“If....” (Lindsay Anderson)

por Humberto Pereira da Silva

Os anos 60 são mitológicos, quando da referência a temas como revolução dos costumes, conflitos de gerações ou estreitamento dos laços entre política e comportamento, entre estética e pulsões para ações coletivas. Isso é um truísmo, mas não custa lembrar que a força simbólica dos sixties reside também na maneira como vida e arte se entrelaçaram: não à toa, “A chinesa” (1967), de Godard, e “Terra em transe” (1967), de Glauber Rocha, foram invocados pelos estudantes parisienses em maio-68; da mesma maneira, ecos de 68 se fazem sentir em “Zabriskie Point” (1970), de Michelangelo Antonioni, e “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick. Outras manifestações artísticas podem ser invocadas, mas esses exemplos lembram que o cinema nos 60 impulsionou ações na mesma medida em que captou o momento.

“If....”, de Lindsay Anderson, Palma de Ouro em Cannes em 69 (oficialmente, Grand Prix, visto não ter sido atribuída a Palma de Ouro no período 64/74), foi justamente concebido em 68, e trata de rebeldia estudantil numa instituição de ensino inglesa (chamada apenas de Academia). Tendo como fonte o livro “Crusaders” (“Guerrilheiros”), de David Sherwin, “If....” se insere no rol de filmes que hoje servem de referência para a compreensão do espírito de rebeldia dos anos 60 e ainda situam a ação no ambiente escolar (a escola, na época, era entendida por muitos como entrave à mudança de costumes - minissaia, cabelos compridos, liberação sexual – e aparelho de manutenção da ordem burguesa).

A esse respeito, “If....” tem como antecedentes “Zero de conduta” (1931), de Jean Vigo, e “Os incompreendidos” (1959), de François Truffaut. Como nos filmes de Vigo e Truffaut, a câmara de Lindsay Anderson retalha espaços que anunciam ausência de diálogo entre estudantes e autoridades que representam o sistema escolar. Com o tempo, no entanto, “If....” não teve a fortuna critica de seus antecedentes; por isso - agora lançado em DVD pela Lume -, talvez mereça ser visto com a atenção e calma que o distanciamento de 40 anos possibilita.

“A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo que possuis, adquire o conhecimento”, Provérbios, 7:4. O plano inicial de “If....” apresenta como epígrafe passagem bíblica do Velho Testamento, que realça a importância de se adquirir conhecimento. O saber é o que há de principal e - pode-se pensar - um lugar para tanto é a escola. A instituição escolar em “If....” é a Academia; simboliza, pois, uma referência à academia platônica: o espaço no qual as ideias e os novos pensamentos são gerados a partir da discussão, do embate, da controvérsia entre posições contrárias.

Mas a Academia em “If....”, ao contrário da platônica, é o lugar da conservação, da manutenção de valores tradicionais, da ordem e da disciplina; e, na mesma medida, avessa à controvérsia, ao embate de idéias. Com isso, o que se tem então nesse filme de Lindsay Anderson é um caráter deliberadamente irônico e alegórico (ironia que se pode observar já no título: à conjunção “se” não se segue um verbo no subjuntivo, mas quatro pontinhos...).

No espírito dos 60, sob o influxo de filósofos como Herbert Marcuse, que enfatiza a unidimensionalidade humana na sociedade industrial, psicólogos como Eric Fromm e educadores como Ivan Ilich, teórico libertário que propôs o fim da escola, o espaço institucional escolar em “If....” é o antilugar do conhecimento, no espírito da academia platônica e do provérbio bíblico: a sabedoria não é o principal e sim os valores morais vigentes numa instituição com mais de quinhentos anos, como sustenta o Reitor da Academia na preleção aos alunos, pais e autoridades no rito de formatura. No clima de radicalismo, a premissa é: a existência da escola anuncia a perpetuação da ordem estabelecida – trabalho e diversão não se misturam.

Lindsay Anderson concebeu “If....” na forma de capítulos; como num romance, ou num livro escolar, os títulos anunciam o tema narrativo (um canto coral, Sanctus, da “Missa Luba”, com a silhueta da instituição em plano aberto, como a lembrar um quadro de John Constable, abre alguns dos capítulos). Assim, o filme segue a seguinte ordem: 1. Moradia estudantil; 2. A Academia; 3. Tempo do período; 4. Ritual e romance; 5. Disciplina; 6. Resistência; 7. Rumo à guerra; 8. Guerrilheiros. Para cada “capítulo”, ou “episódio”, a composição da ambiência, as linhas que indicam situações que culminam no confronto final entre estudantes rebelados e os representantes da ordem institucional.

Os episódios do filme opõem os “crusaders” (Travis, Knighty e Wallace) e os “wipps” (Rowntree, o inspetor geral, e Denson, o bedel), que representam a ordem na Academia. Entre eles circulam Stephanes, com pulsões homossexuais e que guarda escaramuças com os “crusaders”, uma moça anônima, com a qual Travis tem uma cena de amor, e Philips, que nutre sentimento homoerótico por Wallace e que no final também adere à rebelião. Além deles, há o Reitor, que monologa sobre a glória e os desafios da Grã-Bretanha num mundo em mudanças, o divertido Reverendo, o monossilábico Diretor, a enigmática camareira e professores excêntricos no estilo britânico.

