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por Marcelo Miranda
Amor e Honra, de Yoji Yamada
por Marcelo Miranda
Nem sempre um cineasta tido como autor necessariamente impregna a sua obra de si mesmo. Exemplifiquemos com o caso em questão, o japonês Yoji Yamada: ainda que com uma vasta obra de dezenas e dezenas de filmes, os trabalhos recentes de Yamada – ou ao menos aqueles aos quais tivemos acesso – mostram um diretor de movimentos elegantes de câmera, de correta encenação, de bonitas imagens, de excelentes atores, de comoventes histórias. Tantos adjetivos, porém, servem quase unicamente para atestar o quanto Yamada, para além de quaisquer tentativas de enquadrá-lo, é, acima de tudo, um artesão dos mais bem preparados.
Isso fica patente em dois filmes recentes seus – O Samurai do Entardecer e Amor e Honra. Ambos partem de temas semelhantes (o samurai que, vítima das circunstâncias de seu contexto, precisa buscar alguma forma de se redimir perante si mesmo e aos outros) e narram histórias com incrível fluidez e correção. Porque é de histórias – e bem contadas – que tratam estes filmes. Ainda que crie algumas poucas cenas de maior elaboração, Yamada parece menos interessado em estética do que em narração. Se isso por vezes torna os filmes algo modorrentos, especialmente porque as tramas, ainda que boas, carecem de melhor equilíbrio, também faz com que os filmes funcionem como ligeiros e curiosos retratos de uma época muito cara aos japoneses – o tempo dos samurais e suas questões de moral e ética.
No caso de Amor e Honra, o próprio título do filme entrega do que ele fala. Temos em cena um samurai, empregado do senhor feudal, que fica cego por conta de um incidente no trabalho. Inválido e inconformado, passa a depender da submissa esposa para continuar sobrevivendo. Ela, disposta a qualquer coisa, vai se entregar sexualmente a um homem cuja autoridade pode salvar o marido da miséria. Há um processo curioso no filme, que o retira da modorrilha ora presente no desenrolar das cenas: a certa altura, Yamada tira quase totalmente o foco do samurai, deixando que a mulher tome conta do filme. Assim, vemos a moça andando, conversando, lamentando a situação do marido, refletindo sobre como resolver o problema, entrando em profundo conflito pelas atitudes que precisa tomar. O filme se coloca junto a ela, muito auxiliado pela contida interpretação da atriz Rei Dan, e por diversas vezes chega-se a pensar que a protagonista de Amor e Honra é ela, e não o samurai.
Porém, depois dessa boa guinada, Yamada volta a câmera para o personagem cego, criando uma situação de conflito físico que busca causar algum tipo de tensão – em suma, dentro desse cinema tão tradicionalmente narrativo, aproxima o enredo do clímax. Isso volta a levar o filme para a modorrilha, e é apenas quando a mulher retorna que Amor e Honra ganha novo frescor. Nisso, talvez Yamada tenha inadvertidamente feito um trabalho muito coerente com a sua proposta: se, no roteiro, a presença da esposa é fundamental para que o samurai permaneça vivo e são, o próprio filme enquanto realização carece da presença dessa mesma mulher para mostrar alguma vivacidade que o tire do óbvio. Quando Yamada se entrega a essa “exigência”, Amor e Honra cresce substancialmente.
Filmes citados
Amor e Honra (Bushi no ichibun, 2006 / Yoji Yamada)
O Samurai do Entardecer (Tasogare seibei, 2002 / Yoji Yamada)







