por Marcelo Miranda

O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira - Un Certain Regard

por Marcelo Miranda

Ao fim de Singularidades de uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira, o personagem de Ricardo Trêpa tomava consciência da real natureza da garota com quem iria se casar. É um dos momentos mais fortes do cinema, em se tratando de desilusões amorosas. Em O Estranho Caso de Angélica, novo filme do português, Trêpa parece ganhar nova oportunidade de amor, quase numa espécie de sequência do longa anterior, ainda que sem qualquer relação direta entre um e outro. Manoel parece ter entendido que apenas a metafísica seria capaz de driblar o impacto do fim de Singularidades.

Raciocinar sobre O Estranho Caso de Angélica na perspectiva de filmes recentes do diretor é um exercício não apenas saudável, mas prazeroso – tanto pensar sobre eles como assisti-los: a cada incursão nas telas nos últimos dez anos, Manoel de Oliveira se mostra mais perspicaz no jeito de captar emoções e reações; na aparente frieza da direção de atores, estão entranhadas noções muito mais ligadas à encenação como única forma de expor as reflexões que lhe interessam do que em necessariamente soar naturalista. Quanto mais avança na idade (lembremos estar falando de um realizador de 101 anos), mais Manoel aparenta entender não propriamente os sentimentos do mundo, mas os sentimentos dos personagens que habitam o mundo criado por ele através de recursos simples do cinema.

Temos uma câmera, planos longos e fixos, diálogos, silêncios, olhares para o vazio, encontros. Para Manoel de Oliveira, o que acontece dentro da imagem é o que sempre vai importar, mesmo que o universo fora dela não seja semelhante ao que se vê lá dentro. Existem discussões sobre economia, vida e morte, antimatéria, mas nada disso, de fato, suplanta uma noção de “coisa do passado” que exala do filme. O tempo é o contemporâneo, mas Isaac (o fotógrafo interpretado por Trêpa) veste-se de maneira ultrapassada para os dias de hoje e parece ter valores arcaicos se pensarmos na modernidade.

Um exemplo sublime desse estranho paradoxo de tempo/espaço que ocorre nos filmes recentes de Manoel está também em Singularidades de uma Rapariga Loura: quando a moça vai beijar o protagonista, ela levanta uma das pernas para trás. Não existe imagem mais “inocente” do que esta, e sua força é maior quando descobrimos que essa mesma personagem está longe do estereótipo de uma garota que levantaria as pernas ao beijar o homem amado.

Esse tipo de “contradição” e estranhamento molda quase inteiramente O Estranho Caso de Angélica, desta vez no sentido de gênero cinematográfico. Temos um autêntico filme de fantasmas, com ecos de Michelangelo Antonioni (Blow-up). Mas é, essencialmente, um filme de Manoel de Oliveira, o que significa que jamais se assistirá à emulação de gêneros (como faz Quentin Tarantino). O que interessa ao cineasta português é ser o mais direto possível dentro das exigências de suas próprias escolhas. Sem nenhum receio de lançar na tela sequências tão memoráveis quanto potencialmente ridículas (Trêpa e o espírito de uma garota flanam pelo ar, às gargalhadas, até ele desabar no chão e acordar de um sonho), Manoel faz aqui um mergulho num tipo de imaginário ao qual o espectador toma um susto após o outro – mas esses sustos são pela completa falta de perspectiva sobre o que vai acontecer em seguida, invariavelmente nos assombrando (e maravilhando) com o que efetivamente surge.

*Visto no Festival de Cannes 2010

 

 Filmes citados

O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)

Singularidades de uma Rapariga Loura (Manoel de Oliveira, 2009)

Blow up (Michelangelo Antonioni, 1966)