Glauber e seu “O Leão de Sete Cabeças”

leão

por Humberto Pereira da Silva

 

Glauber Rocha é um dos grandes nomes do movimento de cinema mais influente, estudado e controverso na história do cinema brasileiro, o Cinema Novo, que reuniu jovens com o propósito de lançar as bases de uma filmografia que rompesse com os padrões dominantes, principalmente o cinema hollywoodiano. Entre 1961 e 1969 ele realizou alguns dos filmes mais conhecidos e discutidos do período, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em transe (1967). Essas duas obras são marcadas por forte conteúdo político e social e o colocaram no centro dos debates sobre cinema em âmbito internacional. É a partir destes filmes que na Europa Glauber se tornará – principalmente no Festival de Cannes – o porta-voz da chamada cinematografia do Terceiro Mundo, que dialogaria com J. L. Godard de A Chinesa (1967), influenciaria Werner Herzog, com seu Aguirre, a Cólera dos Deuses (1971), e daria ensejo a ensaios críticos de pensadores como Gilles Deleuze.

Mas o projeto de um cinema transgressivo e independente foi afetado pela repressão no Brasil, após o AI-5 em 1968. Glauber, então, partiu para a África e, com apoio da RAI-TV e produção ítalo-francesa, realizou no Congo-Brazzaville (atual República do Congo) O Leão de Sete Cabeças (1970), seu primeiro filme internacional. Impossibilitado de filmar no Brasil, essa escolha deve-se ao fato de ele ver naquele ambiente uma atmosfera apropriada para realizar uma proposta de Cinema Tricontinental. Ou seja, um tipo de cinema desvinculado da estética dominante e que incorporasse a temática e os problemas dos povos do Terceiro Mundo. Com O Leão, o propósito explícito de apresentar um cinema de guerrilha, como forma de combater a ditadura estética e econômica, tanto do cinema imperialista ocidental quanto do cinema socialista preso a orientações do Estado. O pano de fundo resume-se na ideia de que o Cinema Tricontinental não condicionaria a estética à técnica: um filme bem feito no plano técnico pode carregar conteúdo ideológico que sirva à dominação cultural.

Disso se segue que O Leão é um filme de urgência, no qual Glauber se propõe a por em prática suas teses terceiromundistas de um cinema épico-didático. Nesse sentido, ao contrário de seus filmes anteriores, cuja realização foi precedida de roteiros elaborados e reelaborados à exaustão, em O Leão não há um projeto previamente estabelecido, mas sim um plano de filmagens com notas de projeção e diálogos. Na comparação com sua filmografia anterior, ainda, nesse filme realizado na África a força dos personagens populares (Antônio das Mortes de Deus e o Diabo, por exemplo) fica em segundo plano, a fim de que se evidencie a dialética da colonização.

Estabelecido o leitmotiv para realizar O Leão, Glauber enfatiza em diversos pronunciamentos posteriores que foi particularmente influenciado pelo dramaturgo Bertolt Brecht e pelos cineastas J. L. Godard e Sergei Eisenstein. É a partir dessas referências que ele intenciona realizar um teatro épico-didático. O caráter épico teria o papel de provocar o estímulo revolucionário e o didático se expressaria na maneira como os personagens são apresentados. Marlene é uma loura lasciva que transita em diversos espaços e é reverenciada pelos representantes do poder colonial na África: um alemão, um português e um americano. Ao lado do poder político e econômico, a presença de um padre cuja missão é evangelizar os nativos. Sua fala apocalíptica anuncia que do mar vai surgir a Besta que blasfema contra Deus e todos os habitantes da terra. A fala do padre invoca a referência bíblica ao Apocalipse de João e, com isso, o título do filme: “Vi então uma Besta que subia do mar. Tinha dez cifres e sete cabeças”, 13,1. Na sequência de apresentação dos personagens, de modo esquemático, a oposição às forças de dominação: Pablo, o guerrilheiro branco, e Zumbi, o rei-escravo.

