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por Marcelo Miranda
Kinatay, de Brillante Mendoza

por Marcelo Miranda
Dos filmes do filipino Brillante Mendoza, Kinatay talvez seja o que ele mais se aproxima de uma noção plena das possibilidades da ficção enquanto forma narrativa. Se em trabalhos como Tirador, John-John e Serbis a câmera sempre era personagem dentro do ambiente da pobreza e decadência ao qual testemunhava, aqui ela se assemelha a um testemunho distanciado e frio do pesadelo no qual o espectador se vê fazendo parte. Sim, a câmera segue ainda como um tipo de personagem, mas, bem pouco frenética, ela nos permite sentir menos sua própria presença enquanto olhar “invisível” e muito mais a força como instrumento do desenvolvimento de sensações. ***
O pavor crescente que vai tomando conta de Kinatay talvez seja tão maior justamente por Mendoza fazer dele o propulsor da narrativa. O filme começa com imagens de Manila (capital do país) e focaliza um casal e seu filho. Porém, esse entrecho serve de prólogo para a real natureza do filme: uma história do mais puro horror, contada, praticamente em tempo real, pelos olhos de alguém submetido a ele. O horror de Mendoza, como de praxe, é retirado do cotidiano filipino. Mas, diferente de trabalhos anteriores, o diretor faz dessa matéria-prima a chave para outros sentimentos. Kinatay não provoca necessariamente revolta, piedade, compreensão, asco. Provoca, essencialmente, medo – ou um certo sentimento de impotência, que depende menos de alguma reconstituição realista do enredo do que do tom de sufocamento imposto por essa câmera, que serve de olhos do público para a resignação pela qual passa o rapaz protagonista.
O medo causado em (e por) Kinatay, portanto, brota da percepção de que, como o personagem, o espectador é passivo dentro da situação de violência apresentada, podendo apenas olhar o que ocorre à sua frente. O “filme” ao qual o garoto assiste é o filme a que assistimos da sala escura, com a diferença de que o seu olhar está no ato em si, enquanto o nosso olhar se fecha no rosto desse jovem. A câmera é toda voltada para ele, e está com ele a cada instante, mesmo quando vislumbra algum momento de maior choque da imagem.
E, tão perplexo quanto esse personagem, está o próprio filme. A ação é inteiramente ambientada na madrugada, e Mendoza usa um tipo de fotografia que torna pessoas e objetos quase impossíveis de serem vistos. Sombras se movimentam de um lado a outro, a música funestamente invade a encenação e a edição de som se torna peça fundamental para a compreensão geral. Há um forte senso de radicalismo na forma como Mendoza leva à frente cada uma dessas escolhas, não apenas ao evitar lançar a violência diretamente no primeiro plano (acreditando na imaginação do espectador para completar as “lacunas”), mas por crer no potencial da própria situação como algo criador de pavor, mantendo tudo numa “prisão” moldada pela falta de luz – o que aumenta muito mais o senso de perturbação advindo do personagem e que nos atinge tão em cheio.
Kinatay é um exercício de gênero com matizes sociais muito claramente apresentadas. A vontade de Mendoza em não deixar dúvidas sobre a natureza do enredo – as manchetes sensacionalistas de jornais diários das Filipinas, o caos social, a miséria, a necessidade de sobrevivência familiar – chega no limite da ingenuidade (como a cena em que um grupo de homens pára na estrada em busca de comida, já próxima do final do filme), mas se sustenta na utilização do cinema como espaço de representação de uma “realidade inventada” – em que recursos como som, fotografia, música, interpretação e montagem têm o real valor de servir ao que é narrado. O assombro de se assistir a Kinatay nem vem simplesmente da consciência de que o visto possa ser “real”; surge, antes disso, por termos assistido a tudo aquilo de uma maneira tão bem conduzida e pela qual o drama do personagem (e todas as suas angústias) se mostra tão palpável quanto verdadeiro.
***A título de esclarecimento: deixei de fora comentários sobre Kaleldo, filme de Mendoza que parece muito mais interessado num de nicho de “cinema de arte”, com todos os cacoetes possíveis de serem desprendidos dessa escolha, do que em utilizar recursos de linguagem para provocar algum tipo de emoção genuína.
Filmes Citados:
Tirador (Slingshot, 2007)
Serbis (idem, 2008)
John-John (Foster Child, 2007)
Kaleldo (idem, 2006)
Kinatay (idem, 2009)







