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por Marcelo Miranda
Competição dias 4 e 5: Curtas-metragens + Ñande Guarani (Nós Guarani), de André Luís da Cunha + À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel
por Marcelo Miranda
É sempre assim: o ritmo da cobertura começa muito bem (textos diários), mas logo outros afazeres tomam tempo e disposição, e lá vêm os atrasos. Vale registrar que este polvo está cobrindo o evento oficialmente por um jornal diário de Belo Horizonte, já que o Festival de Brasília não credencia exclusivamente revistas eletrônicas (o que explica a lamentável ausência de veículos como Contracampo, Cinética, Paisà e Cinequanon). Numa mistura de sorte e acaso, Filmes Polvo tornou-se a única publicação “independente” a falar dos filmes da mostra competitiva este ano – um tipo de “monopólio” nunca muito saudável para o debate e a reflexão de idéias. Perdem com isso os leitores das revistas e o próprio festival, que deixa de permitir a pluralidade de pensamentos fora do mainstream.
Façamos o nosso papel, portanto, e foquemos nos filmes. Como se acumularam dois dias, resolvi agrupar em blocos alguns apontamentos a respeito de trabalhos que dialogam entre si, mesmo em oposição. Isso vale para curtas e para os dois longas exibidos nas últimas 48 horas. A eles, portanto.
Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso (DF), e A Minha Maneira de Estar Sozinho (DF), de Gustavo Galvão – Curtas 35mm
Dois curtas da “casa” que, assim como o anterior Brasília (Título Provisório), comentado nesta cobertura, refletem algumas formas de narrar muito estranhas e problemáticas dos feitos na capital do país. Há uma atração por filmes “espertinhos”, cheios de gracinhas de roteiro já devidamente desgastadas e regurgitadas em produtos bem melhores. Não existe uma proposta ou uma cara para esta produção de curtas brasilienses exibidos no festival que não seja essa: o filme de pegadinha moderna que tenta comover ou entreter o espectador na base de supostos grandes achados narrativos.
No caso de Ana Beatriz, o filme em si nem é tão incômodo – é simplesmente inócuo. Trata-se de um exercício de contar uma história pela imagem enquanto conta-se uma trama paralela no discurso em off – e, na tela, os movimentos são todos feitos via fotografias montadas umas depois das outras, num processo semelhante (sem os mesmos brilhantes resultados) de Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho. Personagem bonitinha e fofinha, que acorda, vai trabalhar ouvindo PJ Harvey enquanto dirige um Fusca verde, é atendente de uma loja de roupas num shopping center, almoça comida oriental, casa-se com um cliente e possui os ovários estragados (!), o que a impossibilita de ter filhos, mas pelo menos não atrapalha possuir um gato (!!). Basicamente assim é Ana Beatriz: nada mais que uma brincadeirinha cuja presença numa competição forte como é anualmente a de curtas-metragens em Brasília não guarda maiores explicações à vista.
A Minha Maneira de Estar Sozinho é um pouco mais grave. Inócuo também, mas, no que Ana Beatriz tem de despretensioso e consciente de estar brincando de ser um filme, este aqui narra o drama do protagonista com uma mão pesada que sufoca qualquer tentativa de contato maior por parte de quem o assiste. Para além da revelação “surpresa” do roteiro ser a mais óbvia possível, o curta busca dar formas visuais “delicadas” com tamanha voracidade que a depressão do personagem fica perdida em meio à falta de uma mínima atmosfera de envolvimento. Ao fim, o jeitão modernoso novamente volta com a idéia de que se acredita estar trabalhando numa chave inédita, quando se está apenas repetindo o que de mais risível pode haver no mais-do-mesmo.
