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por Marcelo Miranda
Entrevista com Masahiro Kobayashi: cinema de rigor e de coração
por Marcelo Miranda
Boné vermelho, óculos escuros, camisa com uma caricatura da figura do Tio Sam, calça jeans, tênis e meia soquete. Olhando rapidamente, poucos diriam que ali, despojado e bem-humorado, está o dono de uma das obras mais especiais do audiovisual japonês contemporâneo. Pela primeira vez no Brasil e em passagem rápida por Belo Horizonte para ser homenageado na Mostra do Cinema Japonês, promovida pelo Embracine nas três salas do Usiminas Belas Artes até a próxima quinta-feira, o diretor Masahiro Kobayashi - acompanhado da professora Misaki Asai Andrade Macedo, que traduzia suas palavras para o português com grande simpatia - conversou com o Filmes Polvo na sexta-feira, dia 3 de outubro.
A carreira como diretor começou em roteiros para a TV, no início dos anos 90, mas logo ele enveredou pelo cinema independente. Kobayashi sempre fez filmes de baixíssimo orçamento, poucos atores e enredos que focam aspectos variados da sociedade japonesa (da máfia em Filme Pirata à família em Homem Andando na Neve; da reinserção social após um trauma em Desonra e O Renascimento às peculiaridades das noitadas em Na Hora de Fechar) - todos com um rigor formal que o fazem um diretor bastante particular.
Num bate-papo informal - regado a café e muitos cigarros -, Kobayashi, 54, falou sobre o seu encantamento com o Brasil, seus filmes (especialmente O Renascimento, que tem lhe dado diversos prêmios importantes, como o Leopardo de Ouro do Festival de Locarno, na Suíça) e até mesmo a atual retomada de uma carreira musical interrompida há mais de duas décadas. Confira trechos da conversa.

O Brasil. "Não tenho nenhuma relação familiar com o Brasil, mas sempre soube da importância do país para os japoneses, por causa da imigração ocorrida há cem anos. Hoje eu estou aqui como turista, como homenageado pela mostra, sem sofrimento, sem pobreza e sem dores. Mas sei que, no passado, a nossa chegada foi muito mais complicada e difícil. E o Brasil sempre nos acolheu naquelas horas."
Imigração. "Ainda vou fazer um filme sobre esse tema. Mas não quero mostrar só o lado ruim. Tem que ter música, tem que ter momentos de alegria, tem que ter o lado espetacular do cinema. Porque o cinema deve te exigir os cinco sentidos, e as pessoas precisam sentir alguma coisa ao assistirem a um filme. Na verdade o projeto existe, deverá ser um documentário relacionando os japoneses ricos e pobres que hoje moram em São Paulo e descendem dos imigrantes."
A gênese e a câmera de O Renascimento. "A história estava desde sempre pronta e escrita. O que eu queria era expressá-la através do movimento, já que o filme não tem diálogos. Pretendia, ao filmar, mostrar a cabeça dos personagens, o rosto deles, e só depois ir apresentando o espaço onde eles habitavam. Era importante explicitar as impressões pessoais e os sentimentos, o que eles olhavam, percebiam [nesse momento, Kobayashi se levanta da cadeira e começa a simular a forma como enquadrava os rostos dos atores no filme, usando a tradutora de "modelo"]. Eu tentava fazer a cor do ambiente servir de signo para os sentimentos, para poder transmitir pela imagem o que se passava no coração daquelas pessoas. E isso deveria estar no cenário porque o cenário tinha uma arquitetura cujo objetivo era transmitir essas idéias."
Kobayashi ator. "Comecei a carreira artística como cantor, e quando passei a dirigir filmes percebi que ser ator e ser cantor não parecia ter muita diferença. Então decidi que, no meu próximo filme [que acabou sendo O Renascimento] eu ia atuar. Isso tem um pouco a ver com dinheiro também, já que seria um ator a menos que eu deveria pagar [risos], mas não é apenas isso. Cheguei a convidar um ator famoso para o papel, mas ele queria ser o dono do filme e fazer o que bem entendesse. Desisti e fiz o papel."
Os ovos. "Precisei comer 20 ovos crus por dia, durante duas semanas, para as cenas em que apareço jantando. Numa exibição do filme em Viena, alguém veio me perguntar se, no Japão, não existia salmonela, já que eu comia tanto ovo cru. Apenas respondi a ele: ‘bem, eu estou vivo, não estou?’."
Sem diálogos. "Era um risco que eu aceitei correr quando fiz O Renascimento. Temia que o público deixasse a sala ou dormisse. Precisei ter muita coragem para assistir a algumas sessões com espectadores. Mas, quando fui percebendo que pouca gente saía e quase ninguém dormia, entendi que as pessoas pareciam sentir o mesmo que eu sobre o filme, que é sobre duas pessoas em guerra e que não podem se amar. O mundo está muito maluco e todos têm raiva demais, e acho que o filme mostra um pouco disso."
A música. "Tive aulas de música e canto entre os 18 e os 22 anos, com um professor muito rígido, muito rigoroso. Gravei um disco independente, mas não fez sucesso e fiquei sem dinheiro. Desisti de ser cantor e, como tinha vontade de dirigir, entrei para o cinema. Meu professor, então, disse que eu nunca mais deveria cantar. No dia em que Desonra (2005) foi convidado para o Festival de Cannes, meu professor morreu! E hoje resolvi voltar a cantar, até porque ele não pode mais me impedir [risos]. Gosto muito de música folk e sou grande fã de Bob Dylan, Bruce Springsteen, Leonard Cohen e, aqui do Brasil, João Gilberto e Tom Jobim. Fiz a trilha sonora de alguns filmes meus e canto a música dos créditos de O Renascimento."
Ser um autor no Japão. "Há muitas dificuldades para fazer um filme que fuja dos padrões comerciais. Hoje em dia, então, está ainda mais complicado. Com a crise econômica que tem atingido o país, o patrocínio tem sido cada vez menor [diferente do Brasil, o cinema no Japão é quase inteiramente financiado pela iniciativa privada e se alimenta da própria bilheteria local]. As redes de TV, que são as maiores patrocinadoras, têm preferido apoiar filmes de aventura, que tenham maior apelo junto ao público, e depois essas mesmas redes exibem os filmes. Como eu não filmo com dinheiro dos canais televisivos, tenho muitos problemas para exibir o que eu faço no Japão. ‘O Renascimento’ passou em poucas cidades e não teve muito público. Eu fico impressionado com o poder das redes de TV."
Cinema japonês no Japão. "Quase todo filme que o país realiza é muito doméstico, voltado ao seu próprio mercado, sem grandes interesses de ir além disso. E o mercado é muito conservador, não se fazem filmes pensando no público estrangeiro. Na verdade são vocês que ficam felizes com nossos filmes! [Risos] Mas os japoneses mesmo não estão com o coração aberto para o mundo em quase nenhum aspecto, e isso está refletido na produção de filmes."
Saiba mais:
Perfil no IMDB: clique aqui.
Crítica de O Renascimento, por Gabriel Martins: clique aqui.








