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por Marcelo Miranda
Competição dia 6 (final): curtas + Tudo Isto me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno
por Marcelo Miranda
Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho (BA) – Curta 35mm
Trabalho de extrema beleza estética, que se aproveita dos recursos do preto-e-branco mesclado a uma delicada utilização da cor para narrar história aparentemente simples, mas que ganha forma na vontade dos diretores em inseri-la num contexto para além de todo o maravilhamento visual. Adaptado de um conto do mexicano Juan Rulfo, retrata um sertão de semi-aridez intensa, proporcionando aos personagens a mescla de sonho e delírio à qual serão submetidos na situação-limite apresentada no curta. A câmera que se fecha nos rostos ou se coloca no ponto de vista do personagem para se abrir apenas aos sonhos explicita a propensão do filme de exaltar as alucinações como visões últimas, oportunidades de epifania que, na dor ou no prazer, vão modelar o que resta de vida nos corpos da tela. É um autêntico pesadelo no sertão, tratado como filme de horror em que imagens e sons da memória insistem em invadir o presente e dar um funesto colorido à aridez ali exposta.
Superbarroco, de Renata Pinheiro (PE) – Curta 35mm
Lembranças, alucinações, surrealismo, sobreposições, tudo se mistura numa massa só neste curta alucinado e alucinante, que começa de forma tradicional e torna-se um verdadeiro sonho em forma de película. Por alguns instantes fui remetido a Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, menos pelos desdobramentos do que pela aura de inquietude, de uma mentalidade sendo projetada na imagem, da sensação de que absolutamente qualquer coisa poderia brotar da tela. Há planos de cuidadosa plasticidade (o personagem se banhando), em que os ângulos da câmera tentam transmitir as sensações mais íntimas. Muito da força de Superbarroco deve, para além da direção de Renata Pinheiro, da entrega de Everaldo Pontes como o protagonista, um misto de insanidade e ingenuidade, uma figura que encarna a tragédia de corpo e mente mesclada à ânsia de viver a qualquer custo, venha o que vier de dentro ou fora da própria cabeça. Trabalhando o cenário com acuidade na mistura de tempos e espaços, esta pérola pernambucana já nasce como um dos trabalhos mais instigantes da nova safra de curtas brasileiros.
Tudo Isto me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno (RJ) – Longa 35mm

“Contar uma história aos outros é ter uma maneira de contá-la, e isso define o que somos.” A frase é dita pelo diretor baiano Geraldo Sarno a certa altura de Tudo Isto me Parece um Sonho, último competidor exibido no festival este ano. Ela serve como carta de apresentação do filme não apenas ao espectador, mas ao próprio Sarno. Seu objetivo é documentar a vida do general pernambucano José Ignácio de Abreu e Lima, militar que esteve em lutas pela independência do Brasil, Venezuela, Colômbia e Peru. Porém, faltam-lhe imagens. “Como fazer um filme sobre alguém que não possui imagens?”, questiona ele. O filme, portanto, tratará da busca pela imagem mais genuína que dê conta de Abreu e Lima e de seu significado para a identidade cultural da América Latina. Antes de ser a biografia do general, Tudo Isto me Parece um Sonho será, em toda a sua duração, uma biografia de si mesmo enquanto criação de cinema.
Se o ensaísta Jean-Claude Bernardet (ator em FilmeFobia, de Kiko Goifman, comentado nesta cobertura de Brasíliai) criou a definição “auto-ficção” para aquilo que ficcionaliza a si próprio, o filme de Sarno poderia ser chamado de “auto-documentário”: o diretor registra a sua saga em busca do objeto a ser retratado. Na angústia de não saber onde ou como chegar, decide ligar as câmeras e deixar que a investigação venha à tona durante o processo. Pachamama, de Eryk Rocha, faz procedimento parecido. Porém, onde Eryk tinha a pretensão de criar o retrato de uma caminhada fadada a acidentes e acasos – e assumindo, logo de início, a vontade explícita de deixar esse acaso invadir o filme –, Geraldo Sarno sabe bem o que quer (ainda que não tenha idéia de como alcançar o objetivo) e fará o possível para evitar o inesperado, ainda que este seja inevitável quando os rumos não estão totalmente traçados e controlados.
