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por João Toledo
Deformações e mutilações da matéria no tempo da supra-realidade: reflexões sobre o caso Bruno, a Copa do Mundo e o 3D
Este é um texto que já nasce datado, pois ancorado a questões e eventos muito específicos de seu momento histórico, aos voláteis personagens insurgidos das urgentes narrativas midiáticas, e que muito provavelmente serão – se já não estão sendo – esquecidos ou ultrapassados diante de tantas novas evidências na trajetória da imagem. No entanto, pensar o lugar dessa matéria estética no tempo que vivemos parece-me tarefa inescapável – há novas distorções ocorrendo em setores midiáticos diversos, e todas parecem contaminadas de vontades (ou necessidades) muito semelhantes. A realidade – ou a imagem enquanto evidência de uma realidade – já não basta; é preciso uma nova camada, uma nova dimensão, uma supra-realidade. É o alimento de uma nova sociedade, ou o resultado delirante da competitiva máquina de imagens de consumo?
Eis o que a mídia de massa, em suas complexas narrativas novelescas, nos revela. O compromisso do jornalismo hoje é com a publicidade da notícia, com o seu impacto – e isso não é necessariamente uma questão de objeto, mas de ângulo. E a demanda excessiva do monstro da mídia, que se alimenta de tudo o que é passível de se espetacularizar, cria distorções as mais extravagantes, inclusive na própria realidade – não apenas a partir dela. Pois não somente a manchete impõe à realidade uma qualidade de representação; a própria realidade já se incumbe de se fantasiar para o palco dos grandes veículos de comunicação. E nesse circo surge todo tipo de palhaço; gente que, no auge da soberba, reivindica para si o papel de importante personagem de uma nova trama do horário nobre.
A cada nova edição de um telejornal que acompanha o caso Bruno – célebre goleiro do Flamengo acusado de sequestrar e matar sua amante –, surgem novos personagens, novas reviravoltas, novos cenários. Há desde menores drogados a parentes estupradores e pedófilos, amigos se traindo, cães devoradores de carne humana, delegados desvairados vulnerabilizando a investigação em virtude dos caprichos de seu ego. Eis uma trama de dar injeva – e uma polícia cuja eficiência só pode significar uma enorme deficiência em qualquer outro setor não iluminado pelos holofotes da mídia. Tudo orbitando em torno de um assassinato como tantos outros: a crueldade é inversamente proporcional à figura envolvida, configurando o choque que a mídia explora. Jogadores de futebol também podem matar.
Mas a secura realista não combina com as estratégias megalomaníacas da mídia, com as imagens aéreas de buscas, com as câmeras escondidas, leituras labiais, investigações do passado de quaisquer dos envolvidos, importância dada a fatores irrelevantes pela mera necessidade de se fabricar notícias, psicologizando pormenores, encontrando desvios no discurso, chamando especialistas em assuntos vagos, profetizando os rumos de tudo, extraindo leite de uma vaca virtual. A mídia é especialista em fabricar o horror, em fantasiar a realidade de acordo com a demanda. E a essa altura, nesse excesso de imagens que cobre tudo, já não se pode saber até que ponto esse fúnebre voyeurismo nos é imposto ou simplesmente despertado. De todo modo é curioso perceber que cada vez mais se reivindica exclusividade, ineditismo, choque, e isso em uma sociedade onde tudo se vê e se ouve, tudo se torna imagem, em diversos recortes, ângulos e sob diferentes luzes. Quando tudo é exclusivo, nada é.
Do profano ao sagrado, a mesma mídia do espetáculo encontra o espaço para despejar toda a sua glória, e fazer da imagem a última e mais absoluta dimensão do real – mais real que a realidade. A Copa do Mundo, a princípio, foi o avesso do show de horrores, só que do avesso. Sua imagem espetacularizada em nada escapa às distorções mesmas do universo das bizarras notícias policialescas. Eis uma nova forma de distorcer o mundo: dar a ver supostamente tudo. Reivindicando um autêntico show de imagens, substituto à altura (ou superior) do evento em si, a mídia não poupou esforços dizendo que fazia história – e, nessa cerimônia, sacralizou a imagem, deu a ela poder absoluto, conferiu-lhe status de chave de todos os enigmas, estatuto final, lei.
O problema é que essa suposta imagem total era soma, e não totalidade. Suas vantagens – o recorte de detalhes mínimos, a super câmera-lenta – funcionam dentro da lógica do espetáculo, à revelia da cosolidação do todo. A expressão de um jogador, seu suor, a trajetória orbital da bola, a grama que se solta lentamenta do chão, todas as imagens que operam sob a lógica do impacto estético – distração da lógica do jogo, enxertos publicitários. O mais belo e maravilhoso pastel de vento. E ao mesmo tempo, todos os narradores queriam extingir, diante de tamanha quantidade de evidências, qualquer ambiguidade. E foi um espetáculo ver a confusão de interpretações diante de inúteis detalhes de arbitragem, que antes nunca passaram por escrutinação científica tão desinteressante. E enquanto todos se perdiam no labirinto técnico da visão, o público gozava com o replay de trinta diferentes ângulos. Porque, para a transmissão, não importava tanto o jogo, importavam essas imagens que se bombardeia para sedimentar sua importância histórica.
