por Marcelo Miranda

Reportagem: Indie 2008 e o mergulho no desconhecido

por Marcelo Miranda

 

 

Levante o braço quem já ouviu falar nos cineastas Carl Zhang, Peter Paige, Chris Fuller, Conrad Clark, Tzahi Grad ou Claire Simon. Se o Indie – Mostra de Cinema Mundial sempre se caracterizou pela descoberta de novos talentos, sua oitava edição radicalizou: praticamente todos os filmes da principal vitrine do festival (a Mostra Mundial) são de realizadores pouco ou nada conhecidos, nem do público nem da crítica especializada. Saem os badalados David Lynch, Paul Verhoeven e Emanuele Crialese, que abrilhantaram a programação de 2007, para dar espaço a uma literal nova geração.

 

“Todo curador tem a esperança de encontrar um diretor que lhe abra os olhos. Nos grandes nomes do cinema você busca o reconhecimento, mas, nos novatos, a busca é por elementos até então inéditos”, diz Daniella Azzi, uma das coordenadoras do Indie. Ela e a irmã, Francesca Azzi, mergulharam em centenas de longas-metragens ao longo dos últimos meses para pescarem 134 obras, de 17 países, a serem exibidas em uma semana de vasta programação nas quatro salas do Usina Unibanco de Cinema e no Cine Humberto Mauro.

 

As duas irmãs precisaram sambar para colocar de pé o Indie 2008. Tiveram dificuldades na captação de recursos, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura, mas conseguiram manter o patrocínio da telefônica Oi e viabilizar a já tradicional mostra – ainda que uma sala, a do Cineclube Unibanco Savassi, tenha que ter sido “sacrificada” por motivos orçamentários.

 

Mesmo assim, o espectador mineiro não vai ter do que se queixar: as sessões seguem gratuitas, e o cardápio de opções, até pela característica de mergulho total e absoluto no desconhecido, parece guardar algumas boas pérolas. “Ir aos grandes festivais, com Rio e São Paulo, acaba sendo uma forma de ver aquilo que já se gosta de algum diretor, e isso guarda expectativas. Entrar num filme sobre o qual nunca se leu ou ouviu nada é uma completa surpresa, é ver um tipo de cinema nascendo ali, naquele momento”, frisa Daniella. Francesca complementa: “O nosso público compra essa idéia. Os espectadores do Indie estão acostumados a escolher o que assistir não pelo nome do diretor ou de quais prêmios o filme ganhou, mas pelo país de origem, pela sinopse e até por causa da foto de divulgação no catálogo do festival.”

 

Destaques

Nem todos os filmes do Indie 2008, porém, são assim tão “tiros no escuro”. Ao menos dois já chegam carregando na bagagem algum tipo de grande reconhecimento. Um é O Silêncio de Lorna, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Figurinhas fáceis no Festival de Cannes, eles já levaram a cobiçada Palma de Ouro por dois trabalhos – Rosetta (1999) e A Criança” (2005), além de prêmios para ator por O Filho (2002) e de roteiro justamente por O Silêncio de Lorna, exibido no evento em maio deste ano.

 

O outro badalado na programação do Indie é Philippe Garrel, com A Fronteira da Alvorada. Também apresentado em Cannes, o filme segue a mesma pegada do impressionante trabalho anterior do diretor francês, Amantes Constantes (2006): fotografia em intenso preto-e-branco, linguagem sofisticada, sutileza e ambigüidade nas relações entre os personagens e a presença de seu filho, Louis Garrel, como protagonista. “É um filme que vai provocar dilemas no espectador”, aposta Francesca Azzi, sem revelar muito mais do que se deve esperar desta nova experiência de Garrel.

 

Além da Mostra Mundial, existem outras seleções no Indie que prometem mexer com as expectativas. É o caso da Nova Escola de Berlim, que reúne cinco filmes de jovens realizadores alemães cuja proposta inclui “retomar a idéia do mal estar social, uma fonte de inadequação e agressividade”, segundo Francesca. Alguns dos diretores neste segmento – autores de títulos como Entardecer, Fantasmas e Segurança Interna – estudaram na Deustsche Filme und Fernsehakademie Berlin, importante escola de formação audiovisual no país. A filosofia de lá, revela a curadora, é “muita energia e baixo orçamento”. Algo bastante parecido a uma certa produção brasileira, que marca presença no Indie com filmes de Eryk Rocha (Pachamama), Petrus Cariry (O Grão, exibido na Mostra de Tiradentes) e o já polêmico Rinha, de Marcelo Galvão, que causou reações das mais diversas (várias de muita raiva) no Festival do Rio.

 

Outra dica para adeptos do “risco programado” de uma mostra de cinema é a Nippon Connection. Na esteira do centenário da imigração japonesa ao Brasil, esta série de longas, vídeos e curtas produzidos no Japão reúne “uma nação de imagens surpreendentes”, nas palavras de Daniella Azzi. A se pensar na grade de filmes disponíveis no Indie 2008, a definição cabe muito bem para praticamente todo o festival. 

 

A programação completa do Indie 2008 pode ser acessada clicando aqui.