Na moradia estudantil, no retorno do período de férias, a se notar inicialmente a separação entre os calouros e os veteranos (no rito de entrada os novos são incitados pelos veteranos a descobrir os caminhos do cotidiano da Academia). A se notar igualmente nos aposentos estudantis o contraste entre uma mobília antiquária e imagens de Che Guevara, Mao Tse-Tung, Charles de Gaulle, do índio Sioux símbolo do extermínio indígena pelos americanos, do guerrilheiro congolês no processo de descolonização africana, do quadro “O grito”, de Edward Münch, que cobrem as paredes.

Por conta de comportamentos anticonvencionais (beber Vodka, fumar cigarro, ver revistas eróticas, causar cizânias...), Travis, Knighty e Wallace estão sob constante vigilância do inspetor geral e do bedel. Sobre os três, o que Lindsay Anderson mostra em todos os episódios é, principalmente por meio de Travis, uma postura insolente e cínica (Knighty guarda expressão tão debochada quanto contida, Wallace tem trejeitos autocentrados e personalidade ambígua: seus olhares para Philips ficam no ar). Em dado momento, no episódio “Ritual e romance”, Travis e Knighty, nas únicas cenas externas à Academia, passeiam despreocupadamente pelas ruas da cidade, roubam uma moto em uma loja e conhecem num bar de estrada a moça anônima que reaparece como guerrilheira no embate final.

No episódio seguinte, “Disciplina”, sem que Lindsay Anderson deixe pistas explícitas sobre razões (apenas Travis e Knighty saem da Academia após as 17 horas, depois da qual ela é fechada e a norma diz que quem sair após o fechamento é castigado com chibatadas), os três são acusados de causar transtornos e com isso maculam a imagem da instituição. A fim de que a Academia não se revele pusilânime, eles são então punidos com chibatadas de marmelo, num espetáculo protagonizado por Rowntree, e que serve de exemplo aos demais (Travis é o que recebe maior número de chibatadas). Após a punição, Travis, Knighty e Wallace fazem pacto de sangue cujo significado se dá a conhecer no final: no rio de formatura, metralhar todos que estão na Academia.

Narrado dessa maneira, “If....” pode parecer mais esquemático e “didático” do que na verdade o é. Por um lado, sua mensagem básica de fato é facilmente identificável: uma instituição escolar fortemente repressiva, tradicional e opressora funciona como panela de pressão: pode explodir com o menor incidente. Nesse sentido, “If....” é entendido como uma crítica acerba e inconteste ao sistema escolar que forma como Forma (ressonâncias em “The Wall”, filme de Alan Parker, de 1982, com trilha do Pink Floyd, podem ser aventadas). Assim, “If....” traz como moral que a escola precisa conhecer o universo de angústias, necessidades, carências e frustrações dos alunos, a fim de não ser surpreendida por franco atiradores que protagonizam espetáculos de massacre escolar (um alerta, pois, para o que se viu em Columbine em 1999, quando dois estudantes entraram na escola, sacaram as armas e atiraram em seus colegas e professores, o que motivou Gus Van Sant a filmar “Elefante”, em 2003, também Palma de Ouro em Cannes).

Ocorre que, para além do “esquematismo didático” e da moral anti-opressora, “If....” é muito mais uma alegoria que torce o pensamento para o problema da convivência social com o diferente, com o “Outro”. Tema, aliás, com que se depara Laurent Cantet com o filme “Entre os muros da escola”, sintomaticamente Palma de Ouro em Cannes 40 anos após “If....”. A diferença entre ambos é que nos anos 60 a ferida da intolerância se expunha no seio da burguesia (na Academia de Lindsay Anderson não há espaço para outra classe social). Já no recente “Entre os muros da escola”, a ferida se expõe entre diferentes etnias que hoje convivem em conflito cada vez mais explícito entre europeus e imigrantes.

O que se expõe e permanece atual em “If....” é a oposição civilização e barbárie: os professores e a Academia sustentariam a civilização; a rebeldia estudantil traria de alguma forma em seu bojo, na medida em que afronta valores tradicionais, o espectro da decadência e o mergulho na barbárie. Lindsay Anderson, no espírito sixtie, aponta para a rebelião; já no filme de Cantet, depois de expulso da escola o estudante de Mali (Souleymane) que gerava transtorno, uma partida de futebol entre professores e estudantes sinalizaria para uma acomodação tensa.

Em “If....”, os valores civilizatórios estão degenerados, cabe destruí-los; em “Entre os muros da escola”, como sinal do tempo em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, busca diálogo com o regime dos Aiatolás na insurgência juvenil no Irã pós-eleição, uma tentativa de compreensão e integração entre universos dissonantes – isso não, sem antes, renegar um estudante, que não vê sentido no que aprende, como exemplo para preservação dos valores civilizatórios. Em “If....” e “Entre os muros”, com foco no espaço escolar, o que está em jogo é o sentido das regras de civilidade.

 

Humberto Pereira da Silva. Doutor em filosofia da Educação pela USP. Atualmente é professor de filosofia e estética na FAAP. Além da atividade docente, é crítico de cinema na Revista de Cinema e colaborador da revista eletrônica Trópico. É autor de “Ir ao cinema: um olhar sobre filmes” (Musa Editora).