por Marcelo Miranda

Sistema de Animação

por Marcelo Miranda

Apesar de se constituir um documentário de perfil por essência, Sistema de Animação na verdade é um documentário de cotidiano, de fragmentos, que podia muito bem se chamar algo como As Aventuras de Toucinho Batera, tamanha a quantidade de situações fora da música que o filme registra envolvendo seu personagem central. Não basta mostrar a virtuose do baterista Toucinho, mas também as engenhocas, o dia-a-dia, as bebedeiras. A espontaneidade dele ganha reflexo na espontaneidade dos realizadores, o que faz o trabalho funcionar como uma coisa próxima da agitação cultural, em que a simples presença dos dois diretores empunhando a câmera mobiliza um universo de gestos, olhares, palavras e expressões.

 

Toda a comodidade com que Alan Langdon e Guilherme Ledoux parecem tratar Toucinho e a relação dele com a questão da filmagem permitem que Sistema de Animação ganhe contornos de autoficção – termo cunhado pelo ensaísta Jean-Claude Bernardet. Diferente da idéia do documentário de entrevista (“gênero” transformado em arte pela sensibilidade de Eduardo Coutinho), a autoficção surge quando a câmera está presente, mas é tratada como objeto ausente. Ou seja, a quem olha, existirá sempre o filtro da câmera, mas as pessoas ali filmadas tentam fazer parecer que não existe esse filtro. Elas ficcionalizam os próprios comportamentos.

 

E é isso que Toucinho faz em vários momentos do filme, ainda que provoque “ruídos” que deixam clara a encenação de si mesmo – especialmente quando tenta dirigir os diretores, orientando para onde eles devem filmar ou “pedindo” que deixe este ou aquele depoimento no corte final do filme. É uma performance tão mais autêntica quanto mais a câmera parece querer se atentar ao discurso de Toucinho.

 

Até porque o filme se nega a elevar o baterista a algo que ele não seja. Vê-se Toucinho nas situações mais peculiares, as entrevistas são feitas em lugares nada glamourosos (cozinha de copos sujos, salas bagunçadas, garagem). Tudo isso mesclado ao visual meio grosseiro e pouco limpo da imagem captada em vídeo, termina por soar respeitoso à essência humilde de Toucinho – o que não deixa de ser uma estratégia fundamental dos diretores para permitir que o músico, transitando diante da câmera no seu próprio meio, se permita à autoficção.

 

Uma característica também interessante é que, apesar de ouvir outras pessoas a respeito de Toucinho, não existem nomes famosos dando depoimentos. Novamente há, aqui, o respeito e a coerência com a proposta: não interessa ao filme se Toucinho é conhecido fora das fronteiras de Santa Catarina. O peso está no fato de que ele é respeitado ali naquele mundo, por aquelas pessoas que são “chapas” dele. No fim das contas, Toucinho é um anônimo e continuará sendo, com exceção do público que o conhecer através de Sistema de Animação. É um ato de generosidade da parte dos diretores, que acaba por compensar um pouco a excessiva duração de várias cenas do filme.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filme Citado:

Sistema de Animação (idem, Alan Langdon e Guilherme Ledoux, 2009)