Essas forças se movem num país indefinido (menciona-se apenas tratar-se de uma República recém libertada sob condições impostas pelos poderes dominantes). Apresenta-se com isso uma alegoria da condição colonial a que estão submetidas centenas de etnias que habitam o continente africano. Manipulados por interesses imperialistas, os nativos reconhecem Xobu – vestido como um nobre europeu do século XVIII, alienado em relação ao contexto em que se encontra e com discurso verborrágico – como seu representante no poder.

Pablo, contudo, é uma ameaça à ordem. Nas ruas ele guia o povo, que grita contra a interferência imperialista na República. O agitador então é capturado pelo padre e entregue aos representantes do poder, que o torturam diante da multidão. Mas a situação não está sob controle, Zumbi e um grupo de nativos planejam uma revolução e libertam Pablo; o agente americano e o explorador português são pegos e mortos pela multidão; Xobu, o governante fantoche, não tem força para conter os rebeldes e é alçado do poder; Marlene é crucificada pelo padre, numa guinada de posição. Resta apenas o mercenário alemão, que tenta frear a rebelião com a força das armas. No plano final, uma coluna de guerrilheiros, seguida por Pablo e Zumbi, parte para a tomada do poder. Enquanto caminha no meio da savana, a coluna entoa um canto congolês que evoca a libertação dos povos africanos.

O filme é uma espécie de teatro primitivo. Oferendas com pessoas mortas estendidas no chão, além de coreografias com uma lança num mundo cuja dominação se dá pelo uso de armas de fogo, acentuam as diferentes concepções da vida e da morte entre colonizadores e colonizados. Nesse sentido, a sequência mais emblemática é aquela em que Xobu enumera as riquezas do país e oferece a Marlene seu maior tesouro: um fêmur humano. Ela o aceita e trata a relíquia como se fosse um totem do qual lhe escapa o significado, mas vê no osso um objeto que lhe serve de adoração.

O foco das imagens nesse filme é dirigido principalmente para as encenações e coreografias, o que rompe o equilíbrio entre teatralidade e realidade de seus filmes anteriores: O Leão não oferece aos espectadores senão uma representação teatral. Na forma como os personagens se movimentam e se manifestam, há evidente preocupação com o frontalidade teatral. Opressores e oprimidos distinguem-se por meio de aparições imitadas tanto da dramaturgia brechtiana quanto do teatro de marionetes: aproximam-se sucessivamente do palco, dirigem seu discurso ao espectador e depois desaparecem.

Os personagens, de fato, não são dotados de autonomia ou mesmo qualquer ambigüidade psicológica. Eles simbolizam as forças que estão em jogo na situação: Marlene, o capitalismo internacional; o alemão, a gestão colonial; o português, a exploração comercial; o americano, o agente da CIA; o padre, o espiritualismo cristão, que oscila entre o imperialismo e o apoio aos revolucionários; Xobu, a cumplicidade inconsciente com o imperialismo; Zumbi, a África consciente da luta; Pablo, a intelectualidade branca, consciente do lugar onde se desenrola a luta.

Visto de modo maniqueísta, cada um ocupa um lugar na ordem estabelecida. Mas Glauber propõe uma dialética da colonização. As forças que estão em jogo movimentam-se por contradições. Assim, Marlene representa o capitalismo internacional, mas não só ela não se entrega de boa vontade aos representantes do poder, como flerta com o revolucionário Pablo; do mesmo modo, ele não é inteiramente imune aos encantos de Marlene e lamenta a violência de que ela é causa.

O Leão é um filme cuja característica determinante é a encenação de conceitos e slogans. Nele há uma radicalização da mise-en-scène. A montagem, que segue os princípios teóricos estabelecidos por Eisenstein, revela algo similar a um presépio sincrético, no qual forças sociais, políticas e religiosas transitam em cenários carregados de signos. Os personagens simbolizam estruturas sociais por meio de figurinos, adereços e uma indumentária bem caracterizada. O que se tem com isso é a condensação de elementos que se escondem nas profundezas da cultura no Terceiro Mundo. Por conseguinte, O Leão exibe um fluxo de imagens e sons que se configuram, nas palavras de seu autor, como “materialização do inconsciente”. Imagens e sons estão impregnados de significados que extrapolam os códigos lógicos ditados na superfície da consciência.

