por Marcelo Miranda

Uncle Boonmee Who can recall his past lives, de Apichatpong Weerasethakul

por Marcelo Miranda

Como falar de uma obra de arte quando o contato com ela se dá por vias intensamente abstratas? Como definir do que se trata determinada criação se o que ela é e significa só pode ser percebido pelo que ela nos oferece aos olhos, ouvidos e sensibilidade? Como se colocar diante de um objeto misterioso, estranho, renovador, que nos obriga a repensar tudo o que acreditamos saber a respeito de determinada arte e fazer do nosso olhar algo virgem, destituído de valores prévios?

Diante de qualquer filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul, esses questionamentos sempre me vieram à tona. Ao me submeter a seu novo filme, Uncle Boonmee Who Can Recall his Past Lives, a potencialização dessas dúvidas me pareceu inevitável. Na saída da sessão em Cannes, amigos comentavam: “Tenho muito a dizer sobre o filme”. Só para, minutos depois, reconsiderarem: “Só não sei o quê”.

Diante de impactos assim, a humildade do crítico precisa vir à tona, e nada melhor do que o seminal texto de Jean Douchet, A Arte de Amar, que, entre outros momentos sublimes, registra:

Revelar em que o artista enriquece sua arte pela sua obra e como essa obra é enriquecida por sua vez pela arte me parece ser, em definitivo, a pedra no caminho da crítica. Isso se sente, mas como é difícil explicar! Chegada nesse estado, a crítica entra no domínio do incomunicável. (...) Na impossibilidade de exprimir em palavras em que, numa obra, existe arte, quando há verdadeiramente arte nesta obra, é forçoso então demonstrar que, em tal outra, não há arte, ou ao contrário, se ela se engana, descobrir a arte ali onde ela não existe.

O que Douchet diz basicamente é que, diante daquilo que nos encanta no nível totalmente subjetivo, a única saída é falar do que NÃO nos encanta de forma tão forte, pela simples impossibilidade (e incapacidade) de abordar criticamente o que nos encanta. Uncle Boonmee não é um filme que se possa assistir e logo escrever sobre ele horas ou mesmo dias depois. Trata-se de uma peça artística que carece de maturação, de reflexão extrema, de deixar as sensações aflorarem a partir e depois da experiência. Weerasethakul certamente não fez este trabalho apressadamente, e muito menos atingiu o nível que se vê atropelando a si mesmo. Cabe a quem embarcou em sua viagem o mesmo tipo de cuidado ao lidar com ela.

O tailandês tem alguma mágica que nos insere num mundo ao qual reconhecemos inicialmente por seus significantes (árvores, matas, cavernas, animais, pessoas, sons), mas pouco a pouco nos retira das certezas e nos impute a dúvida. Só que essa dúvida nunca se torna uma “questão”, mas, sim, parte intrínseca ao universo previamente reconhecido. Uncle Boonmee abre com a imagem de um descampado. Em primeiro plano, um búfalo preso numa árvore. Quando o bicho se soltar e andar para o fundo da imagem, o nosso olhar acompanha com curiosidade, por mais que o tom seja estranho e enigmático.

A capacidade de Weerasethakul de nos tirar o chão é crescente a cada novo lance do filme. Nos planos longos, o “nada” ganha status de “tudo”, e o fantástico parece a coisa mais natural do mundo. Se há um fantasma em cena, reagimos como os personagens: um impulso de estranhamento imediato, uma aceitação natural em seguida. Não há o que “cobrar” do que se assiste. Uma alma é uma alma, uma mulher é uma mulher, um peixe é um peixe, um filme é um filme (Sganzerla).

Uncle Boonmee vem se somar a Blissfully Yours, Mal dos Trópicos e Síndromes e um Século como realizações que nos colocam dentro da imagem, compartilhando o que acontece na tela, mesmo sem sabermos decodificar alguns elementos. O que importa ao cinema de Weerasethakul é menos o entendimento do fato do que a sensação do ambiente, menos o “motivo” e muito mais o “pós”, o encanto, o torpor.  

Pode ser empolgação imediata, reação em cima da hora, efeito catártico. Pouco importa. Assistir a Uncle Boonmee pela primeira vez nos dá a única certeza de que ele é feito para ser visto várias vezes, sempre com a consciência de que talvez nunca tenhamos distanciamento o suficiente para saber como falar mais racionalmente dele.

Visto no Festival de Cannes 2010

FILMES CITADOS

Blissfully Yours (Sud sanaeha, 2002)

Mal dos Trópicos (Sud pralad, 2004)

Síndromes e um Século (Sang sattawat, 2006)

Uncle Boonmee who can recall his past lives (Loong Boonmee raleuk chat, 2010)

*Todos dirigidos por Apichatpong Weerasethakul