por João Toledo

Cinema Nacional: as águas do amanhã

Tenho buscado (juro que tenho) me encontrar no cinema nacional. E essa tentativa, eu imagino, nasce da caminhada que tenho feito em direção a ele. Tenho a impressão de que preciso me ver refletido nas margens intranqüilas deste cinema para que possa nele mergulhar. Portanto, quando tento falar de cinema nacional, tenho uma tendência natural a falar sobre o atual. O cinema do agora precisa ser pensado; precisa ser erigido com imagens, mas também com reflexão. Já o cinema de outrora, o que me interessa ali, mais do que a simples expressão artística interna à própria obra, é o diálogo que se pode estabelecer entre aquele cinema, dentro do seu contexto específico, e a contemporaneidade cinematográfica do Brasil. Aquele cinema já não me serve lá no passado; ele me serve hoje, na medida em que nos ajuda a compreender o que acontece, o que está acontecendo e o que está por acontecer.

Temos falado em cinema de retomada desde Carlota Joaquina, filme de 1995. Pois isso foi há doze anos atrás. Poderíamos dizer que a tal retomada já é pré-adolescente. Sim, pré-adolescente, mas claramente imatura, dotada de um pai opressor, de uma mãe traumatizada, e de coleguinhas que a desprezam e fazem de tudo para se aproveitar dela. Coitadinha da retomada? Não, coitadinhos de nós que assistimos a esse cinema que se diz Brasil sem se mostrar Brasil. Um cinema que, em sua grande maioria, ainda não consegue refletir, de maneira honesta, o que significa ser um brasileiro e hoje viver aqui.

A meu ver, existem alguns problemas capitais no fazer cinematográfico atual, relacionando-se todos entre si. Quase todos se referem diretamente ao aspecto financeiro das produções, e, também, ao fato dessas produções estarem lidando com um público supostamente doutrinado e alienado pela mídia de massa, sistematicamente transformado – por novelas do Manoel Carlos e afins – em seres não-pensantes. Certos problemas têm um pouco mais a ver com alguns traumas que o Brasil carrega, misturados aos problemas supracitados e potencializados pela necessidade de uma aprovação na famosa Lei Rouanet.

A Lei Rouanet - ou Lei Federal de Incentivo à Cultura, para aqueles que acabam de aterrissar na terra -, criada em 1991, vem, desde então, financiando projetos culturais e ajudando a erguer os alicerces do audiovisual. No entanto, ela arrasta consigo alguns buracos e contradições. Para começar, um de seus mecanismos, o Incentivo Fiscal, ou Mecenato, é um desestímulo ao amparo cultural na medida em que promove a renúncia fiscal das empresas investidoras, fazendo com que o apoio estatal seja o único meio de financiamento de cultura. O dinheiro do Leão é convertido em investimento cultural, dando, à empresa, a boa reputação de quem promove a arte nacional. As empresas, que com isso só têm a ganhar, apóiam apenas projetos beneficiados por esta lei – ao invés de financiá-los diretamente, sem o intermédio do governo, destinando certa parte dos lucros para o investimento cultural, de maneira a negociar, caso a caso, as vantagens e benefícios que cada projeto poderia trazer à empresa. É claro que nada disso é tão simples assim. Existem restrições e peculiaridades que limitam a desproporção, mas, mesmo assim, hoje em dia, não há como financiar um longa-metragem sem o selo de aprovação do governo. Nem mesmo Diler Trindade (Xuxa, Didi, Padre Marcelo) faz filmes sem o dinheiro estatal.

Partindo deste pensamento, podemos imaginar o tamanho da concorrência de quem tenta financiar seu filme. As pessoas passam a se cercar de absurdas estratégias de marketing, tentando angariar ao filme uma importância histórica e mercadológica, que possa içá-lo à frente dos adversários. Os arrogantes (ou ignorantes) produtores e cineastas costumam partir do princípio de que o povo é burro, e, portanto, o filme também o precisa ser. Essa é uma estratégia comum: quanto mais fácil for o filme, maior seu público-alvo. A dedução simplória leva a maioria dos produtores a subestimar seu público, tornando-os ainda mais apáticos e indiferentes ao cinema nacional. E, é claro, daí surgem também os problemas temáticos. É preciso encontrar um tema – pensam eles – que possa suprir alguma lacuna histórica, política ou social do Brasil. Dessa forma, o projeto teria um merecimento maior, uma importância extra. Mas isso acabou por se tornar uma armadilha, tendo em vista a saturação temática, exaltação histórica, mitificação documental de personalidades nacionais, reforço de estereótipos… Tudo isso em detrimento de uma consideração mais humana no âmbito cinematográfico nacional, de algo que servisse no sentido de contemplar, investigar, imergir, discutir e provocar o ser humano, tendo-o como tema dentro de um contexto, e não utilizando o próprio contexto como tema, com fantoches-humanos que dêem conta de provar suas hipóteses.