Depois da recepção entusiasmada das principais revistas européias a Deus e o Diabo e Terra em transe, O Leão, que foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza em 1970, instigou polêmicas e comentários negativos pontuais. O embate com a crítica colocou Glauber numa posição que ainda não havia conhecido: a rejeição de seus filmes. As questões de fundo giravam em torno de seu desenraizamento e das escolhas que fez, marcadas pela confiança de que sua inspiração poética se imporia. Glauber saiu na defesa do filme. Sustenta que não buscou tratar especificamente da África, mas sim do problema do colonialismo; reconhece, igualmente, que da África tem apenas informações esquemáticas e a identificação cultural de um brasileiro que volta às próprias origens. Mas é justamente nesse ponto que será muito criticado. Os argumentos mais ácidos sustentam que nesse filme está ausente qualquer dado da cultura popular africana e que o cinema épico-didático que propõe é incapaz de sustentar-se ideologicamente.

Aclamado pela elite cinematográfica européia, com O Leão Glauber foi colocado contra as cordas. Um sintoma das reservas com que foi recebido está expresso na correspondência que travou com Michel Ciment, importante crítico da revisa francesa Positif. Ciment fala dos elogios atribuídos a O Leão em Veneza, mas revela temor pelo “coro dos louvores” em torno de seu cinema e que sua posição de “cineasta revolucionário inatacável” prejudicaria a evolução de sua obra. O ponto central da crítica de Ciment endereçada a O Leão reside na reprovação do cinema didático proposto por Glauber, assim como considera nefasta a influência que Godard lhe exerce.

O Leão, contudo, coloca para a crítica um problema concreto: a exigência de que sejam discutidas as possibilidades do cinema político como forma de expressão artística no Terceiro Mundo. A esse respeito, juízos isolados sobre esse filme revelam esquecimento da trajetória construída anteriormente: O Leão se insere perfeitamente no universo de preocupações glauberianas naquele momento e naquelas circunstâncias. Assisti-lo sem essa advertência torna-se um nonsense equivalente a julgar uma obra surrealista com critérios renascentistas.

Exibido no Brasil posteriormente apenas em mostras e sessões especiais dedicadas à obra de Glauber, criou-se em torno desse filme a aura de que a partir de então sem filmes são desiguais, mesmo que muitos não tenham assistido ou tido acesso a eles (após O Leão, seu filme seguinte foi Cabeças Cortadas, realizado na Espanha, que também gerou polêmica e a discussão de que sua verve criativa havia se esgotado). Passados pouco mais de 40 anos de seu lançamento, os negativos de O Leão, que se encontravam na Cineteca Nazionale di Roma em estado de deterioração, foram restaurados e a cópia exibida para o público brasileiro no Festival de Brasília no ano passado. Na ocasião, foi divulgado o lançamento em DVD de mil cópias do filme destinadas a instituições; para o ano corrente espera-se sua versão comercial pela Versátil.

Com a distribuição para um público amplo, finalmente a oportunidade de acesso a essa obra que, antes de tudo, assinala os caminhos tomados e os desafios enfrentados para se fazer arte em contexto tão adverso como o final dos anos 60 no Brasil. Ver O Leão de Sete Cabeças hoje é um dever para quem quer que se coloque na posição de pensar sobre as relações entre arte, cultura e política. Sem meias palavras, trata-se de um filme que, generosamente, se oferece para aprendermos algo sobre o mundo e a vida; trata-se de um filme sem concessão aos imperativos da estética do consumo.


Humberto Pereira da Silva
é professor de filosofia e estética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema e autor de “Ir ao cinema: um olhar sobre filmes” (Musa Editora).