por Marcelo Miranda

Crise: no primeiro filme de Bergman, o nascimento de um gênio

Com a morte de Ingmar Bergman, muito se tem falado e lembrado a respeito de sua vasta filmografia. Ora, são 56 trabalhos para cinema e TV ao longo de quase 60 anos de carreira, o que o coloca entre os cineastas mais prolíficos a atuarem nas últimas décadas. Em meio a toda essa gama de possibilidades de se adentrar na obra de um gênio como Bergman, cria-se certa curiosidade em conhecer as suas origens e de onde ele partiu. Afinal, ao olharmos a relação de 56 títulos, os olhos tendem a se esticar para o primeiro e para o último da lista. O último muita gente já conhece: é Saraband, lançado em 2003 e disponível em DVD no Brasil. Mas e o primeiro?

A estréia de Bergman no cinema se deu em 1946, num aparentemente simples longa-metragem de nome Crise (ou Kris, no original). O mundo vivia os tempos do pós-guerra, a Itália aparecia com o neo-realismo e a tentativa de entender e mostrar, através do cinema, as dores de um povo abalado pelo conflito. O Brasil estava obcecado pela busca por um cinema de qualidade internacional (vide estúdios Vera Cruz, que surgiriam três anos mais tarde), e os EUA se preparavam para entrar nos seus anos de maior força e criatividade do cinema clássico e narrativo. E lá na região escandinava, em plena Suécia, aparecia um jovem de 27 anos com um filme que parecia não se encaixar em movimento algum. Era simplesmente um drama familiar – ou, como diz a narração que abre o filme: “apenas mais uma peça de todo dia”.

Pura modéstia. Crise nunca atinge o tom de tragédia íntima dos trabalhos mais incensados de Bergman. Porém, as raízes estão lá, num enredo de premissa banal, mas jamais simplista. Em vista do pouco acesso ao filme no Brasil, vale a descrição: Nelly é uma garota cheia de vida e empolgação, prestes a se casar com Ulf, a quem parece amar. Mora num pequeno município do interior com Ingeborg, a mãe adotiva, e leva uma vida sem maiores riscos. Certo dia, chega sua mãe verdadeira, mulher experiente e de ego inflado, que propõe à filha levá-la para morar na cidade grande. A ingenuidade e a curiosidade, mescladas a uma certa idéia de que é dona do próprio nariz, fazem Nelly aceitar a oferta. Logo as duas partem a Estocolmo, deixando inconsoláveis a mãe adotiva, que está doente, e o ex-namorado, que ainda guarda esperanças de um dia a moça voltar.

Daí em diante, o filme se divide entre as angústias de quem ficou e as desventuras de quem foi. De um lado, Ingeborg precisa conviver com a ausência de sua pequena e com a proximidade da morte; do outro, Nelly se vê envolvida numa trama sórdida de perversão quando um grande amigo de sua mãe a seduz. Percebe-se, sem muitas dificuldades, o quanto existe de “bergmaniano” num filme como Crise. O roteiro é do próprio diretor, inspirado em texto teatral de Leck Fischer (o que já demonstra, de cara, seu envolvimento com o teatro, outra de suas grandes paixões artísticas – Bergman encenou 126 peças).

Estão na tela a presença da morte, a rondar os personagens de formas variadas; a repressão sexual que, quando anulada, provoca reações extremas; os sentimentos guardados e inesperadamente explicitados em duras conversas; a desilusão com os próprios entes queridos, pessoas que, na tentativa de serem felizes de algum jeito, deixam outros infelizes; a hipocrisia das aparências em detrimento de uma verdade sobre a própria natureza do ser humano; a atenção da câmera com a face dolorida e o olhar vazio (Ingeborg sempre aparece com o rosto iluminado mais do que o resto da cena, quase a atestar a vida prestes a se apagar, mas também a destacar a parte mais expressiva de seu corpo). Nada é muito explícito e nem intenso como, por exemplo, na obra-prima Gritos e Sussurros, filme que reúne todas as características citadas acima e as catalisa de maneira quase insuportável a quem se dispõe a mergulhar na intimidade daquelas quatro mulheres em cena. Mas há, em Crise, uma confusão de sentimentos que transformam o filme em algo muito além de um drama sobre mãe e filha.