Minami em Close-Up, de Thiago Mendonça (SP), e Na Madrugada (RJ), de Duda Gorter – Curtas 35mm
Dois trabalhos distintos, que entram juntos aqui mais por uma questão de agrupamento. Minami em Close-Up documenta as memórias de um grupo de profissionais do cinema feito na Boca do Lixo nos anos 70 no Brasil. Momento de efervescência na produção e nas bilheterias, o período foi marcado também por uma publicação que tratava apenas dos filmes dessa “escola”. O diretor ouve figuras como Cláudio Cunha e o editor da tal revista, Minami Keizi, e monta divertidíssimo mosaico daqueles tempos, em que a memória ganha forma através das imagens de arquivo de filmes populares – e o termo “popular” se refere não apenas à recepção das obras por parte do público, mas principalmente dos próprios realizadores, muitos deles gente do povão que se aventurava pelos meandros do audiovisual apostando no interesse dos espectadores em ver na tela filmes de gênero – terror, aventura, policial, faroeste, chanchadas eróticas (“sem órgãos genitais”, como frisa um deles). O curta evita cair na nostalgia para se afirmar como depositário de lembranças de um tempo em que fazer cinema no Brasil parecia muito mais divertido e menos compromissado com causas que não fossem a de simplesmente dar vazão a um turbilhão de idéias criativas.
Entrando firme no terreno da ficção, Na Madrugada é um romance de terceira idade entre duas senhoras. Muito mais do que isso, apresenta-se como um virtuoso trabalho de câmera e fotografia, em que a presença das personagens no quadro está sempre em função do que a técnica pretende fazer com a imagem. Os planos longos valorizam a performance das atrizes, assim como explicita os artifícios da diretora em tornar aquela noite de amor o mais lírico dos momentos, através de sombras que vão sendo iluminadas à medida que as próprias mulheres revelam seus corpos uma à outra. No auge da luz, uma sonora gargalhada entre as duas, finalmente entregues aos seus desejos. O uso de sons é especialmente singular, das batidas de relógio aos sussurros entre paredes, e a trilha musical trabalha a questão da lembrança de um jeito muito delicado. Grata surpresa: ainda que longe de ser brilhante, o filme tem escolhas legítimas que vão ao encontro de sua proposta de ser um pequeno conto de amor e memória.
Ñande Guarani (Nós Guarani), de André Luís da Cunha (DF), e À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel (SP) – Longas 35mm
Exibidos em dias consecutivos, estes dois trabalhos trouxeram a Brasília o que o público do festival mais parece gostar: o filme de engajamento político-social, cuja temática muitas vezes se sobrepõe a qualquer pensamento de linguagem ou de cinema propriamente dito: é o filme que existe em prol de uma causa ou de uma ideologia e que, através de assumida tomada de posição, tem por ambição provocar reações de incômodo ou mesmo atitudes concretas de parte da platéia. A se pensar como foram recebidos, o máximo que conseguirão de Brasília são os constantes aplausos e gritos durante os discursos mais inflamados na tela.

Cada um a seu modo, Ñande Guarani e À Margem do Lixo defendem pontos de vista de maneira completamente unilateral. É, talvez, a maneira mais concreta de assumirem seus partidos: dar voz apenas ao lado “prejudicado” das questões em debate – a situação territorial e social dos índios guaranis, no primeiro; o cotidiano dos catadores de papel e lixo em São Paulo, no segundo. Em ambos, há momentos de puro êxtase discursivo, com lideranças reivindicando políticas e ações de olho direto para a tela, como a conclamar aos espectadores que os ouçam e façam alguma coisa. Os filmes dão voz a figuras excluídas da sociedade agrária e de consumo, acreditando que, com isso, estão fazendo a política que as mídias tradicionais se escusam em realizar.
As escolhas dos diretores sobre como expressar assuntos tão delicados através da imagem é razoavelmente contrária um ao outro – e não se está aqui afirmando que um seja melhor que o outro (na verdade, as limitações se sobressaem nos dois, e é este o ponto em que se pretende tocar neste espaço). Em Ñande Guarani, há um relativo retrocesso (como bem disse um colega jornalista ao final da sessão) nas discussões estéticas em voga no festival. Não que um filme precise inovar ou chamar atenção para si mesmo, mas o que se viu foi uma colcha de retalhos mal costurada e prolixa de diversos discursos dos guaranis sobre as mazelas sofridas por eles. Sem entrar em méritos políticos, é óbvio nas imagens do filme que não houve maiores preocupações com a concepção e encadeamento... bem, das imagens.
