por Marcelo Miranda

Eu Matei Lúcio Flávio (1979): feio sujo e malvado

por Marcelo Miranda

 

Dois aspectos precisam ser logo considerados numa revisão de Eu Matei Lúcio Flávio, de Antônio Calmon, nos dias de hoje. Primeiro: ter a plena noção de que trata-se de um filme brasileiro de 1979, e nisso levar em conta todas as variantes que possam ser levantadas em se tratando de um período de participação bastante popular nas salas de exibição. Segundo: o imenso carisma-cafajeste de Jece Valadão, ator que carregava em sua própria imagem e presença na tela toda uma gama de referências do período e uma persona única, que o tornava – e as ações que tomaria ao longo do filme – imediatamente reconhecíveis.


Posto isso, pensemos rapidamente nos dois fatores. O caso de ser um filme de 1979 é o que mais se sobressai ao assistirmos a Eu Matei Lúcio Flávio. É claro que o ano de lançamento de uma produção não lhe confere juízo de valor ou agrega determinadas características. No caso aqui em questão, importa que o filme parece ter sido todo pensado para camadas mais baixas da população, numa época em que classes B e C freqüentavam os cinemas como diversão popular. Assim, o filme de Calmon congrega três elementos infalíveis: cenas de violência beirando o sensacionalismo, nudez (principalmente feminina) e trilha sonora com ícones daquele momento histórico. O filme se sustenta nesse tripé, e dele não abre mão. Ora vemos o policial interpretado por Jece Valadão dançando numa boate, ora o vemos num momento de romance ao som de Belchior, ora a polícia persegue e tortura bandidos enquanto ouve-se na trilha “Lady Laura”, de Roberto Carlos, ora uma jovem Maria Zilda é estuprada com um cano de revólver. Dessa forma, Eu Matei Lúcio Flávio, antes de ser o filme-denúncia que talvez pretendesse ser, ao falar da brutalidade do Esquadrão da Morte formado dentro dos quartéis da polícia para eliminar bandidos, torna-se veículo para o figuraça Jece Valadão transitar por diversos ambientes e neles sempre se encaixar sempre de maneira bem-sucedida.

E aí entramos no segundo fator a ser considerado sobre o filme. Vale registrar que foi Jece o produtor do longa. Amigo do verdadeiro Mariel Maryscötte de Mattos (o policial que ele encarna na tela), o ator decidiu levar a cabo o projeto por ter ficado insatisfeito com a visão de Hector Babenco para o mesmo personagem em Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia, lançado dois anos antes. Jece contratou Calmon para a empreitada e assumiu ele mesmo o papel principal. O resultado são cenas da mais pura canalhice e canastrice, tendo Jece ao centro – desde ele transando e se olhando no espelho às poucas frases (todas de efeito) que solta ao longo da narrativa. Não é à toa que se vê no apartamento do policial um retrato do Clint Eastwood pistoleiro em Por um Punhado de Dólares (o que reforça sua virilidade) e de uma nua e jovem Marilyn Monroe deitada em panos vermelhos (a propensão ao sexo constante).


Seria ingênuo olharmos Eu Matei Lúcio Flávio com os olhos da contemporaneidade. Cenas feitas para chocar provocam risos, a trilha cafona entrando e saindo a todo instante idem, mas é interessante abstrairmos tais elementos de época e avaliar o miolo do filme. Ainda mais se colocarmos na equação o recente Tropa de Elite, de José Padilha, com o qual o filme de Calmon é passível de curiosas analogias. A começar pelo personagem brutal e reacionário que cada filme retrata. Mariel e capitão Nascimento acreditam estar limpando as ruas utilizando os únicos recursos que a bandidagem não suporta – violência, muita violência. Ambos passaram por duro treinamento e se tornaram máquinas de provocar dor. No filme de Calmon, o processo de “transformação” de Mariel é entrecortado por sua vida pessoal, numa clara tentativa de humanizar o policial, ou ao menos mostrar ser ele um cara que não vivia só atrás de bandidos. Pelo contrário, ele seria capaz de se apaixonar – nem que fosse por uma prostituta drogada, o que gera uma das cenas mais bonitas do filme (Mariel carregando o corpo inerte e nu da prostituta). No caso de Nascimento, é parecido, mas quando Tropa de Elite começa, ele já é o policial que seguimos ao longo de todo o filme, cabendo a seus momentos de “folga” (a esposa grávida) mais um fator que o levará a buscar um substituto. Ou seja, no filme de 1979, o personagem está no processo de brutalização; em 2007, seu equivalente na produção de Padilha passa por caminho inverso.

 

A construção de Mariel, porém, se difere à de Nascimento. No filme de Calmon, a impressão é de, a todo instante, as imagens tornarem Mariel um cara detestável e canalha, mesmo ele aparecendo em momentos íntimos e até carinhosos. É um processo que remete ao Chance de Viver e Morrer em Los Angeles (1985), de William Friedkin, outro passível de dialogar com Eu Matei Lúcio Flávio na maneira de esvaziar o protagonista sem que, para isso, ele deixe de ter nuances que o mantenham num patamar de ser humano. O que mais impede o espectador de se colocar contrário a Mariel é justamente ele ser vivido por Jece Valadão, que exalava um certo tipo de humanidade difícil de descrever, mas que o colocava num raro panteão de atores com os quais o público era capaz de interagir, fosse ele um demônio ou um anjo (e no caso de Jece, era sempre o demônio...).


Ao fim, Eu Matei Lúcio Flávio causa um grande nó nas platéias contemporâneas: é um filme de direita, assume na linguagem e na narrativa o olhar torto do protagonista, é um filme sujo, feio, tosco (no sentido artesanal do termo), beirando o reprimível. E ainda assim, parece impossível não gostar dele nem deixar de ser levado por sua extrema honestidade e liberdade.

 

*Visto na 1ª Mostra CineBH.


Filmes Citados:

Por um Punhado de Dólares (For a Fistfull of Dollars, 1964/ Sergio Leone)

Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia (idem, 1977/ Hector Babenco)

Eu Matei Lúcio Flávio (idem, 1979/ Antônio Calmon)

Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in LA, 1985/ William Friedkin)

Tropa de Elite (idem, 2007/ José Padilha)