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por Marcelo Miranda
Fim dos Tempos e a abstração do medo no cinema de M. Night Shyamalan

No cinema do indiano M. Night Shyamalan, a sensação de medo é uma constante. Em todos os seus trabalhos desde O Sexto Sentido, há alguma cena em que o personagem encontra-se absolutamente apavorado e amedrontado com algo que ele não sabe bem o que seja e de onde vem. Mais do que procurar respostas, a vontade aqui é refletir sobre como o medo se manifesta nos filmes de Shyamalan, tendo em vista seu último trabalho, Fim dos Tempos, no qual o motivo do pavor simplesmente se nega a estar dentro da imagem. Se pensarmos em retrospectiva, é possível perceber o quanto, em Shyamalan, o medo foi se tornando algo cada vez mais fisicamente distante, ainda que sempre fatalmente presente.
Somam-se seis filmes a partir de O Sexto Sentido (não vamos abordar os dois primeiros trabalhos do diretor, Praying with Anger e Olhos Abertos). O mote principal do diretor parte sempre de um elemento invasivo no cotidiano dos protagonistas. Seja um psicólogo desafiado pela crença de um garoto em enxergar os mortos (O Sexto Sentido), um segurança de estádio que se descobre superpoderoso (Corpo Fechado), um pastor sem fé enfrentando a invasão de sua fazenda (Sinais), uma garota cega às voltas com a tentativa de salvar o amado da morte (A Vila), um zelador disposto a ajudar uma ninfa (A Dama na Água) e um pai de família fugindo de alguma ameaça espalhada no ar (Fim dos Tempos). Os personagens, em Shyamalan, já estão em crise antes da trama se iniciar, mas a crise aumenta na medida em que surgem obstáculos pelo caminho que, inicialmente, nada tinham a ver com as angústias até então existentes – o psicólogo mantinha um trauma do passado, o segurança ia mal no casamento, o pastor perdera a crença em Deus, a cega temia os bichos da floresta, o zelador perdera a família, o pai estava distante da esposa.
O que balança esses universos já devidamente tumultuados são os objetos de medo típicos de Shyamalan. E são esses objetos que vão se “desintegrando” na evolução e maturidade de seu cinema, até atingir a quase completa abstração no filme mais recente. A Vila, neste sentido, pode ser considerado um ponto de virada. É a primeira realização do cineasta em que a ameaça tida como sobrenatural não era sobrenatural de fato. O que os moradores do vilarejo temem simplesmente não existe, por ser invenção dos fundadores da comunidade para manter o perigo e a violência do mundo distantes de seus filhos. Uma protagonista cega, portanto, é a grande saída de Shyamalan para expor via imagens a inexistência de um objeto de medo. O medo que domina a todos no local é de algo que não pode ser visto justamente porque não está lá. Quando ele se torna “verdadeiro” (quando a garota é cercada na floresta por um suposto monstro), a profundidade de campo o aproxima ao máximo e nos deixa olhar generosamente, mas sabemos (por informações expostas antes) que aquilo não pode ser um monstro. Mesmo assim, há o medo – da personagem e do espectador, apreensivo com o que virá a seguir.

Esta “peripécia mor do filme” (nas palavras do crítico Luiz Carlos Oliveira Jr, da Contracampo) parece libertar Shyamalan de quaisquer amarras que supostamente seus filmes anteriores pudessem ter criado. Até então ele estava sendo tido como o cineasta dos finais surpreendentes e das viradas de trama – muito por conta da puxada de tapete ao fim de O Sexto Sentido. Porém, em A Vila (foto acima), as mudanças de rumo do enredo servem para Shyamalan exercitar a sua noção de construção de medo e levá-la a um paroxismo que, no limite, mostra-se inofensivo. Tememos o inexistente.
Em Sinais, isso era já ensaiado. Ainda que seja desde o princípio um filme sobre alienígenas, Shyamalan parecia querer sempre atrair o “realismo de cena” ao filme – ou seja, fazê-lo o mais plausível possível e deixar até o fim a sensação de “o que está acontecendo, afinal?!”. Ao revelar a verdadeira face do terror (o invasor enfrentado pela família no final), Shyamalan ainda explicitava o objeto de medo: estava ali o ET materializado na sala da casa. A Dama na Água trabalha em chave semelhante: as histórias sobre ninfas aquáticas são incrivelmente absurdas, mas vão surgindo aos nossos olhos (e aos dos personagens) até chegar ao clímax do enfrentamento com o “mato ambulante”.
Se em A Vila o medo nascia da crença de que existiam bichos na floresta (o que se mostrava farsa), em Fim dos Tempos o medo surge de lugar nenhum e jamais se corporifica. Teme-se o ar, temem-se as árvores, teme-se o outro, teme-se o desconhecido. Mas nunca, jamais, o filme nos apresenta o que, afinal, é o real motivo do temor. Teme-se a morte, afinal, porque as pessoas começam a se suicidar, mas o que provoca as mortes (ou seja, o objeto de medo, o seu fator determinante) não se apresenta nem é exposto na tela. Fala-se em toxinas que estariam provocando suicídios, mas aí está um dos mecanismos mais sutis de Shyamalan para impor medo: tudo o que se sabe dos objetos atemorizantes em seus filmes é falado por terceiros, mas quase nunca confirmado pela imagem. Os insistentes telejornais de Fim dos Tempos (foto abaixo) são a única fonte de informação não apenas aos personagens desesperados por salvação, mas também a nós, que assistimos ao filme. E se de repente há uma solução (não andar em grupos e evitar aglomerações), essa solução aparece da boca do protagonista, de uma intuição sua – que logo será quebrada pela morte da velhinha solitária na cabana.

