por Marcelo Miranda

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro: histórias para a História


Retornar a O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro tem aqui três motivações principais: a terceira edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, ocorrida há alguns meses na cidade histórica mineira, discutiu Glauber Rocha e Rogério Sganzerla à luz de suas semelhanças estéticas e discordâncias pessoais, tendo como um dos estopins justamente O Dragão...; a exibição do filme nos cinemas, em belíssima cópia restaurada; e o recente lançamento em DVD, via distribuidora Versátil, com uma batelada de documentários especiais. É muita coisa para se deixar passar o impacto ainda provocado por este quarto longa-metragem do diretor baiano. 
 

É o quarto e também o mais popular de sua carreira. Diz-se que O Dragão... tornou-se o filme mais conhecido de Glauber no mundo, além de ter lhe proporcionado a Palma de Ouro de direção em Cannes, no ano de 1969. Muito já se falou do filme ao longo dos últimos 40 anos, e este artigo tem menos a pretensão de revelar qualquer novo elemento a seu respeito do que exaltar (sem esgotar) determinados aspectos pelos quais nossa atenção foi chamada na revisão do filme. 



Antônio das Mortes, o padre, Coirana, a Santa e o São Jorge negro

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
tem como principal característica trazer de volta da própria cinematografia de Glauber o seu personagem Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros – sempre interpretado com expressividade por Maurício do Valle. Surgido pela primeira vez em 1963, no sertão preto-e-branco de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Antônio das Mortes representava uma espécie de “coringa” na trajetória do protagonista, o vaqueiro Manuel. Subjugado pelo patrão, Manuel sai pelo semi-árido carregando a esposa em busca de vida melhor. Depara-se com a religiosidade exasperante, na figura do beato Sebastião, e com a selvageria do cangaço, representada por Corisco. É Antônio das Mortes quem conduz quase diretamente os caminhos de Manuel, ao matar os seguidores do beato e depois eliminar Corisco. Dali em diante, o vaqueiro pode correr deserto afora ao som da tão propalada música de Sérgio Ricardo (“o sertão vai virar mar... o mar virar sertão...”).  

No seu ensaio Brasil em Tempo de Cinema, publicado pela primeira vez em 1967 e relançado há dois anos pela Companhia das Letras, o crítico Jean-Claude Bernardet, encantado com as impressões iniciais a Deus e o Diabo na Terra do Sol, escreve: “Nada indica que o cinema depois de Antônio das Mortes não mostre que a perspectiva que ele pretende abrir para Manuel seja em realidade uma perspectiva para ele próprio, Antônio das Mortes”. Essa idéia vem precedida da noção por parte de Bernardet de que o matador de cangaceiros representaria uma figura sem nenhum tipo de ideologia, que surgia no filme de lugar algum e depois desaparecia, servindo como propulsor das ações futuras de Manuel sem que para isso precisasse se envolver com quaisquer definições políticas. Escreve o crítico: “Antônio não age desse modo como um revolucionário dedicado à causa: para matar fanáticos e cangaceiros, é pago por aqueles que oprimem o vaqueiro. Ele é um sicário, é vendido ao inimigo. (...) Se ele mata a soldo do inimigo, não pode ser pelo bem do povo; se é pelo bem do povo, não pode ser obedecendo ao inimigo. Antônio das Mortes é essa contradição.” 

O mais curioso destes pensamentos de Bernardet é algo que talvez ele soube prever sem provavelmente imaginar que estivesse fazendo isso: a trajetória de Antônio das Mortes em Deus e o Diabo... realmente mostrou-se uma perspectiva para si mesmo quando Glauber decide retornar com ele em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, seis anos depois. Passado o golpe militar de 1964 e a esperança de poder para as massas, o filme estreou como um grito de resignação por parte do diretor. Já existira Terra em Transe em 1967 como resposta à desilusão provocada pelo novo regime, mas O Dragão... levou o cinema do baiano para um nível diferente. Foi a partir dali que ele enveredou pelo chamado “cinema de poesia”, carregando muito mais nas metáforas, analogias, simbolismos e devaneios do que nos três projetos de antes. E o matador de cangaceiros novamente foi um “coringa” no que Glauber pretendia: para reiniciar a própria arte, o diretor voltou ao passado e trouxe o seu personagem mais misterioso e ambíguo.  



Antônio das Mortes em ação em Deus e o Diabo na Terra do Sol


É assim que se dá toda a participação de Antônio das Mortes no filme de 1969. Ele é um fantasma de outros tempos, uma criatura que ressurge num mundo novo, em que a evolução histórica parece ter engolfado o universo por onde ele transitava. Os planos iniciais de O Dragão da Maldade... servem tanto de epílogo da trajetória de Antônio como de prólogo para seu novo caminhar. No primeiro plano, o jagunço atravessa a tela atirando contra alguém; após sumir, vemos em sentido contrário aparecer um cangaceiro ferido, que agoniza e morre diante do espectador. No plano seguinte, surge o professor interpretado por Othon Bastos ensinando datas a um grupo de crianças; entre abolição da escravatura e independência do Brasil, vem a pergunta: “em que ano morreu Lampião?” – o que transmite a idéia de que, com o líder do cangaço morto, cessaram as atividades de quem o seguia. O terceiro plano do filme insere Coirana, com suas vestimentas justamente de cangaceiro, dançando e cantando no meio do povo. E, por fim, o quarto plano é encenado como um grande palco onde, sem palavras, os principais personagens do filme transitam: Coirana, o professor, o latifundiário, o delegado, a “santinha” e o “São Jorge” negro. 
 

