por Marcelo Miranda

Quem Quer Ser um Milionário? e seu mergulho na merda

 

 

Muito mais construtivo do que ficar enumerando quantos Oscars tal filme recebeu e em quantas categorias estava indicado é pensar o que representa para um conjunto de profissionais do cinema – no caso, os membros da Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood – os melhores longas-metragens lançados nos EUA e falados em inglês (porque estas são, afinal, as exigências para se concorrer ao prêmio de melhor filme). Sob este aspecto, as vozes dissonantes sobre as cinco escolhas da Academia pipocam em quase todo canto – tendo uma de suas melhores e mais raivosas expressões num artigo de João Pereira Coutinho publicado na Folha de S.Paulo.

 

Não tiro a razão de Coutinho. De fato, a “seleção” do Oscar 2009 pareceu reunir alguns dos trabalhos mais medianos a aportarem nas telas norte-americanas nos últimos meses. Há filmes que serão facilmente esquecidos (O Leitor), outros que ficarão numa vaga lembrança, positiva ou negativa (O Curioso Caso de Benjamin Button e Frost/Nixon) e um que dá, ao menos, seguimento a uma carreira de forte coerência (Milk). E há, claro, Quem Quer Ser um Milionário?, filme-fetiche do momento, verdadeira mania nos multiplex e nas premiações recentes (não só o Oscar). Numa rápida passada pela bilheteria de um dos mais movimentados complexos de cinema de Belo Horizonte, em noite de quarta-feira e com sessão de pré-estreia, era possível ouvir a voz feminina no autofalante anunciando os ingressos esgotados para o filme de Danny Boyle. É uma febre, que tende a crescer nas próximas semanas.

 

E justamente num momento de circuito tomado por tal febre é preciso se levantar contra o que parece estar sendo ignorado no contato com Quem Quer Ser um Milionário?: para além de ser um conto de fadas romântico, uma história de superação, um joguinho de roteiro que mais parece um quebra-cabeça interativo para o público ir montando, o longa de Boyle não é um filme ingênuo. Ele faz entretenimento dos mais patifes e baratos a partir de elementos questionavelmente engraçados. Não se quer, aqui, qualquer tentativa de defesa do politicamente correto. Muito pelo contrário: é pela caretice que boa parte do cinema industrial vem se caracterizando. Mas nem politicamente incorreto Quem Quer Ser um Milionário? consegue ser: ele é simplesmente um atestado de escrotidão, mau gosto e falta de sensibilidade.

 

Muito mais do que explorar as favelas de Mumbai, na Índia, com sua câmera pop, Boyle – britânico que aqui  assume postura de colonizador para retomar, via imagens de cinema, um território indiano pertencente a seu país num passado não muito passível de boas lembranças – também transforma os personagens em figurinhas engraçadas, inocentes e apaixonadas que apenas querem sobreviver em meio à miséria e à barbárie. Uma cena em específico ilustra o olhar de Boyle para essa “realidade”: um garoto está preso num banheiro público cuja latrina é um buraco no chão de madeira. Na ânsia de sair para encontrar seu grande ídolo (a poucos metros dali), o menino mergulha nas fezes que estão abaixo da casinha e dali sai coberto por aquela gosma marrom. Este momento foi comentado (e espinafrado) pelo crítico Inácio Araujo em duro artigo também na Folha de S.Paulo, sendo alcunhado como “uma das cenas mais desagradáveis da história do cinema”.

 

Para além de ser desagradável, o mergulho do garoto nas fezes provoca risos imediatos na plateia. E a cena, de fato, é toda desenhada para soar cômica, por mais que a situação seja a da mais absoluta degradação. Boyle não utiliza qualquer tipo de filtro que possa servir de deboche, ironia, piada, paroxismo ou clichê. O menino banhado de excrementos surge engraçado porque, na visão exposta por Boyle, um menino pobre da Índia banhado de excrementos em busca do autógrafo de seu ídolo é uma imagem engraçada. Simples assim.

 

Há um instante semelhante em A Espiã, drama de guerra do holandês Paul Verhoeven: após ser injustamente acusada de apoiar os nazistas, a protagonista leva um balde de fezes na cabeça, enquanto dezenas de guardas da resistência riem ao seu redor. Só que a cena apenas soa risível a quem está dentro da tela, e nunca a quem está fora. O excremento que cobre a personagem é o limite de sua via-crúcis, é a consagração de um engano, a impossibilidade da salvação, o supra-sumo da intolerância. Mas, para os resistentes holandeses presentes no local, é simplesmente engraçado.

 

As reações de quem está ao redor dos personagens sujos em cada filme, relacionadas a quem os assiste numa sala de cinema, representam muito do que aparentam ser os sentimentos contraditórios que as duas cenas provocam: quando o garoto imundo passa no meio de uma multidão, as pessoas fazem caretas e tapam o nariz, enquanto o público de cinema racha de rir da situação; quando a suposta nazista é enlameada, os prisioneiros se esbaldam em gargalhadas, enquanto os espectadores do filme ficam em choque. No filme de Paul Verhoeven, a merda é política; no de Danny Boyle, a merda é fetichista.

 

E todo Quem Quer Ser um Milionário? seguirá no mesmo tom. A cada instante de “choque” (a morte da mãe ou a cegueira das crianças, por exemplo ) seguirão cenas rápidas e videoclipadas (muitas delas engraçadinhas) para se chegar logo ao acontecimento seguinte. A certa altura, quando o filme assume a visão romântica, as imagens “negativas” desaparecem, dando lugar ao amor e culminando na já antológica dança final, possivelmente o momento mais “up” do cinema ocidental recente. Ali, naqueles passos desengonçados do casal protagonista e de todo o séquito que o acompanha, fica a clara impressão de que valeu a pena, afinal, rir do protagonista mergulhar em excrementos. Como negá-lo, se o que Boyle oferece é este espetáculo supostamente inocente e falsamente celebratório das diferenças, do exotismo e das possibilidades artísticas da globalização? Só mesmo tapando o nariz.

 

Filmes Citados:

O Leitor (The Reader, 2008 / Stephen Daldry)

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008 / David Fincher)

Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008 / Gus Van Sant)

Frost/Nixon (idem, 2008 / Ron Howard)

Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008 / Danny Boyle)

A Espiã (Zwartboek, 2006 / Paul Verhoeven)