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por Marcelo Miranda
My Joy, de Sergei Loznitsa - Competição
por Marcelo Miranda

Dirigido pelo ucraniano Sergei Loznitsa, Schastye Moye (ou "My Joy"; em português, "minha alegria") é um trabalho de impacto. Usa uma paisagem gelada de estradas na Rússia para narrar um conto de violência, sangue e niilismo que fazem o mundo dodói apresentado por Alejandro González Iñarritu em “Biutiful” (competindo também em Cannes) num trabalho para crianças.
(Não que o filme de Iñarritu precisasse de outro filme para se mostrar infantilóide, mas enfim).
Com formação em documentários, Loznitsa passou os últimos dez anos percorrendo o interior russo com sua câmera. Ele diz ter se baseado em várias pessoas que conheceu nessas andanças para criar o roteiro de My Joy, sua estreia na ficção. “Nasci na URSS, mas fui criado na cultura da Rússia. O que mostro no filme é parte da minha vivência”, disse o diretor.
Isso tem algo de assustador, se pensarmos no tipo de atitude apresentada nas duas horas de My Joy. Loznitsa se insere numa característica típica de grandes cineastas russos: capturar com gelidez assustadora as piores dores e os mais profundos primitivismos que afloram numa convivência humana automatizada pela falta de limites. Das imagens perturbadoras de My Joy emulam-se nomes do cinema da Rússia de pegada similar, oriundos de várias gerações, entre eles Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovski, Elem Klimov e Alexander Sokurov. Com My Joy, ele certamente se junta a esse time, cuja filmografia, se vista em conjunto por grupos grandes de espectadores, provocaria algum tipo de suicídio coletivo.
É cinema de adulto, com construção rigorosa e total crença no poder da imagem e do som. My Joy abre com um cadáver sendo desovado no cimento, e esta talvez seja a imagem mais significativa para o que virá a seguir. Andando pelas estradas, um grupo de pessoas anônimas, mostradas pelo filme separadamente (mas não em paralelo), depara-se com uma série de obstáculos cujo maior perigo é a própria figura física de outra pessoa. Alguns tiros (dentro da tela) ecoaram pela sala de cinema em Cannes e assustaram espectadores (fora da tela) que eventualmente podiam estar entediados com o ritmo calmo – mas nunca pouco intenso – de Loznitsa.
O desfecho apocalíptico só torna a experiência de ver My Joy mais assombrosa e cria uma ponte curiosa – ainda que não muito evidente, mas possível – entre ele e o romeno Aurora, de Cristi Puiu, exibido em mostra paralela do festival: são dois filmes sobre pessoas que decidem eliminar outras pessoas. A diferença maior está nas motivações vazias de um (o protagonista de "Aurora") e no esvaziamento de motivos do outro (os personagens de My Joy). A rever e refletir com urgência.
Filmes citados;
My Joy (idem, 2010/Sergei Loznitsa)







