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por Marcelo Miranda
Tropa de Elite: a quem fala o capitão Nascimento?
Passado o furacão da pirataria, a discussão ainda em torno de Tropa de Elite, de José Padilha, tem se fixado no discurso do filme. Ou melhor, no discurso do diretor do filme. Por conta da suposta celebração de alguns espectadores com as ações brutais do capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura) no combate à criminalidade carioca, a atenção deixou a estância cinematográfica para se concentrar na ideologia do realizador. Seria Padilha de direita ou de esquerda? Estaria ele defendendo a tortura ou a condenando? Será que ele acusa ONGs e universidades de não terem poder suficiente para vencer as mazelas sociais (violência, tráfico, miséria), tornando tais entidades depositários, de um lado, de financiadores indiretos do crime e, de outro, de jovens aspirantes a advogados que se transformam em “caveiras” assassinas de bandidos?
Muito mais interessante do que se preocupar com as posições de José Padilha é pensar como ele as expõe em sua obra. É isso que nos interessa aqui, afinal: discutir cinema, a criação cinematográfica e como ela se concatena para nos oferecer um olhar específico sobre o mundo. Específico, aliás, é a palavra que pode nos servir de ponto de partida. Uma coisa clara desde os primeiros minutos de Tropa de Elite é uma visão unilateral dos fatos. O que vemos na tela se dá única e exclusivamente através do discurso do capitão Nascimento. São dele as primeiras palavras (“O Rio de Janeiro tem mais de 700 favelas...”) e as últimas (“Eu ia voltar para a minha família sabendo que tinha deixado alguém digno no meu lugar”). Ele começa num caráter documental, expondo a realidade na qual vai inserir o espectador, para ir, a cada instante, transferindo a narração à subjetividade absoluta.
Se Nascimento explicita os acontecimentos, detalha os esquemas de corrupção policial, debocha da classe média, ele o faz com o intuito de nos expor a sua angústia, a sua vontade de arranjar alguém que o substitua no Batalhão de Operações Especiais (Bope). É, desde sempre, uma narração autocentrada, egocêntrica, assumidamente particularizada. É tanto isso que não há glamour nas cenas de violência – como havia, queira-se ou não, na montagem pop dos traficantes de Cidade de Deus. Ao exibir torturas e achaques por parte dos integrantes do Bope, Tropa de Elite não utiliza meios de linguagem que tornem aquela dor algo bonito. No máximo, uma música incidental surge de longe, sem melodia, apenas como ponto de tensão na cena. De resto, são os sons, palavras e expressões que atingem o espectador. A brutalidade é exposta e esfregada em quem assiste ao filme. Avaliando estritamente os recursos utilizados nessa exposição, é quase impossível afirmar haver ali coadunação com o que é mostrado.
(Processo diferente acontece em Batismo de Sangue, outro filme recente a exibir cenas pesadas de tortura. A câmera do diretor Helvécio Ratton exibe os torturados, na maior parte das vezes, em ângulos fechados, com a lente colada neles e, no máximo, na altura de seus olhos – variando o ângulo quase sempre de acordo com os movimentos de seus corpos; já os torturadores são enquadrados em contra-plongée, formando verdadeiras caricaturas vilanescas que apenas aumentam o tom sensacionalista das cenas.)
Se Tropa de Elite se assume como visão específica do capitão Nascimento, a lógica diria que tudo o que chega aos olhos do espectador deveria ter passado pelos olhos do personagem. O processo não acontece no filme de Padilha. O capitão narra fatos nos quais não estava presente, apresenta detalhes e características de acontecimentos sobre os quais ele, no máximo, ouviu de terceiros. Mas o nível de conhecimento é tamanho que fica difícil imaginar sua ausência em determinados momentos. O discurso de Nascimento é pautado pela onisciência: ele é um pequeno Deus que a tudo vê, ouve e julga, raciocinando de acordo com o que nos mostra.
É ele o responsável por conhecermos Matias e Neto antes deles entrarem no Bope. É o capitão que nos apresenta toda a maracutaia da polícia convencional nas ruas do Rio de Janeiro. É ele quem decreta a culpa da classe média consumidora de drogas como principal financiadora do tráfico e da manutenção dos senhores do crime nos morros cariocas. A narração vem de um lugar indefinido, até mesmo de uma mídia transmissora indefinida – Nascimento está falando a alguém? Ou estaria escrevendo o relato? Quem sabe olhando o espelho e exorcizando a si mesmo? Dois elementos estão muito claros nesse sentido: um é que o capitão narra de um tempo futuro (o que é várias vezes insinuado, como ao dizer “eu sei como a história do Baiano termina, mas não sei onde ela começa”, ou então “o Matias me contou, muito tempo depois...”); outro é sua excelente articulação de idéias e raciocínios, bem mais elaborada e delineada do que ele mostra ser capaz durante o filme. Juntando as duas constatações, é como se a narração em off acontecesse num período em que Nascimento saiu do Bope e se curou do pânico e do stress que o acometiam nos seus últimos dias de policial.
