por Marcelo Miranda

Deus e o Diabo na Terra do Sol e as dicotomias de Glauber

por Marcelo Miranda

Tarefa ingrata escrever de Deus e Diabo na Terra do Sol depois de tanto que já se pensou, refletiu e se dissecou o filme ao longo dos últimos 44 anos. Mais complicado ainda ter contato e avaliá-lo num evento cujo principal mote é homenagear Glauber Rocha (e também Rogério Sganzerla). Resta-nos, portanto, apenas reafirmar a importância do filme e sua relevância cultural e artística.

Desde as primeiras imagens do sertão – com aquele corte genial em que Glauber mostra o primeiro plano da carcaça de um cavalo em contraponto ao rosto desgastado do vaqueiro Manuel – o filme expõe suas ambições. Na verdade essa abertura, ao som de Villa-Lobos, é a carta de intenções de Glauber para a sua "estética da fome" – e também a uma variação do lema de Maiakóvski de que, para uma arte revolucionária é necessária uma forma revolucionária. Levando esta noção ao paroxismo, Glauber derruba quaisquer possibilidades de previsibilidade para desenvolver nas duas horas de filme uma mistura de neo-realismo com poesia pura e plena.

Deus e o Diabo...  sustenta-se em dicotomias. O deus e o diabo, a fé e o facão, o religioso e o assassino mercenário, o dragão da maldade contra o santo guerreiro (cantado na voz de Sérgio Ricardo para a entrada do matador de cangaceiros Antônio das Mortes). Glauber foge do maniqueísimo ao implodir todas essas dicotomias – ninguém no filme tem tantas certezas quanto suas imagens parecem demonstrar. Mais ainda o protagonista Manuel. Ele é a dúvida em pessoa, o sertanejo que nunca sabe qual o caminho mais correto a ser seguido (ou mesmo se existe um caminho certo).

A própria linguagem do filme é dicotômica. Na primeira parte (a do beato Sebastião) o ritmo é o de um cerimonial religioso, bem mais lento e árduo, de acordo com os sacrifício de Manuel em nome de uma fé que ele desconhece. Na segunda parte (a do cangaceiro Corisco), tudo soa mais ágil, direto, indo ao encontro da política dos discípulos de Lampião em seguir os preceitos de seu mestre – e lá está Manuel, ainda tentando se encontrar. A esposa Rosa nunca se convence nem de um lado nem do outro.

Mas a dicotomia é definitivamente quebrada na famosa sequência final. Após a segunda intervenção de Antônio das Mortes nos destinos de Manuel e Rosa, o casal dispara a correr sertão adentro. Rosa cai e Manuel segue solitário. É a imagem glauberiana por excelência: o homem que assume o seu próprio rumo depois de se desiludir com as escolhas dos outros. "O sertão vai virar mar, o mar virar sertão" é o grande lema de apoio a uma revolução que nunca viria. A desilusão de Manuel seria, de certa forma, explicitada por Glauber no seu filme seguinte, Terra em Transe. Ali, Glauber apresentaria outra forte dicotomia – a do jornalista entre a arte e o engajamento – em que já se percebe que quaisquer dos caminhos carrega em si profunda falta de esperança.

Filmes Citados:
Deus e o Diabo na Terra do Sol (idem, 1964/Glauber Rocha)
Terra em Transe (idem, 1967/Glauber Rocha)