Inexiste em Ñande Guarani qualquer mínimo cuidado em como expor seu discurso para fazê-lo menos reiterativo e mais político ou impositivo: a câmera sempre na mesma posição enquadrando as “cabeças falantes”, os depoimentos intermináveis que giram em torno das mesmas questões já discutidas no mesmo plano, as voltas em torno do assunto sem que o filme se permita sair de um círculo cujo tom é mantido do primeiro ao último momento.
Torna-se claro que André Luís da Cunha quis dar voz absoluta aos guaranis, e talvez por isso as falas sem corte, com discursos se alongando à base de retornos de idéias. Porém, por conta dessa escolha, Ñande Guarani apenas reflete em sua linguagem a mesma característica circular de seu discurso – e aí, como todos sabem, um círculo vicioso não tem fim e também não tem saída. O que se tenta falar no filme acaba sufocado pelo excesso de reiteração e pela falta de zelo em saber filtrar os próprios entrevistados. A ânsia por dar-lhes voz a qualquer custo soa menos respeitosa com os documentados do que uma possível reflexão sobre como valorizar numa montagem mais pensada o que de melhor e mais significativo eles têm a dizer.

O caso de À Margem do Lixo é menos gritante, mas igualmente problemático nessa vontade quase messiânica de ouvir o outro – legítima sempre, mas não automaticamente passível de condescendência só por existir enquanto objeto fílmico. No filme de Evaldo Mocarzel, a voz dada aos catadores de papel é quase literal: os entrevistados depõem num púlpito, com microfone fixo e uma tela ao fundo onde são exibidas imagens deles mesmos, captadas pela câmera do diretor. Mocarzel tenta, através dessas imagens, refletir seu próprio conteúdo, e nisso consegue ser mais político do que André Luís da Cunha. Existe uma preocupação em causar impacto no discurso através de cortes abruptos, utilização do som e registros menos óbvios das falas dos entrevistados.
Os primeiros planos já invocam um posicionamento: a câmera focaliza do alto, em ângulo quase reto, alguns catadores andando pelas tumultuadas ruas de São Paulo. Em todos estes planos, o personagem é sempre um obstáculo dentro do cenário urbano, e assim o filme os tratará sem com isso diminuir sua importância. A idéia de “obstáculo” é colocada em cena para permitir aos entrevistados imporem suas vontades e anseios, seja em falas sobre o dia-a-dia profissional e pessoal, seja em reuniões acaloradas que clamam por uma inserção maior no meio social brasileiro. Diferente de trabalhos anteriores como Jardim Ângela e Do Luto à Luta, Mocarzel procura se colocar menos enquanto provocador, deixando esta “função” principalmente ao trabalho de montagem a cargo de Willem Dias.
Assim, o diretor, bem ou mal, consegue fazer do filme um discurso de si sobre o outro e dirigi-lo a terceiros (o público, neste caso). Há um papel de “decodificador” através do qual a produção se apresenta, o que proporciona momentos bastante fortes, em especial quando a câmera parece trabalhar sozinha ao registrar as máquinas de reciclagem e todo o processo de mudanças que o lixo sofre. Sem palavras, calcados apenas nos sons e no impacto visual incrementados pelos discursos falados até ali, são instantes de poderoso teor político, que dão muito mais o recado buscado pelo filme do que só deixar o microfone aberto para que se fale incessantemente sobre a indiferença com os trabalhadores em questão – o que invariavelmente acaba também acontecendo em À Margem do Lixo, ainda que em bastante menor escala do que Ñande Guarani.
O cinema tem total poder de discurso, convencimento, possibilidade e necessidade de dar voz ao outro, disso não há dúvidas. O desafio está em levar a empreitada à frente de uma forma que seja digna de suas potencialidades e das figuras no centro da problemática. No caso contrário, a vontade de mobilização pode se tornar simplesmente contraproducente.