A onisciência do discurso do capitão cria um paradoxo dentro da construção cinematográfica de Tropa de Elite, o que pode ser o “culpado” pela confusão entre olhar do diretor e olhar do personagem. Por um lado, o total conhecimento de Nascimento sobre aquilo narrado por ele gera a idéia de que o filme estaria justificando suas ações – afinal, a escolha definitiva sobre quem vai “mandar” na narrativa do filme é do diretor, no caso, José Padilha. Se o escolhido foi um policial truculento mostrado como homem sofrido e angustiado, uma conclusão possível é de que Padilha simpatiza com este personagem e tenta lhe dar voz. Daí seria “fácil” o espectador ficar ao lado de Nascimento, ainda mais quando ele nos diz várias vezes que o playboy fumador de maconha ou cheirador de cocaína é responsável pela entrada de crianças no movimento do tráfico, ou que quem ajuda bandido é cúmplice e, portanto, deve ser punido como tal. Também pela definição do olhar do protagonista, Padilha talvez estivesse justificando a máxima “bandido bom é bandido morto” e que o crime só será vencido com a chegada de mais e mais famigerados integrantes do Bope – como o jovem Matias, ao final do filme.
O que vai fazer surgir o paradoxo é o fato de justamente o discurso onisciente ser responsável por permitir ao espectador saber tantos detalhes a respeito dos personagens e situações mostrados em Tropa de Elite. Não fosse o poder divino do off de Nascimento, o filme seria ainda mais unilateral do que aparentemente é. O conhecimento pleno do policial a respeito de sua narração permite a Padilha transitar livre e tranqüilamente na universidade, no batalhão convencional, no seio familiar, na boca-de-fumo, nas boates, nas ruas do Rio. Num processo estritamente de cinema, a câmera e o off se conjugam para formar um grande painel, um emaranhado cheio de nuances a confluírem no momento-chave do desfecho. Padilha já fizera algo semelhante em Ônibus 174, seu primeiro longa-metragem. Documentando a trajetória de Sandro Nascimento da infância até o seqüestro de um ônibus no Jardim Botânico, o diretor ouviu gente de todo lado – familiares, antropólogos, assistentes sociais, favelados, moradores de rua.
Seria ingenuidade pensar que Tropa de Elite ou Ônibus 174 sejam, por conta dessa busca pelo olhar plural, filmes objetivos sobre os temas abordados. Como qualquer obra de arte, os dois trabalhos são elaborações de um realizador munido de ideologias e idéias particulares, artífice de um projeto que tenta dar corpo a seus pensamentos. E é mais ingenuidade ainda querer acusar o criador de inserir um discurso na obra. É óbvio que este discurso está inserido. Cabe a quem toma contato com a criação captar a que se deve e onde quer chegar tal discurso. No caso de Tropa de Elite, há pelo menos duas saídas possíveis: ou assume-se o filme como a construção cinematográfica da visão parcial de um personagem (Nascimento) no limite do suportável dentro de sua rotina extenuante; ou usa-se a idéia, carregada de conservadorismo e simplificação, de que Padilha é “cúmplice” do capitão e, por isso, o filme (e quaisquer outros elementos que sirvam para dar-lhe escopo como obra de arte) e seu realizador devem ser condenados por conta disso.
Uma outra questão
Ainda dentro do discurso do capitão Nascimento ao longo de Tropa de Elite, outro questionamento muito comum de surgir nas rodinhas de conversa sobre o filme é que o personagem jamais coloca em xeque os próprios atos. Se ele se angustia, não é pela forma como agiu, mas pelas conseqüências da ação – é assim na preocupação com a esposa grávida, no remorso em relação à mãe do fogueteiro morto por causa de uma ação do Bope e na raiva com o assassinato do aspirante Neto. O problema, para Nascimento, não está na tortura nem nos métodos invasivos e persuasivos do Bope. Está naquilo que ocorre a partir desses atos.
O filme usa de seu próprio discurso (e aí não me refiro ao off, mas ao encadeamento da narrativa) para dar ao espectador a noção de quem é, afinal, esse tal de Nascimento. O treinamento ao qual os policiais convencionais são submetidos, somado à realidade do Rio de Janeiro como constante foco de guerra, seria o “motivo” pelo qual Nascimento é aquela besta humana capaz de se aproveitar de um sentimento de luto do colega para conseguir seu substituto. O público conhece Nascimento em pleno movimento e depois de anos de Bope (“Eu já estava ficando cansado”, afirma, logo na sua entrada em cena). Ele não é um intermediador fora do centro do filme (como Buscapé no já citado Cidade de Deus, que transitava nos núcleos da narrativa tentando não participar deles). Padilha evita a todo instante “psicologizar” o protagonista, o que é um dos maiores acertos do filme. A cena na sala de psiquiatria resume muito dessa idéia: ao optar por se levantar e deixar uma irritada médica sem saber o que o atormenta, Nascimento tira do espectador a chance de entender o que passa na sua cabeça e evita que o julguemos a partir de um tratamento clínico. Tudo o que precisamos saber, de acordo com o que Padilha quer e permite que saibamos, está colocado nas palavras do off e na imagem.
Um exercício interessante seria assistir a Tropa de Elite sem a narração de Nascimento, pois muitas das reações surgidas contra ou a favor do filme – e de seu personagem principal – vêm exatamente de pontos tocados pelo discurso em off. Sem ele, Padilha certamente evitaria muitas pedradas e se pouparia de ser taxado de reacionário. Só que um artista, quando decide criar a obra da forma como a esculpiu na cabeça, deve estar disposto a enfrentar as exaltações. Pena que, na ânsia por atacar o realizador, muita gente tem perdido a oportunidade de avaliar e refletir o filme e as elaboradas articulações que o formam e o tornam passível de real atenção.
Filmes Citados:
Cidade de Deus (idem, 2002/ Fernando Meirelles)
Ônibus 174 (idem, 2002/ José Padilha)
Batismo de Sangue (idem/ Helvécio Ratton)
Tropa de Elite (idem, 2007/ José Padilha)