Antônio das Mortes vai aparecer em seguida. Ele é trazido de volta pelo delegado com a missão de eliminar Coirana. A partir daqui, o matador será sempre colocado em cena como uma figura que deixou de existir, que vive da memória e não se encontra na nova configuração do mundo. “Depois eu matei ele, aí acabou-se tudo”, diz, referindo-se ao seu duelo com Corisco mostrado em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Antônio surpreende-se por “ainda existir cangaceiro” e topa, de graça, caçar Coirana. Logo que chega à cidade, o personagem já destoa do ambiente: chapelão, lenço rosa no pescoço, poncho no corpo e garrucha nas mãos.  

Glauber vai sempre colocar Antônio das Mortes como um observador, um intruso naquela realidade. Ele vai estar presente a quase tudo que acontece, mas pouco ou nada se manifestará. Um fantasma de outra época cuja tarefa lhe toma o pensamento, como se a unilateralidade apresentada em Deus e o Diabo... (ou seja: missão a ser cumprida a qualquer custo) permanecesse mesmo num mundo distinto. Porém, O Dragão da Maldade... trata de tomada de posição, de atos políticos e morais. O que Glauber pretende é seguir os passos de Antônio rumo à ação ativa. Há momentos da mise en scène, portanto, que preparam o filme para os caminhos a serem tomados pelo jagunço. O jogo de sinuca entre o delegado e o professor, por exemplo, é todo pontuado por comentários sobre a pobreza brasileira. Num plano fixo, vemos a dupla jogando, falando e cantando. Após vários minutos, num leve movimento lateral, Antônio é enquadrado. Estático, olhando para o nada, sentado, ele revela uma presença quase próxima da ausência, mas que já o coloca dentro da configuração daquele contexto.  

Isso se potencializa pelo filme. Antônio das Mortes segue sendo uma representação do passado (“agora só vivo na tristeza da lembrança”), mas cada vez menos o filme o prende a isso. Tudo acontece num crescendo, e Glauber é mestre na forma como cria o efetivo conflito de Antônio e Coirana. Este pode parecer também vir de outros tempos, mas defende valores do presente e tem um objetivo – ocupar terras e dar comida para sua gente. Logo após o duelo em que o matador de cangaceiros fere Coirana, há um grande tumulto, com o latifundiário pedindo para “parar essa maldita cantoria”. No meio daqueles rostos anônimos, entra Antônio das Mortes, em primeiríssimo plano, olhando diegeticamente para Coirana, mas expressivamente para a câmera. A visão do rosto austero é tão forte e perturbadora que fica logo ali a impressão de que Antônio pode estar se imbuindo do lugar para onde foi convocado e dos valores defendidos pelo suposto inimigo. 



Antônio das Mortes em ação em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro


A “atualização” de Antônio das Mortes nos faz pensar em processo semelhante por parte de Glauber Rocha. No começo dos anos 60, Glauber nutria esperanças do povo poder participar da configuração de poder brasileira e teve os sonhos frustrados com os militares tomando a frente, sob a omissão da classe média. Glauber, também pertencente à classe média, parece ter levado para Antônio das Mortes as contradições e as dúvidas de quem não sabia a qual lado se colocar, de alguém que primeiro observa as jogadas para depois definir o sentido de seu caminho. O processo pelo qual passa o personagem muito se assemelha a uma conscientização a respeito de algo que está ali, a olhos dados, bastando ser enxergado. Se antes Antônio não agia nem pelo “bem do povo” nem “obedecendo ao inimigo”, como escreveu Jean-Claude Bernardet, desta vez ele vai olhar para dentro de si (numa bonita cena na igreja), escolher um lado, pegar as armas e partir para cima de quem, agora, considera o inimigo verdadeiro – no caso, o latifundiário dono das terras. “Depois que vi aquela gente de perto, senti uma coisa que nunca senti na vida”, murmura o jagunço, finalmente deixando o passado para se ater às sensações do presente. Junto a ele estará o professor, representante da intelectualidade que também permanecia em cima do muro e divide com Antônio as mágoas e resignações.
 

E é então que Glauber nos lança outra jogada de mestre. Se agora Antônio das Mortes finalmente é um personagem inserido no presente, então a imagem do filme logo destaca o fato e o coloca caminhando por entre estradas, caminhões e outros veículos em movimento, tudo ao som de “Volta por Cima”, samba de Paulo Vanzolini composto em 1962 (a quem todos identificam na letra popular: “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”). Porém, mesmo assumindo uma postura, Antônio das Mortes não está interessado em politicagem. “Meus negócio é só com Deus” (sic), afirma ao professor. Ele age por moral, por instinto no que acredita ser o certo. Sua tomada de posição é política, mas as intenções não têm ambições de poder.   

Após atingir seu intento, vem a cena final, momento-ápice e (agora sim) final para Antônio das Mortes: ele é visto se afastando, de costas, caminhando pela estrada, tomado por barulhos ensurdecedores de motor e buzinas, de urubus sobrevoando o lugar, de placas do posto Shell. O matador de cangaceiros, ser remoto que invadiu o presente, agora é parte intrínseca e indissociável desse presente, a partir do momento em que agiu para modificá-lo. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol, Antônio era o artífice da tomada de consciência do vaqueiro Manuel, permitindo que ele corresse rumo à revolução que nunca veio; desta vez, em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Antônio é ele mesmo peça num certo tipo de revolução. Sua história, contada em dois filmes, pauta-se, de maneiras bem diferentes, em tentativas de evolução e de caminhar da História.  

Filmes citados* 

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963)

Terra em Transe (1967)

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969)

* todos com direção de Glauber Rocha 

Livro citado

Brasil em Tempo de Cinema (Jean-Claude Bernardet, Companhia das Letras, 240 páginas)