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por Marcelo Miranda
Le Rendez-Vouz Du Sam’di Soir: três curtas franceses
por Marcelo Miranda
A noite mais marcante da CineOP ironicamente não foi dedicada ao cinema brasileiro, ainda que tenha tido tudo a ver com a noção de preservação que permeia a mostra. Pois a exibição de Le Rendez-Vouz Du Sam’di Soir (ou “programa de sábado à noite”, em tradução livre) ao mesmo tempo restaurou para o olhar de centenas de espectadores uma trinca de curtas-metragens seminais do cinema mundial e literalmente teve vida nova e própria ao permitir a esse público acompanhar ao vivo a orquestração da trilha sonora dos filmes – por conta do trio Céline Benezeth (violino), Marco Pereira (piano) e Maxime Roman (guitarra).
O resultado da combinação não poderia ter sido menos encantador. Em absoluta sintonia com o que se passava na tela do Cine Vila Rica, usando à perfeição sonoridades das mais variadas (música, voz, ruídos), os músicos apresentaram orquestrações de autoria própria que casavam pontualmente com as imagens exibidas. E que imagens: nada menos que dois dos cineastas mais fundamentais da França em momentos de pura inspiração. A Pequena Vendedora de Fósforos (1928) e Nas Ruas de Charleston (1926), ambos de Jean Renoir, e Intervalo (1924), de René Clair, são não apenas passos iniciais destes realizadores (que se notabilizariam por conta de seus longas-metragens), mas demonstrações de uma maturidade ímpar no domínio do ritmo, da linguagem e das trucagens possibilitadas pela novidade que era o cinema naquele momento histórico.
Não por menos, a imaginação e o delírio são temáticas dominantes nos três filmes. Nenhum deles se fixa no realismo puro e simples, ainda que toquem em questões muito próximas a qualquer um que os assista. A Pequena Vendedora de Fósforos é o que talvez mais se aproxime de uma noção de realidade, mas é também o que mais vai extravasá-la, ao mergulhar na mente de uma pobre trabalhadora de rua que tem alucinações consigo mesma enquanto agoniza no frio. As imagens vão se acumulando, cada vez mais imaginativas, e Renoir faz de truques simples – como a câmera lenta realizada pela velocidade dos fotogramas na película e a montagem que mescla o dinamismo das cenas ao uso da movimentação do corpo da protagonista como parte de toda a encenação – a chave para um sublime impossível de ser descrito em palavras rápidas como aqui. É essencialmente cinema, e isso, neste caso, é passível de lágrimas.
O corpo também é primordial no efeito causado pelo outro curta de Renoir, Nas Ruas de Charleston, e numa chave mais direta: ambientado no ano de 2028 (!), trata-se de um filme sobre um viajante africano do espaço (!!) que pousa na Europa e aprende a dançar com uma nativa branca (!!!), enquanto o macaco de estimação dela assiste a tudo com intensa alegria (!!!!). É um curta estética e ideologicamente ousado, porque, dentro de uma chave ainda nascente dos códigos da ficção científica (mais próximos de descrições literárias do que do cinema, o que é bastante compreensível pela época de produção), brinca com relações sociais de racismo e choque cultural. No fim, vence a confraternização entre os povos, não sem antes uma verdadeira sequência de farra em que o corpo dançante se transforma na identificação possível entre dois seres estranhos um ao outro.
Intervalo, de René Clair, é o mais alucinante dos três, porque não se utiliza de nenhuma chave calcada no realismo (caso especialmente do primeiro de Renoir). É um emaranhado de imagens de sonhos, que trabalham a plasticidade dos enquadramentos sem se fechar em qualquer tipo de simbolismo barato. Tem alguns exercícios bem-sucedidos de montagem (quando um carro funerário despenca morro abaixo em alta velocidade, entram planos subjetivos de dentro de um carrinho de montanha-russa) e, no desfecho, novamente celebra a imaginação como instância salvadora da humanidade individual.
*Vistos na 4ª CineOP.
Filmes Citados:
Nas Ruas de Charleston (Sur Un Air de Charleston, 1926, Jean Renoir)
A Pequena Vendedora de Fósforos (La Petite Marchande D’allumettes, 1928 / Jean Renoir)
Intervalo (Entr’acte, 1924 / René Clair)