E novamente o excesso é falta. Dentro de tanta imagem pra entrar pra história, o que é que fica? Do que é que se pode lembrar, em meio ao excesso fetichista promovido pela mídia? E, em todos os níveis de recriação da realidade pelo aparelho midiático, para onde foi a sombra, o que aconteceu ao obscuro, ao impalpável, invisível, imperscrutável? Até mesmo os olhos de Bruno sugerem respostas: neles habita a maldade, clama o delegado – sujeito que em muito lembra o detetive Cabeção, algoz do Bandido da Luz Vermelha. Não há mais lugar para o mistério no reino da imagem total. Não perceberam ainda que a visão nos dá acesso apenas à superfície. O cinema já sabe disso há décadas. Mas a mídia segue impingindo aos seus satisfeitos consumidores sua super-imagem. Uma imagem que supera a realidade. Pois a imagem só já não basta: registros dessa ordem todos nós produzimos. Só a deles, em ultra high definition super-slow, é que penetra a verdade única das coisas.
A verdade virou questão de montagem – como já haviam descoberto alguns (ex)diretores americanos, como os irmãos Ridley e Tony Scott. O excesso, a multiplicidade, o olhar fragmentado. Essa estratégia de ação permite uma concatenação que funciona em uma lógica de melhores momentos, e dá mais oportunidade para qualquer novo fetiche da imagem. O próximo, que se anuncia como a ponta de um iceberg, é o da super câmera-lenta, em breve nos cinemas mais próximos da praça de alimentação. É o supra-real, dotando de peso magnífico a trivialidade de uma ação corriqueira. Definitivamente não é a realidade. Mas é novidade e, por consequência, consumo. Assim como o 3D.
Recentemente muito discutido, o 3D já foi pintado como golpe e como salvação, e é preciso ainda adicionar uma série de dimensões à falsa dimensão que nos querem vender. Na dança da novidade, nos vendem uma imagem cheia de tiques e manias que envelhecem em menos de vinte minutos. De bônus, uma dor de cabeça. É o retrocesso digital, e funciona como a câmera-lenta do futebol; distração da narrativa, enxerto publicitário. Não se trata de um processo de visa enriquecer a linguagem; explora o fetiche da técnica. É preciso louvar, portanto, a Pixar, que escapa da pirotecnia auto-indulgente que engoliu Burton em seu último (e aprisionado) vôo autoral.
E, para além de uma questão formal, é preciso discutir o evento último do cinema, a terceira dimensão, dentro da lógica sobre a qual ele foi erguido. Porque o 3D não é renovação ou renascimento do cinema; é mais um atestado de óbito, mais um prego no caixão. É a afirmação do mercado, do cinema-mercadoria. E, por consequência, a decadência de qualquer outro cinema. A lógica mercantil opera por demanda de novidade: esse é o cinema de salão de variedades, de feiras e parques – e não enquanto redescoberta e resignificação de sua origem, mas como mero retrocesso. Toda a mágica se converte em trucagem barata: hipnose coletiva através de um deslumbre vazio. A arte, a essa altura, já é coisa secundária. O 3D não enche salas: enche multiplex, e esvazia o cinema, no sentido literal tanto quanto no metafórico. Tudo o que não se adapta à nova lógica entra para a fila de espera, o limbo da imagem. Elia Suleiman, Jane Campion, Woody Allen, Quentin Tarantino; inventores no escuro, natimortos, engolidos pelo fetiche da imagem que se desprende da tela.
Curioso. As imagens de Tarantino sempre me pareceram saltar da tela, sempre me arremessaram violentamente para o seio de sua profundiade. Estranha a empolgação com a criação artifical de uma dimensão que temos, e que o cinema simula mal. Tudo o que o 3D pode nos oferecer de interessante é o desinteresse por sua exploração. De resto, é apenas uma distração. E é esse seu único efeito possível. Pois um machado que se arremessa para fora da tela e, em um corte, decapita alguém, não aumenta seu impacto nem a força do grotesco de sua realidade. Faz o oposto, pois reverte em susto a força da imagem, dando-nos uma imagem falsa do machado. A imagem que voa à minha frente é sempre menos real, menos palpável que aquela presa na tela. A imagem da tela é sempre mais profunda. E com o 3D ela fica esquecida. É a falência da mise-en-scène, pois quando a atenção se volta ao objeto que flutua solto da tela, o resto da imagem é esquecido. A coisa destacada não mais se relaciona com o resto da cena, com o espaço, com o movimento da imagem. É objeto autônomo do reino da super-imagem. A imagem falsa de uma mosca vale mais que a verdadeira. A ilusão vende mais que a realidade, seja qual for. Onde ainda habita a imagem que se pretende reflexo da profundidade e complexidade humana? Onde estão os focos de resistência da imagem que não quer superar a realidade? Espelho, espelho meu, onde é que posso ainda me ver refletido, nesse mundo de distorções e mutilações? O corpo precisa resistir aos rasgos raivosos de um mundo que não quer mais se ver.
Filme Citado:
O Bandido da Luz Vermelha (Idem, 1968/Rogério Sganzerla)







