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por Marcelo Miranda
Filmefobia*
por Marcelo Miranda
A premissa de FilmeFobia é absolutamente falsa: a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante da sua fobia. Não que isso seja necessariamente mentira, mas é claro desde o princípio que o filme “compra” a idéia para trabalhar a perturbação causada por suas imagens. O que o torna logo de cara um projeto instigante é que, mesmo com a premissa, hora alguma este longa-metragem de Kiko Goifman tenta nos convencer de suas verdades. Muito pelo contrário: Kiko não esconde de ninguém ter realizado uma ficção, e ainda se diverte quando dizem ser um documentário. O que está na essência de FilmeFobia, portanto, não é se o ponto de partida faz ou não algum sentido, mas como ele será trabalhado ao longo de todo o filme.
Há inúmeras questões a transitar nos parcos 80 minutos da produção. A maior delas talvez seja uma coisa básica: onde pretende chegar Kiko Goifman? A ironia é que, mesmo a pergunta tendo resposta, pouca diferença faz. Afinal, o artifício do pseudo-documentário é trabalhado de forma conjugada com a própria realização do filme dentro do filme: como uma experiência do momento, do instante específico, do registro de uma sensação impossível de ser repetida. André Bazin dizia que a morte e o sexo jamais poderiam ser encenados, porque são experiências transcendentais do ser humano. Aqui, as fobias – ou as reações a elas – são as situações passíveis da impossibilidade de repetição. Isso faz com que o filme, mesmo soando inócuo ou vazio após a projeção, guarde dentro de si mesmo – ou, mais especificamente, daquele momento único da exibição, quando ele é colocado diante do espectador – seus verdadeiros significados.
É ao mesmo tempo uma coerência temática, narrativa e política: o filme não mascara a sua real natureza, e, dentro da explicitação do artifício, embaralha os sentidos de quem o assiste, plantando a dúvida dos limites entre o real e o ficcional. Curioso pensar essas relações dois dias depois do impacto de S. Bernardo, de Leon Hirszman, que abriu o Festival de Brasília: também FilmeFobia atravessa a ficção para tornar-se real, ao mesmo tempo em que perpassa a realidade para exibir-se como encenação. A diferença é que, no trabalho de Kiko Goifman, os filtros nunca estão às claras.
Muito dessa confusão de linguagem deve-se a uma certa crise de representatividade colocada em cena. Temos, lá dentro do “enredo”, a história do cineasta Jean-Claude, cujo propósito é realizar um documentário sobre as reações dos fóbicos aos objetos de seus medos. Ele faz reuniões com técnicos, convoca anônimos para se submeterem a operações próximas de verdadeiras torturas (em meio a engenhocas altamente sádicas) e troca profundas idéias de cinema e moral com um especialista em fobias, com Kiko Goifman e com José Mojica Marins (!). Porém, como todos sabemos, FilmeFobia é um trabalho com direção de Goifman, protagonizado pelo crítico e ensaísta Jean-Claude Bernardet e com participação de fóbicos verdadeiros, de atores encenando fobias e de atores com fobias reais.
Por mais que a separação entre o filme e o filme-dentro-do-filme pareça clara, os limites se perdem quando Jean-Claude, personagem, expõe elementos de vida do Jean-Claude ator, ou, mesmo sabendo das encenações, percebemos que o desespero de algumas pessoas em cena se aproxima do pavor absoluto. Quando o próprio Kiko Goifman aceita enfrentar sua fobia (sangue), tudo mergulha num turbilhão confuso de representação. Não se sabe mais de nada, e isso fascina por um motivo simples: se Kiko aparecer na frente do espectador e apontar exatamente o que é real ou não, este espectador vai continuar tendo o mesmo tipo de tensão, já que as engenhocas tão todas montadas de verdade e realmente submetem os atores (ou não-atores) ao que assistimos na tela. É um procedimento diferente ao de Eduardo Coutinho em Jogo de Cena: lá, estavam delimitadas atrizes e anônimas, mesmo quando não conhecíamos o rosto de determinada atriz que estivesse discretamente interpretando uma anônima: se soubéssemos quem é quem, o olhar seria imediatamente modificado para a codificação da encenação. Em FilmeFobia, a nossa relação com o filme não vai mudar se o truque for desvendado. “Um falso fóbico pode aparecer como verdadeiro?”, pergunta Kiko a Jean-Claude, no filme. “Sim, claro! A verdade está é dentro da imagem”, responde ele. O valor da imagem, portanto, é maior e mais legítimo que a encenação, a ficção e ou a realidade. Importa o que estiver impresso na tela para a “tese” ser confirmada.
Para além de suas implicações (muito mais passíveis de aprofundamento do que faço aqui nesta atrapalhada tentativa), FilmeFobia é, de certa forma, um documentário sobre Jean-Claude, o verdadeiro. Ainda que esteja interpretando alguma espécie de alter-ego do mal, esta figura fundamental no pensamento crítico do cinema brasileiro nos últimos 40 anos se entrega ao papel com ousadia e autenticidade. Diversos elementos de composição são mesmo de sua vida (a visão, na infância, de Roma, Cidade Aberta como um filme de terror, a convivência e luta com a Aids, a perda gradual da visão), e a forma como ele se coloca fisicamente no filme (caminhando pela casa, fazendo tratamento nos olhos, exercitando-se) fazem dele um ser palpável, evitando que o sadismo do personagem Jean-Claude suplante a complexidade e o encanto exercidos pelo intelectual Jean-Claude. Acaba sendo mais um jeito de Kiko Goifman confundir as impressões e os parâmetros buscados (ou não) pelo filme.
*Texto escrito para o Festival de Brasília 2008.
Filmes Citados:
Filmefobia (idem, 2008/Kiko Goifman)
S. Bernardo (idem, 1973/Leon Hirzsman)
Jogo de Cena (idem, 2007/Eduardo Coutinho)
Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, 1945/Roberto Rossellini)