Os outros filmes são todos montados em cima da crença no que o outro diz – e que será ou não confirmada. O Sexto Sentido tinha o menino Cole, assustado por ver os mortos. Ele só enfrenta seus medos quando o psicólogo lhe diz para atender aos fantasmas, por ser isso o que eles querem. O menino acredita e consegue superar o pânico, numa cena em que ele se encontra com um objeto de seu medo (a garotinha assassinada pela mãe). Corpo Fechado é todo ele sustentado pelo que o fã de quadrinhos Elijah Price descreve ao segurança vivido por Bruce Willis: de que ele é uma personificação dos super-heróis dos quadrinhos. A trajetória do protagonista se pauta nisso – no que Price diz e no que Willis acredita ou não – e ele precisa enfrentar o seu maior temor (as capacidades sem limites do próprio corpo) para conseguir superar uma crise pessoal com a esposa.
Sinais vai por caminho semelhante. As informações sobre a invasão alienígena vêm da televisão e do rádio, mas nunca se sabe muito bem qual a real dimensão da ameaça. Mais que isso: o pastor passa a dar crédito ao filho pequeno, que compra um livro sobre ETs e, dele, retira informações. A família acredita na leitura do menino, e o espectador se vê engolfado pela mesma crença. A Vila, idem: a lenda das criaturas na mata só existe porque os pais a narraram aos filhos. O filme não nos confirma a verdade, e nem por isso a cobramos, visto que desde as primeiras cenas o comportamento dos personagens é suficiente para nos fazer acreditar. A Dama na Água tem uma provocação adicional: insere um crítico de cinema que aparentemente desvenda o enigma central da trama, e toda a comunidade do condomínio – e o público do filme – é mobilizada de acordo com as enganosas palavras do crítico.
Fim dos Tempos elabora ainda mais essas noções de enganação. Por mais que se tenha dito na mídia ser este um filme “ecológico” de Shyamalan, ou por mais que se coloquem as árvores ou o vento como os “vilões”, tudo isso é negado pelo diretor dentro do próprio filme. Com exceção das falas nos telejornais, não há absolutamente nada em cena que nos prove serem os suicídios, realmente, um fenômeno vindo da natureza. Nisso, a cena em que a velha se suicida é emblemática e sintomático: o protagonista (Mark Wahlberg) está dentro da casa e apenas escuta o que pode estar acontecendo com a idosa. A imagem segue em plano fixo pelas paredes do lugar enquanto o som reverbera lá dentro. Num vislumbre surge a mulher, rachando a cabeça no vidro da janela. O ponto de vista é sempre do personagem, que sente a presença daquilo que mais teme, ainda que não saiba definir o que seja. É o que acontece, em chave inversa (porém com as mesmas intenções), numa cena de A Vila: a cega Ivy abre um armário e, através da câmera colocada do lado de fora da casa, o espectador vê o personagem de Adrien Brody escondido no móvel. Ivy não o enxerga, mas ele está lá, à espreita – e será justamente ele quem se transfigurará no falso objeto de medo mais ao final do filme, quando a moça o enfrentar na sua saga pela floresta.
Momentos praticamente idênticos à morte da velha em Fim dos Tempos povoam os outros filmes – em O Sexto Sentido, Cole se esconde numa cabaninha enquanto um fantasma tenta entrar; em Sinais, a família se enfurna no porão e escuta a tentativa dos invasores de abrirem a porta (para, logo em seguida, a imagem escurecer, enquanto Shyamalan filma uma lanterna e só nos deixa ouvir os acontecimentos); em A Vila, novamente um porão, quando há o primeiro ataque das criaturas no vilarejo.
Não se está, aqui, promovendo outra interpretação a Fim dos Tempos, nem muito menos querendo explicá-lo. O que se pretende é expor os mecanismos de Shyamalan para criar medo a partir de um dado concreto – o suicídio em massa – que se mantém próximo do enigma absoluto, dado seu incrível talento de trabalhar a linguagem de cinema para provocar uma ansiedade abstrata. Afinal, é curioso pensar que um cinema que se sustenta no suspense e na criação de climas arme tudo para não entregar nada. Ou, mais radicalmente em Fim dos Tempos, negar a todo segundo uma resposta, um alento, qualquer tipo de solução. A câmera não tem o que exibir porque não há nada a ser exibido. Corre-se do vazio, assusta-se menos com o que se vê do que com o que é sentido. Shyamalan é um cineasta que, munido do elemento máximo e diferenciador do cinema como arte – a câmera –, usa-o para negar a sua função primordial, que é a de mostrar.
Filmes citados*
Fim dos Tempos (The Happening, 2008)
A Dama na Água (Lady in the Water, 2006)
A Vila (The Village, 2004)
Sinais (Signs, 2002)
Corpo Fechado (Unbreakable, 2000)
O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999)
Olhos Abertos (Wide Swake, 1998)
Praying with Anger (1992)
*todos dirigidos por M. Night Shyamalan