Unindo-se a tudo isso, estão os problemas correlacionados que se enquadram na categoria trauma. Por mero exercício da liberdade de expressão, ou mesmo por pura vingança a um período repressor, criou-se um exercício de explicitação e de exaltação de uma visão política que sempre esquece de explorar as particularidades do cinema. São inúmeros os exemplos de filmes de ditadura. São inúmeros também os filmes que se orgulham de mostrar violência, de mostrar nudez, de mostrar tortura e de explicitar tudo aquilo que gera controvérsia. O que não seria um problema, se não lhes faltasse, para isso, algum propósito. Na galeria de traumas, existem ainda outros tantos, dentre os quais se pode destacar aquele de quem sofreu com a década em que o Brasil perdeu o cinema, ou mesmo o de quem sofre e anseia pelo retorno do velho Cinema Novo. Estes continuam a fazer filmes de sertão e mar, estes continuam a sofrer – e a nos fazer sofrer também.

Outra contradição da Lei está na avaliação curricular dos proponentes. Quanto mais filmes e cifras você tem no currículo, mais viável se torna o apoio ao seu projeto. Os beneficiados continuam sendo os mesmos. E os prejudicados somos nós, espectadores, que ficamos a assistir às novas reprises de velhos cineastas que trazem consigo uma ótica do passado e enxergam o real através de um filtro simplista de quem já se importa menos com o conteúdo do projeto e mais com sua aprovação na lei. O sangue novo, do qual o cinema brasileiro precisa, vai sendo adiado em função da grande lista de currículos ligados à Globo Filmes e a subsidiárias brasileiras de distribuidoras americanas. De repente, não sei por que, o filme Olga me vem à mente.

Tudo isso me parece muito curioso; principalmente porque há pouco tempo disseram-me algo que nunca mais desgrudou de meus pensamentos. Eu costumava achar absurdo que as pessoas ficassem brincando de experimentar cinema com dinheiro público, sem se preocupar com o resultado. De alguma forma, ainda acho importante que se chegue a resultados em termos de crítica e público, mas talvez não deva ser este o ponto de partida. Um interlocutor estrangeiro, analisando de fora toda essa situação, me respondeu de pronto, em tom de ironia, arrematando a questão: “Mas porque é que os filmes precisam de retorno financeiro se já foram pagos?”. Na hora, fiquei sem resposta, e acho que não poderia ter respondido de forma melhor. Mas vou ainda além. Se as produções são bancadas, porque não bancam também a distribuição, porque não bancam a exibição? Se o governo adota esse papel semi-paternalista, porque é que não o assume por completo? Assim, ao menos, veríamos filmes brasileiros a preços acessíveis (ou até de graça).

Mas o problema não é só do governo, desse sistema manco e falho que sobe lentamente os degraus do crescimento. Infelizmente, um dos motivos que levam à falta de distribuição e exibição é a falta de empreendedorismo por parte dos nossos realizadores. Falta de empreendedorismo ou preciosismo. Cinema é muito caro, e é verdade que um milhão de reais é dinheiro para um filme de baixo orçamento no Brasil. O realizador que pega este um milhão só quer saber de ver seu filme pronto. Investe na pré-produção, na produção, na pós-produção e pronto. Acabou o filme e também o dinheiro. Não existe hoje uma mentalidade de mercado. O sistema está viciado em mecanismos de incentivo e o ego enorme do cineasta brasileiro impede que a verba seja distribuída entre produção, propaganda, distribuição, exibição e promoção.

Perde novamente o cinema brasileiro e perdemos nós, espectadores. Hoje em dia a Nigéria produz 1.200 filmes por ano. A Índia, 900. Hollywood produz 800. Já o Brasil, em delírios de grandeza, almeja alcançar a sonhada marca de 200 filmes por ano. Isso sem escoamento; sem publicidade, exibição ou público. Essa dicotomia chega a ser engraçada, se considerarmos que não existem salas de cinema na Nigéria. Talvez esteja na hora do Brasil contemplar a possibilidade do digital. Isso diminuiria absurdamente o custo e o tempo de produção dos nossos filmes. O Cheiro do Ralo, longa de Heitor Dhalia, fez justamente isso, e gastou, na produção, cerca de 300 mil reais. Depois ele gastou mais, com incentivos da Lei, editando, tratando e fazendo cópias em película, mas não deixou de gastar relativamente pouco, sem prejudicar a qualidade do trabalho.

