por Marcelo Miranda

Amantes

Ao fim de Os Donos da Noite, o personagem de Joaquin Phoenix, frustrado e abandonado, não enxerga outra saída para continuar vivendo, senão estar ao lado do irmão policial que o ama e assumir responsabilidades que, intimimamente, ele não quer. Ao fim de Amantes, o personagem de Joaquin Phoenix, frustrado e abandonado, não enxerga outra saída para continuar vivendo, senão estar ao lado da namorada que o ama e assumir responsabilidades que, intimamente, ele não quer. Duas pontas que, iguais, unem-se no trabalho de um único diretor, esse mago do intimismo chamado James Gray.

 

Qual diretor americano, hoje, consegue narrar tão bem conflitos tão humanos como Gray? Clint Eastwood, talvez, e no máximo. Os estilos são diferentes (mas não tanto, como já apontei aqui), mas a alma está toda lá, ainda que um fale de reconciliação (Eastwood), o outro de fissões incorrigíveis (Gray). O que torna ambos grandiosos é aquela característica ausente a muitos realizadores: a narrativa como algo essencial no impacto do espectador – pensando, aqui, a narrativa como a disposição dos atores, objetos, sons e cores dentro do quadro (e, também muitas vezes, fora dele). James Gray é, antes de tudo, um diretor paciente. Não demonstra a mínima pressa em chegar a alguma conclusão (até porque ele não a tem) nem muito menos apresentar situações de maneira a fazer o espectador “entender” o filme.

 

O que Gray faz tão magicamente é nos envolver numa típica enrascada em que um homem não sabe o que quer e nem para onde ir. Amantes reúne em torno de si – e na sua extrema simplicidade – um emaranhado de sentimentos que impressiona por caberem num filme de pouco menos de duas horas. O arco pelo qual passa o protagonista é radical na medida em que se apresenta como um episódio aparentemente banal. O velho enredo do triângulo amoroso ganha, pelas lentes de Gray, um caráter de fatalidade como quase nunca se imagina possível. Não há espaço para brincadeiras. Se há humor (e ele existe), a graça vem das pequenas coisas, dos gestos e olhares tropeçados, da descoberta de um sorriso, do leve constrangimento de uma piada sem graça, da suspeita de que a mãe está atrás da porta espiando o filho. Ninguém vai gargalhar assistindo a Amantes, porque James Gray não acredita que um triângulo amoroso seja necessariamente engraçado. É algo, acima de tudo, definidor de uma vida.

 

A câmera que lentamente faz uma curva para acompanhar os passos de Joaquin Phoenix na festa de Ano Novo – lágrimas no rosto, aliança nas mãos e um corte invisível e profundo no coração – é a câmera definidora do futuro. Com o breve deslocamento do ângulo de visão, James Gray escancara o destino do personagem, em toda a sua tristeza, mas também na total inexorabilidade daquele instante. Era possível antever o desfecho do filme pelo menos meia hora antes. E daí? O que Gray nos mostra é o passo a passo de um homem definindo o próprio rumo – ou melhor, sendo definido pelas circunstâncias. A mulher que ele diz amar surge num beco, das sombras, para lhe dar a pior de todas as notícias. Ele corre rumo ao mar – espaço-síntese do fim ou do começo – e decide retomar de onde tinha parado antes das sombras. Como o choro inconveniente revela, ele  guarda para si, mas não esquece o que aconteceu. E o que aconteceu é fundamental para o que fará dele um homem. Feliz, talvez nem tanto. Mas quem disse que os homens são (ou devem ser) sempre felizes?

 

É essa verdade da vida o que emana de cada imagem de Amantes. James Gray não a busca por alguma estética realista, documental, simbólica ou metafórica. Ele alcança essa verdade pelo poder que a ficção tem de impregnar a tela com ela. O alarme especial do celular, o frio do terraço, as luzes da balada, um álbum de fotos, a maquiagem borrada no rosto da garota abandonada: são todos minúsculos e grandiosos toques de uma realidade que vai se configurando ali, na sua frente, como se nada no mundo existisse para além daquele espaço habitado por um homem, duas mulheres, seus familiares, suas casas e seus conflitos. O protagonista – vítima de bipolaridade – é ele mesmo a rachadura em pessoa, disposto a quebrar uma casca que acredita possuir pelo simples prazer de quebrá-la junto a quem ele crê amar. Numa importante conversa ao telefone, Gray filma esse homem através de um vidro que divide seu rosto em dois pedaços, sendo um mais distorcido e indefinido que o outro. Qual deles, de fato, é o homem? Nenhum. Ou os dois.

 

Amantes é o quarto passo de uma carreira de acertos ainda curta (a título de registro, são de James Gray ainda Fuga para Odessa, Caminho Sem Volta e Os Donos da Noite). Gray tem poucos filmes, todos de notável sensibilidade e construção, todos demonstrativos do poder que o cinema guarda de nos oferecer espetáculos da vida íntima sem jamais fazer deles acontecimentos espetaculosos. Um filme de James Gray prima pela centelha dos sentimentos abafados, das pequenas tragédias do dia-a-dia, dos caminhos estranhos que a vida (o cinema) são capazes de impor. Assistir a isso na tela com tamanha elegância, maturidade e inteligência é, sem dúvida, um privilégio ao qual queremos sempre ter novamente.

 

Filmes Citados:

Fuga para Odessa (Little Odessa, 1994) *

Caminho Sem Volta (The Yards, 2000) *

Os Donos da Noite (We Own the Night, 2007) *

Amantes (Two Lovers, 2008) *

 

* Direção: James Gray