por Marcelo Miranda

O Silêncio de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

 

por Marcelo Miranda

 

 

Ao término da sessão de O Silêncio de Lorna, brinquei com alguns amigos que os irmãos Dardenne pareciam ter descoberto o tripé. Evidentemente o comentário não era literal, visto que praticamente todas as cenas do filme são com câmera na mão (uma das características da dupla de diretores belgas), mas a forma como ela é utilizada – tanto em termos estéticos quanto pragmáticos mesmo – difere bastante dos trabalhos anteriores dos cineastas. Alguém já tinha escrito, na época de Cannes, que O Silêncio de Lorna tinha a câmera mais “domesticada” de todo o cinema dos Dardenne.

 

Isso, aqui, serve tanto em termos visuais quanto representativos. A protagonista Lorna talvez seja a personagem mais firme e inicialmente convicta de suas ações desde A Promessa, que os irmãos dirigiram em 1996. Dali em diante, as criações “dardennianas” de Rosetta, O Filho e A Criança surgiam em cena como seres perdidos, acuadas pela realidade que as cercava, em dúvida sobre quais ações tomar, angustiadas pelos rumos que suas próprias misérias (humanas e físicas) as levavam – tudo filmado com secura e falta de julgamento, como se ao espectador fosse dado apenas o direito de observar o registro sem jamais conseguir impor um parecer sobre as ações expostas na tela. Havia algo do ascetismo de Robert Bresson (Rosetta por diversas vezes se aproxima de Mouchette), mas, se este colocava seus personagens no mundo para sofrerem penitências, os Dardenne colocam os personagens no mundo para simplesmente estarem ali, naquele espaço diegético, enquanto nós, do público, assistimos a um recorte específico de suas vidas, que começa num ponto indefinido e termina de maneira igualmente abrupta.

 

Abrupto também é o início de O Silêncio de Lorna, mas desde sempre percebemos ser aquela moça em cena uma mulher de pulso firme: casou-se apenas para adquirir cidadania belga (ela é albanesa), está envolvida com gente barra-pesada, planeja livrar-se do pseud0-marido drogado e topa armar outro falso casamento por uma bolada em dinheiro. Jean-Pierre e Luc Dardenne seguem apontando a câmera para o “baixo clero” da sociedade européia – trabalhadores braçais, vigaristas, pobres em geral –, e agora temos Lorna, garota que sabe muito bem o que quer. E, para toda essa firmeza de atitude, nada mais “justo” do que a firmeza no trato com a imagem – daí a câmera ainda na mão, mas bem menos intensa, tremida e próxima dos corpos do que víamos em outros filmes dos diretores. 

 

Disso, algumas características se sobressaem logo de imediato: a câmera mais distante pode gerar um efeito de afastamento de quem olha. E, afastados, somos mais capazes de julgar. Capazes de julgar, podemos lançar juízos de valor sobre as questões colocadas em foco. E o que um projeto como este tem de retrato político de determinada realidade tende a tornar-se discurso. É nessa pequena armadilha que os Dardenne – conscientemente ou não – parecem cair. O Silêncio de Lorna está com a sua personagem, tem carinho por ela (o que não significa isentá-la de defeitos), acompanha-a cena a cena, acredita nas suas ações. Porém, diferente do efeito-testemunha percebido em todo o cinema da dupla, em especial Rosetta, o novo trabalho parece menos interessado em expor objetivamente um drama do que em narrá-lo com uma finalidade. Não deve ser coincidência, portanto, que o filme tenha levado prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes: é o projeto mais “linear” dos Dardenne, no sentido de que eles parecem determinar os rumos da protagonista desde o primeiro plano. O filme se desenvolve num crescendo de ocorrências, com pequenas “surpresas” a cada dez ou quinze minutos que servem para preparar o desfecho e amarrar, via informações médicas e sussurros solitários no meio do mato, um suposto enlouquecimento de Lorna – e, com isso, atingir o público numa idéia previamente fabricada.

 

Os tais sussurros, aliás, são o que de mais próximo os Dardenne já fizeram do que poderíamos chamar de tradicional. Se nos hiper-citados Rosetta, O Filho e A Criança as sensações vinham de gestos, olhares, movimentação de corpos, choros e outras manifestações de sentimento para além de palavras, agora a personagem surge cochichando consigo mesma e revelando ao público a sua condição de mentalmente perturbada. É, antes de uma composição de personalidade, um recurso bastante comum de como explicitar sentimentos. No instante em que Lorna parece perder o equilíbrio demonstrado na primeira hora de filme – o que parecia ser o objetivo maior desde o começo –, O Silêncio de Lorna tenta domar as impressões de quem assiste à agonia daquela mulher.  Os Dardenne permanecem cineastas especiais, Arta Dobroshi é uma atriz de incrível capacidade expressiva, a câmera, mesmo “domesticada”, sabe onde se posicionar para gerar grandes efeitos. Ainda assim, O Silêncio de Lorna deixa sensação de que algo parecia estar fora dos eixos – ou, talvez, nos eixos até demais.


Filmes citados

Mouchette – A Virgem Possuída (Mouchette, 1967 / Robert Bresson)

A Promessa (La Promesse, 1996) *

Rosetta (idem, 1999) *

O Filho (Le Fils, 2002) *

A Criança (L’Enfant, 2005) *

O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna, 2008) *

* dirigido por Jean-Pierre e Luc Dardenne