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por Marcelo Miranda
O Lutador e Milk: a dominação do personagem
Nem sempre ser autor no cinema significa seguir os mesmíssimos preceitos. Vejam-se os exemplos das recentes realizações de Darren Aronofsky e Gus Van Sant. O primeiro, conhecido pela estética corta-cola e por ter a pretensão de se sobressair mais do que ao próprio filme (vide Pi, Réquiem para um Sonho e especialmente A Fonte da Vida), baixou a guarda e fez um dos trabalhos mais generosos da atual safra de cinema vindo dos EUA – o muito bonito O Lutador. Por sua vez, Van Sant, que vinha de trajetória inventiva com filmes cuja linguagem desafiava a percepção de quem se permitia mergulhar nas suas imagens oníricas e poetizadas (de Gerry a Paranoid Park), retomou o pendor do classicismo de Gênio Indomável e fez Milk, biografia política de um militante gay na Califórnia.
O que mais torna especiais os dois trabalhos é o quanto seus realizadores, ao se entregarem às propostas de dar total espaço aos personagens e permitir que as escolhas narrativas e visuais se concentrem nas trajetórias deles, conseguem ser bem-sucedidos onde tudo aparentemente parece não fugir do lugar-comum. Referenciando comentário do crítico Sérgio Alpendre, são filmes fáceis, e muito fáceis, de serem admirados, tanto quanto são facilmente passíveis de serem subestimados.
De fato, o que se vê em O Lutador é tranquilamente tachável de mais-do-mesmo. Até Sylvester Stallone, no seu (subestimado) Rocky Balboa, já tratara da questão do combatente veterano instigado a voltar ao ringue. Só que, no filme de Aronofsky, entra o fator “autodestruição”, bem menos presente em produções do tipo. O lutador Randy, ao mesmo tempo em que apenas se enxerga feliz e completo sobre um ringue, é também figura de constantes mergulhos no inferno – seja nas relações pessoais, no trabalho, nas noitadas. Por mais que tente sobreviver ao contexto que o cerca, Randy quase nunca têm as escolhas mais acertadas. Aronofsky, acreditando na força desse personagem, deixa que ele assuma cada decisão que o levará à derrocada. Evitam-se, aqui, o determinismo e as jogadas de roteiro.

O caminho de Randy é pautado pela câmera colada às suas costas e ao seu rosto. Aronofsky evita interferir, dando-se o direito máximo de observar. E na constante observação, permite ao filme exalar franca melancolia naqueles instantes, por vezes breves, que vão dando a sensação da grandiosidade de uma criação artística. É a falta de ar de Randy minutos antes de ter um enfarte; o rosto constrangido ao bater à porta da filha; a observação lenta e resignada dirigida aos veteranos de ringue reunidos numa “feirinha” de encontro com fãs; o desânimo de ser rejeitado pela mulher com quem pretende se envolver, após o idílico e lúdico “cantar junto” durante uma cerveja; a raiva e o ódio desmesurado que o fazem destruir o dedo na máquina do mercado; a subida catártica para o “golpe do carneiro”, no belíssimo plano final. Em cada momento, o que está no centro da ação é Randy, apenas Randy e seus gestos e movimentos. O filme é dele e Aronofsky sabe e permite isso.
Mas O Lutador não teria a força vista na tela não fosse Mickey Rourke no papel principal. Impossível ignorar, claro, o passado de decadência e solidão do ator. Há, aqui, a perfeita simbiose intérprete-interpretado, como se a existência de Randy não fosse possível sem a experiência de vida de Rourke – e vice-versa. Apesar dessa troca ator-personagem, o maior erro que se pode cometer ao se referir a O Lutador é afirmar que Mickey Rourke interpreta a si mesmo. Existem elementos pessoais, mas existe, acima de tudo, a visceralidade (física e sentimental) que faz de Randy o ogro quase palpável inserido nas imagens de Aronofsky.
Se falamos em entrega de corpo e alma no caso de Rourke para O Lutador, temos Sean Penn em chave oposta na recriação vista em Milk. Herdeiro de Marlon Brando, Robert De Niro e Al Pacino, Penn é daqueles profissionais que sabem lidar com o material proposto da forma mais competente e bem-sucedida possível. Van Sant, menos interessado em outro experimentalismo estético do que na explicitação de uma tragédia anunciada, dá espaço para que Penn dê seu show e faça do filme algo para além do propriamente biográfico. E, em nuances, o que também pode aparentar um trabalho de correto tradicionalismo permite chaves de leitura bem mais estimulantes.
A maior delas talvez seja o quanto a questão da morte continua sendo o eixo central dos filmes de Van Sant. Milk não é diferente: logo na primeira cena, em imagens documentais, informa-se o assassinato do político Harvey Milk. Na imagem seguinte, vê-se Sean Penn como o personagem real falando num gravador. O incômodo é imediato: ali está um cadáver ressuscitado pelo poder do cinema de dar vida através da imagem. É sobre essa "mágica" que se sustenta cada filme do cineasta: a partir do fim (da vida), tem-se o começo (do cinema).

Em toda a duração de Milk, o destino do personagem estará traçado, mas o que vai nos interessar não são necessariamente os preparativos daquela morte, mas os caminhos antes dela. Não é um filme de suspense crescente, muito menos de detalhamento de um assassinato. É a exposição de uma postura política, por parte do personagem, e o uso dos recursos de cinema como forma de expor os limites da própria criação, por parte do diretor. Van Sant dá liberdade ao protagonista, mas tem sempre consciência de que essa liberdade é castradora desde a concepção. Trabalhar numa corda bamba como esta será o grande desafio do filme, somado à tênue linha entre a exaltação panfletária, pura e simples da militância de Milk e o uso daquela trajetória como forma de refletir a capacidade do cinema em marcar épocas, pessoas e espaços.
Milk, afinal (tanto o filme quando o personagem), não existe sem a São Francisco dos anos 70. O crítico Kleber Mendonça Filho fez condizente analogia com a forma como a mesma cidade foi recriada em Zodíaco por David Fincher. Juntando ambos os filmes, temos quase um documento contemporâneo daquele período histórico, sob perspectivas distintas fortemente passíveis de complementaridade. É o cinema permitindo verdadeiras viagens ao passado através do embate entre personagens e o ambiente onde estão atuando e fazendo alguma diferença.
O mesmo se pode falar de Gus Van Sant: ao colocar na tela a luta por direitos de Harvey Milk como elemento de forte carga política na Califórnia setentista, o diretor faz também a sua política de trazer o passado ao presente, tornando aquelas imagens ecos não tão distantes e envelhecidos, mas reflexos ainda significativos. Sem nostalgia, melancolia barata ou discurso de palanque, Milk encontra, através das lentes de Van Sant, o poder de permanecer não só como quadro informativo (algo que ele jamais abre mão de ser), mas também documento comprobatório do quanto o cinema de toada clássica ainda tem escandalosa força de permanecer como invenção autêntica.
Filmes Citados:
Pi (idem, 1998 / Darren Aronofsky)
Réquiem para um Sonho (Réquiem for a Dream, 2000 / Darren Aronofsky)
A Fonte da Vida (The Fountain, 2002 / Darren Aronofsky)
Gerry (idem, 2002 / Gus Van Sant)
Paranoid Park (idem, 2007 / Gus Van Sant)
Zodíaco (Zodiac, 2007 / David Fincher)
O Lutador (The Wrestler, 2008 / Darren Aronofsky)
Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008 / Gus Van Sant)







