por Marcelo Miranda

Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini

por Marcelo Miranda

Um corpo na tela e uma voz ecoando no cinema. Anabazys surge como um monstro cinematográfico a se postar como grande obra de arte, obra sobre cinema, sobre criação, genialidade, linguagem, significantes e significados. O filme é sobre Glauber Rocha e A Idade da Terra (1980), mas antes de tudo é um filme com Glauber Rocha. É o corpo, o movimento, a impetuosidade, a ousadia, a polêmica de Glauber, que estão em cena. Joel Pizzini e Paloma Rocha parecem deixar que o cineasta se manifeste no seu máximo, surja imponente na imagem projetada como o grande agitador que era.

A forma de Anabazys, antes de ser "glauberiana", de buscar semelhanças com a linguagem da figura retratada, é controladamente anárquica, ou anarquicamente controlada. Pizzini e Paloma buscaram em 60 horas de material bruto não só o que achavam relevante inserir no documentário, mas de que jeito isso entraria no manancial de imagens expostas a nós, espectadores. Tanto é que existem repetições de cenas, como as que havia em A Idade da Terra, e isso apenas reforça o caráter libertário e libertador do filme da dupla. Há forte coerência entre o discurso de Glauber e o tipo de filme buscado pelos diretores. Acima de tudo, eles realizaram um projeto que guarda em si ideais do cineasta baiano, sem que, para isso, rendam-se a eles.

Exibido em Brasília e agora em Ouro Preto, emblemático que, em festivais que buscam ousadias temáticas ou estéticas (o primeiro, via trabalhos de mais experimentação; o segundo, na homenagem a Glauber e Sganzerla), Anabazys surja como defesa aberta de Glauber Rocha por um cinema desgarrado de questões sociológicas/ideológicas. Acima de tudo, é preciso atentar para a linguagem, para as construções formais e estéticas, os desencadeamentos dos sentidos, e só a partir daí iniciar as discussões off-cinema.

Ouvimos ali Glauber bradar que não lhe cobrem posicionamentos ideológicos dentro de seus filmes e abram mente e ouvidos para ver e ouvir, um grito de independência do cinema diante de questões externas que não deveriam se sobrepor a ele. Nisso, Anabazys avaliza na sua própria construção, naquela estrutura que mais parece um delírio de Glauber em pessoa, do artista Glauber, do criador, do mobilizador. Um filme ainda a ser degustado, pensado, discutido, que está muito além de sua figura central, mas absolutamente (e não poderia deixar de ser) ligado a ela.

*Texto adaptado a partir de original publicado na cobertura do 40º Festival de Brasília, em novembro/2007. 

Filmes citados
Anabazys (idem, 2007/Paloma Rocha e Joel Pizzini)

A Idade da Terra (idem, 1980/Glauber Rocha)