em saguões de cinema, sempre após uma sessão de filme adaptado. “O livro é melhor que o filme”. Uai – diz o redator mineiro, indignado –, talvez ele realmente seja, mas e daí? Afinal de contas, qual é o objetivo de uma adaptação? Para responder a essa questão, precisamos compreender o que de fato é uma adaptação.
Um roteiro, costumam dizer, não é obra de arte; tampouco obra literária. Ele deve ser um manual de filmagem, um guia. Aliás, entre os tugas, ele é chamado de guião e entre os espanhóis, guión. Um bom indício de sua vocação técnica e objetiva (coisas que nada ou muito pouco têm a ver com arte). Ele, o roteiro, está a serviço do diretor e do produtor. Indica cenas, objetos, personagens, sons, ações e falas; tudo sem se deixar perder no excesso descritivo, ou em indicações que não se podem traduzir sonora ou visualmente. A adjetivação em exagero costuma confundir sem acrescentar em nada. O importante ali é o substantivo, muito mais definido, claro, concreto.
Portanto, a leitura de um roteiro é algo absolutamente racional e consciente. Não é possível se deixar envolver pela história. Ou seja: ler roteiro é um saco. Nesse ponto, ele se distancia completamente da literatura, mas, por outro lado, a criação de uma história (algo que exige uma construção narrativa coerente, edificação de personagens, organização espacial e valorização dessa geografia) é coisa que aprendemos – e continuamos a aprender – com a literatura. A roteirizarão é um processo criativo sim senhor, e, apesar de não ser uma obra de arte, apesar de não ser um fim, é o meio pelo qual ela se constrói. Poderíamos dizer que ele é como um esqueleto humano; avulso ele não tem vida, mas é o que sustenta o homem de pé. Aquilo ali é a espinha dorsal do cinema, a estrada que nos leva ao mar, o sopro de ar que sustenta um “bonecão do posto”. Por tudo isso, imagino que ficar dizendo que o roteiro tem tudo ou nada a ver com a literatura fica um pouco aquém da questão.
O processo de adaptação, ao contrário do que acreditam, também é um processo de criação, quiçá ainda mais cansativo e desgastante que o da idéia original: Talvez pela dificuldade, pelo desafio, pesquisa, talvez pela enorme responsabilidade e pressão. Talvez por tudo isso; o importante é lembrar da garrafinha d`água, pois este é um processo de incessante transpiração e, por conseqüência, desidratação. Existe uma corda bamba a se cruzar que fica entre o livro de origem e o roteiro de destino. A corda, além de bamba, divide esse universo de criação em dois hemisférios que travam um intenso cabo de guerra. De um lado, o autor, com seu fã clube a tiracolo, puxa o roteirista, tentando aproximá-lo ao máximo da idéia original e da fidelidade à obra. Do outro, puxam os cinéfilos doentes, filhos do audiovisual, seres ávidos por traduções puramente cinematográficas, industriais e mastigadinhas, que possam funcionar independentes do livro, que, por sinal, eles não leram, nem vão ler. Pois, para onde se deve pender, então? A resposta é simples. Não se deve pender; se deve procurar um equilíbrio nos cortes e mutilações feitos no livro para que ele funcione como filme, sem se deixar cair na armadilha de simplesmente atender às demandas industriais do cinema-baba: altamente didático e absolutamente inútil.
Equilibrar na corda bamba. Tudo bem, entendi. Mas e o trajeto da corda… o que é que significa esse “adaptar”? A adaptação é o processo pelo qual um organismo se ajusta às condições do ambiente que o rodeia. Na prática, é a operação de tirar o bicho-livro do seu habitat natural, e jogá-lo numa jaula audiovisual de cerca de duas horas de duração. É claro que o livro não vai se adaptar sozinho. Justamente por isso, o roteirista precisa ter carinho pelo bicho, precisa saber cuidar dele e de seus problemas literários. O trabalho do roteirista é o de transformar essa jaula na nova casa do livro; fazê-lo enxergar as vantagens e desvantagens do novo meio para que, delas, ele possa se aproveitar.
Trabalhando neste intercâmbio, é preponderante que o adaptador seja um grande conhecedor de ambas as artes. Ele precisa saber reconhecer os elementos simbólicos, narrativos e estilísticos realmente importantes da obra primeira para que lhes consiga transpor de alguma forma, sem que se perca aquilo que fez daquele grande livro um grande livro, isso, é claro, no caso de grandes livros. Para transpor todos esses elementos, também é importante que este cara conheça profundamente as potências do cinema; ele vai precisar se utilizar de grande parte delas caso queira condensar, com sucesso, tudo o que de bom trazia a obra original.
Mas adaptar é adaptar, amoldar, adequar, tornar apropriado. Não se pode sustentar a ilusão de que vá haver fidelidade no enredo. Sequer os personagens serão os mesmos. Essas artes não permitem cópias; duas coisas diferentes não podem ser iguais. É simples assim. Quando pensamos na forma de “cópia” mais fiel, pensamos logo na tradução. Mas nem mesmo a tradução é assim, tão exata. Afinal, ela parte de uma leitura, seguida de uma interpretação – uma interpretação de uma outra língua. E só depois é que vem a tradução, uma tradução de palavras supostamente equivalentes, para uma cultura distinta, envolvida em valores muito diferentes. Uai, mas se a própria tradução de literatura para literatura não é assim tão exata, por que é que cobra-se tanta semelhança e fidelidade das apropriações fílmicas de obras literárias? As duas podem até ser análogas, mas será que para isso precisam ser parecidas?
Tomemos como exemplo o caso do filme Adaptação. O próprio nome já indica que este filme pode cantar no meu refrão. Charlie Kaufman, contratado para adaptar o livro de Susan Orlean, O Ladrão de Orquídeas, acaba incluindo a si mesmo no roteiro, devido a uma suposta incapacidade sua de adaptar o romance. Apesar da bizarra inserção de um personagem-criador que nada tem a ver com o texto original, o filme traduz lindamente os sentimentos que o livro suscita; ele adapta a essência do livro sem o ser, e, dessa forma, estabelece um belo diálogo entre ele e o livro de Susan, duas grandes obras sobre seres humanos e suas angústias, descobertas, paixões e superações.
Ambas nos tiram de um ponto e nos carregam para um outro lugar-comum. Apesar de tomarmos caminhos diferentes, o destino é certamente o mesmo. Se observarmos por esse ângulo, podemos ver um sentido mais interessante para as adaptações; o de traduzir o espírito do livro, sua essência, o eixo central que faz tudo o mais girar à sua volta. Somente dessa forma, seguindo por esse caminho, veremos diluída a comparação chata entre o livro e sua adaptação. Afinal de contas, qual é melhor, a literatura ou o cinema? Essa pergunta, para mim, cai na mesma categoria de aberrações como: Quem é melhor, Picasso ou Van Gogh? Quem tenta responder é porque não tem nada melhor para fazer, e tudo isso acaba virando equação. Pois eu lhes digo, com propriedade, que não existe cálculo que meça a arte, nem há entre elas qualquer comparação. Não deve nem pode haver. Podem ser feitas aproximações, podem ser garimpadas as semelhanças e descobertas todas as incompatibilidades… desde que não haja mais dessa coisa maldita e funesta, a famosa e perversa comparação.
Filme Citado:
Adaptação (Adaptation, 2002/Spike Jonze)
Livro Citado:
O Ladrão de Orquídeas (The Orchid Thief, 1998/Susan Orlean)