O trabalho de câmera de Pedro Urano e Pedro Semanoviski é formidável na tentativa de Sarno encontrar a imagem genuína. O balé de planos, travellings, panorâmicas e grandes angulares perpetrado pela dupla parece a todo instante achar soluções para a incógnita que permeia o filme e, em diversas ocasiões, simplesmente ignora as conversas de Sarno com algum interlocutor para perscrutar o ambiente onde a equipe está. Há uma cena exemplar neste sentido: Sarno vai conversar com um professor num mercado central na Venezuela. A horas tantas, tudo que estaria fora de campo num enquadramento tradicional do diretor e do professor ganha vida e frescor com os passeios calmos que uma das câmeras realiza. Ela passa por vendedores de peixe, xícaras de café, rostos anônimos, gente que transita, tudo enquanto o historiador faz detalhado relato sobre a vida do general Abreu e Lima nas lutas pela libertação das colônias hispânicas no século XIX.
Portanto, na falta de imagens do passado, a “solução” é deixar o presente vir à tona – um presente apenas permitido pelo passado tão hipnoticamente narrado na conversa com o professor. Para completar a cena, entra uma música latina que fala justamente de Simon Bolívar (o herói latino por excelência e de quem Abreu e Lima lutou ao lado ), enquanto voltamos a assistir aos olhares anônimos de uma latinidade contemporânea.
Essas formas de apresentar o que não pode ser apresentado será a tônica de todo o filme, e não apenas no trabalho da câmera. Haverá ainda pinturas, cartas, narração em off e a ficcionalização (com atores) dos últimos dias de vida de Abreu e Lima. No auge do processo, Sarno fará um longo preâmbulo a partir de um poema de 1848 cuja temática é o progresso surgido com a colheita da cana-de-açúcar. A solução? Viajar ao interior do Pernambuco e acompanhar os trabalhadores do campo na luta diária da colheita. O que pode parecer excessivo e digressivo (ainda mais num filme de 150 minutos, como é o caso) ganha adesão imediata e irrestrita do espectador interessado na(s) viagem(ns) de Geraldo Sarno – tanto em termos estéticos quando geográficos. O auto-documentário volta a ganhar contornos inesperados quando o diretor gagueja para elaborar um raciocínio sobre o filme, ou ainda no instante em que se dispõe a cortar cana enquanto uma garotinha faz comentário fora do quadro sobre seu desempenho. Momentos de falta do que dizer? Cenas desnecessárias? Barrigas para além da sustentação do filme?
A resposta às três perguntas é “não” a qualquer um que se deixar levar pela simplicidade com que Sarno capta tudo isso, com a total paciência com que permite que o filme ganhe vida justamente nestes momentos “vazios” onde nada de substancial parece acontecer. À medida que avança, Tudo Isto me Parece um Sonho vai sobrepondo camadas e se apresentando como vários filmes dentro de vários filmes até constatar, junto com seu diretor, cada particularidade colocada diante da câmera – não há a imposição de visões pré-concebidas no contato com o outro. Mas que ninguém se engane de pensar que Sarno não imprime uma visão de mundo, um olhar sobre a realidade: antes de ser objetivo, o filme se apresenta como objeto audiovisual de rara franqueza, em que suas limitações tornam-se as maiores qualidades contidas nele.
Quando o cineasta se mostra maravilhado com as descobertas no sertão e relaciona tudo aquilo ao general Abreu e Lima, resta-nos compartilhar de sua empolgação. Não pela aparente ingenuidade de todo o processo dialético ali desenvolvido, mas pela liberdade com que Sarno se dispõe a falar de si, da arte, do processo de criação e de tudo aquilo que o rodeia.







