por Marcelo Miranda

Crioulo Doido, de Carlos Alberto Prates Correia

 

por Marcelo Miranda

 

O que fascina em Crioulo Doido – e no cinema de Carlos Alberto Prates Correia como um todo – é a capacidade de falar da sociedade brasileira sempre na visão de figuras marginalizadas cujas atitudes excessivas apenas potencializam reações que, em outros âmbitos, seriam reproduzidas de forma realista. Quando o protagonista de Crioulo Doido é assediado por uma mulher interesseira numa festa, não basta o significado do racismo transformado em carreirismo que surge do fato. É preciso que cada diálogo, cada gesto dos atores, cada movimento da câmera, carreguem em si tom despudoradamente debochado e “maldoso”. Ao fim da cena, a política de Prates está feita – tanto em termos estéticos quanto narrativos.

 

Assim será em toda a duração do filme. Uma curiosidade é válida aqui: Prates remontou Crioulo Doido recentemente e fez, da versão original de 80 minutos, um enxuto filme de 63 minutos. Particularmente, não conheço a primeira versão. Porém, do que vi no novo corte, não consigo imaginar maior precisão na linguagem, melhor forma de narrar a trajetória do personagem, mais vigor na presença dos atores, mais impacto nos desdobramentos do filme. No contato com o poder que Crioulo Doido possui hoje na sua pequena duração, fica evidente que Prates pensou a montagem atual do filme tanto (ou mais) quanto o fez quando de sua realização em 1970.

 

Geraldo Veloso, amigo pessoal e parceiro profissional de Prates nos anos 60 e 70, disse na abertura do forumdoc.BH que “não tinha visto” aquele filme ali exibido – referindo-se às mudanças levadas a cabo pelo diretor em Crioulo Doido. “O Prates ficou tão irritado com as novas formas de fazer cinema no Brasil, com esse negócio de buscar financiamento através de leis de incentivo, que largou tudo e foi mexer nos próprios filmes em casa”, disse Veloso.

 

A declaração é totalmente coerente com a posição de Prates diante de seu cinema e de toda a inquietação e paixão que emanam dele. A zombaria, o esculacho, o overacting, os diálogos cheios de piadas em seqüência – e faladas realmente como piadas, sem qualquer tipo de “medo” de soar além da conta –, a mineiridade travestida de universal (e vice-versa), tantos elementos que permitem, por mais referências e influências existentes, tornar os filmes trabalhos únicos, imediatamente reconhecíveis, desbragadamente genuínos e apaixonantemente cativantes. Sim, o excesso de adjetivos é a única forma de, aqui, brevemente, saudar a exibição pública dos filmes deste grande autor brasileiro.

Filmes citados:


Crioulo Doido (Idem, 1970/Carlos Alberto Prates Correia)