É o caso da conversa entre as duas mães de Nelly. Ingeborg não quer que a outra, Jenny, carregue sua menina para longe. Primeiro alega amá-la, tê-la criado, tê-la feito a pessoa adorável que se tornara. “Mas eu sou a mãe verdadeira”, retruca a antagonista. Nisso, Ingeborg apela: conta que sofre de uma doença terminal e não queria estar afastada de Nelly numa hora tão difícil, para não sofrer ainda mais. “Então não é por ela que você está implorando. É por você mesma”, rebate Jenny. Como negar? Um diálogo, uma troca de palavras, a percepção de sentimentos ambíguos. Somente isto é suficiente para Bergman rasgar na tela as típicas contradições que tanto o atormentavam e que ele levava ao cinema com a força de um trator e a singeleza de uma pluma. O questionamento de Jenny a Ingeborg vai causar nesta um forte impacto na consciência, com a pergunta reverberando na mente em meio a outros momentos de dor que ela tanto queria evitar. Não existe, como se percebe, a condescendência por parte do diretor: ele expõe para a protagonista e para o espectador a verdadeira face do que está em jogo.

Crise chega a ter momentos de humor (em especial na irmã de Ingeborg e na narração em off, que guarda certa ironia e acidez), o que já serve de preparação para a comédia que Bergman realizaria dez anos depois (Sorrisos de Uma Noite de Amor, baseada em Shakespeare) e mesmo para uma certa leveza no trato com os personagens de Monika e o Desejo (1953). Tecnicamente, Crise guarda alguns bons achados do talento de Bergman. Em diversos momentos ele utiliza a montagem em fusão, recurso amplamente presente em alguns de seus melhores filmes, para expressar a confusão mental de Ingeborg. São momentos em que o plano da realidade se mistura ao plano da consciência, e disso saem imagens de transtorno e crueza.

Quatro anos depois da revolução proporcionada por Orson Welles em Cidadão Kane, Bergman parece ter aprendido a lição (ou mesmo ter sido contemporâneo na idéia, vai saber...) e tira da profundidade de campo o melhor que ela pode proporcionar. Está na cena em que Nelly, após se desiludir, resolve voltar para casa. A câmera se mantém fixa todo o tempo. Vemos uma sala com duas portas – uma em primeiro plano, outra bem no fundo da imagem. Da primeira, surge Nelly. O som da porta se abrindo faz com que as mulheres que estão perto da segunda porta (Ingeborg entre elas) se sobressaltem – seria a filha retornando ao lar? Ingeborg se encaminha até o primeiro plano e se depara com a garota. Um forte abraço sela a paz entre as duas. Após um rápido diálogo, Nelly anda em direção à porta do fundo, deixando Ingeborg agora no primeiro plano. A moça abre a outra porta, e o espectador escuta a voz de Ulf (o ex-namorado). Nelly passa pela porta e a fecha, enquanto Ingeborg permanece próxima à primeira porta. Em poucos minutos, resolvem-se dois dos maiores conflitos do filme sem que um corte de montagem seja dado, tendo total aproveitamento do espaço, do som e dos atores. Impossível negar algo de Welles aqui, mas mais impossível é negar a potencial genialidade de Bergman em funcionamento.

A resolução de Crise pode aparentar um final feliz, mas está longe de o ser. O que Bergman prefere é mostrar que, apesar de todas as dificuldades e riscos, a vida tem mais momentos de encanto do que de sofrimento. É como o fim de Gritos e Sussurros, e de boa parte de vários de seus filmes: em meio a toda a complexidade da natureza humana, o que deve ser mais valorizado e ficar retido na memória é o que pode ser proporcionado de melhor. “É como um bom curto-circuito”, diz Ingeborg, em relação a tudo que lhe aconteceu. Parece resumir o pensamento de Bergman: para o homem ser completo, ele precisa viver na base de vários curtos-circuitos que o façam sofrer e sentir a necessidade de encontrar e valorizar a felicidade.

Filmes Citados:
Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941/Orson Welles)
Crise (Kris, 1946/Ingmar Bergman)
Monika e o Desejo (Sommaren med Monika, 1952/Ingmar Bergman)
Sorrisos de Uma Noite de Amor (Sommarnattens Leende, 1955/Ingmar Bergman)
Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop, 1973/Ingmar Bergman)
Saraband (Saraband, 2003/Ingmar Bergman)