Acho que já bati demais. Agora eu sopro um pouco, que é pra aliviar a dor. Tem se construído, ao lado de filmes medianos, uma rede de realizadores e colaboradores que vem criando uma série de produtoras de cinema, movidas por projetos pessoais. O cinema, por mais que faça filmes medíocres, está se profissionalizando. Hoje existe gente por toda parte que se dedica exclusivamente ao cinema, e isso é muito positivo. A própria Globo Filmes ajuda nesse ponto. Além disso, tem surgido uma enorme variedade de editais do MinC, privilegiando os mais variados tipos de produção, para os mais variados públicos. A criação de diferentes comissões ajuda a equilibrar a disputa de quem quer produzir, pois ali se compete, em pé de igualdade, com projetos de perfil parecido. Inclusive me parece que, por causa desses editais, algumas pessoas têm se encontrado, têm descoberto seu segmento, seu lugar no mercado, sua fração do cinema nacional.

Outro ponto positivo (possivelmente positivo) a ser considerado é o surgimento do Procult, Programa de Apoio à Cadeia Produtiva do Audiovisual, criado no ano passado. Lançado pelo novo Departamento de Economia da Cultura do BNDES, o Procult chega com o intuito de deslocar em sua direção uma fração dos mendigos da Lei Rouanet, principalmente aqueles que atuam por um viés mais mercadológico. O projeto desarma o uso excessivo de patrocínio via renúncia fiscal oferecendo empréstimos a juros baixos, e tornando, assim, viável a realização de produções cinematográficas fora das Leis de Incentivo. O primeiro beneficiado do projeto é a Quanta, empresa que há anos aluga equipamentos de luz para produções audiovisuais. A empresa constrói, num terreno de 13 mil metros quadrados, o primeiro pólo de produção audiovisual de São Paulo. A nova sede da Quanta demonstra o claro crescimento e fortalecimento do cinema nacional. É uma aposta em um sistema que parece ter aprendido com os erros do passado, e que ganha ares de indústria na medida em que caminha em direção aos empréstimos. Entre outros aprovados, estão dois projetos de construção de salas de exibição; o que é sempre bom em um país onde a logística de distribuição se enrola toda entre lançamentos de filmes blockbuster e produções locais de um milhão.

Noutro pilar positivo dessa construção surrealista que chamamos de cinema brasileiro, estão os pequenos realizadores mínimos. Produzindo curtas que não necessitam de um apoio governamental megalomaníaco, alguns realizadores têm despontado como grandes cineastas e pensadores do nosso cinema. Exemplos disso, são os dois críticos de cinema, Eduardo Valente e Kleber Mendonça Filho, que, onde quer que passem, arrancam prêmios para seus filmes. A casa de cinema de Porto Alegre cumpriu também um importante papel na produção de curtas fortes e essenciais. Estes novos cineastas de grandes filmes curtos vêm se apregoando, mostrando um novo potencial, uma cara nova que aos poucos vai surgindo por trás do véu de restrições burocráticas e “pegadinhas” do nosso sistema de produção cinematográfica.

E, para terminar, é preciso falar também das exceções. Daqueles que, entre os buracos e contradições, têm conseguido construir seu cinema; um cinema que repercute socialmente e culturalmente, um cinema que luta para sair do amadorismo, que reconhece a função narrativa de cada um dos componentes da diegese, que constrói cuidadosamente a mise-en-scène, trabalha o ator, foge das convenções, desconstrói preconceitos, discute o que se costuma velar ou ignorar e que, sem medo, dá a cara à tapa. Obviamente, cada um à sua forma e com suas peculiaridades. Fernando Meirelles e Walter Salles são os dois mais óbvios. Entre filmes políticos e espetaculosos, sinceros e virtuosos, ambos têm ajudado a erigir, com seus filmes, um novo estatuto do que seria o cinema nacional e, por isso, foram reconhecidos. De uma safra mais recente, eu citaria ainda Karim Aïnouz, Cao Hamburger, Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Andrucha Waddington, Marcelo Gomes, Marcos Prado, Luiz Fernando Carvalho, Heitor Dhalia, e, meu preferido, Beto Brant. Apesar de não me reconhecer no cinema de todos eles, reconheço neles o potencial de grandes cineastas. Pessoas que multiplicam o cinema brasileiro e que tornam mais viva e intensa a visita às salas de cinema.

O fato é que não dá mais para ser pessimista em relação ao cinema brasileiro atual. Existem falhas, problemas, corrupção, falta de estrutura, falta de recursos, mas existe, também, gente que dribla tudo isso, que encontra caminhos, que encontra histórias e que agita estas águas nada plácidas em um ritmo tão contagiante que me fazem querer mergulhar, assim mesmo, antes de me ver refletido, antes de, nele, me encontrar.

Filmes Citados:
Carlota Joaquina (Idem, 1995/Carla Camurati)
Olga (Idem, 2004/Jayme Monjardim)
O Cheiro do Ralo (Idem, 2006/Heitor Dhalia)