por Marcelo Miranda

Eraserhead e os pesadelos de David Lynch

Uma mulher está sentada escrevendo carta ao seu grande amor. Ela não tem as pernas. Enquanto ouvimos o texto escrito, narrado em off, entra um enfermeiro que faz curativo num dos restos de perna da mulher. Algo acontece. Começa a jorrar sangue incessantemente. O enfermeiro tenta, por cinco minutos e sem sucesso, conter a sangueira. A mulher ignora, ainda escrevendo a carta.

A cena, única em toda a duração do curta-metragem, é de A Amputada (1974). Resume à perfeição o cinema de seu autor, o diretor americano David Lynch. Toda a obra de Lynch se fixa na premissa tão brevemente desenvolvida em A Amputada: personagens jogados em situações nas quais eles não têm nenhum controle e, exatamente por isso, acabam expostos a todo tipo de bizarrice e acontecimentos fora do que seria chamado de normal ou convencional. Em Lynch, o que move esses personagens é a busca por amor e afeto. Na impossibilidade de alcançarem objetivo tão nobre, eles mergulham em atmosferas de pesadelo, muitas vezes lidando não com forças externas ao seu mundo, mas justamente com angústias, anseios e medos de si próprios, sentimentos anteriormente presentes e agora extravasados. Nós, espectadores, testemunhamos esse extravasamento, um vômito de delírios que sai da cabeça das criações de Lynch. É como se o diretor apenas nos colocasse a par dos acontecimentos no pós-acontecimento, naquilo que vem depois, sem se importar muito em apresentar o pré, o fato anterior.

Diz-se muito que a autoralidade de uma obra, especialmente a cinematográfica, está na capacidade do realizador de criar universos bastante particulares, de fazer brotar das imagens em movimento e dos sons em profusão realidades que, dentro da tela, tenham suas características próprias e, nem por isso, deixem de refletir o universo exterior – no caso, o mundo dito “real” que está ao redor de quem assiste ao filme. Nesse sentido, David Lynch poderia entrar no rol dos autores. E disso, creio, não há muitas dúvidas – menos pelas propaladas “confusões” de seus filmes do que devido à genialidade em esculpir os tais mundos tipicamente lynchianos, o que não significa serem mundos de mentira ou de fantasia.


David Lynch filma Laura Dern no recente Império dos Sonhos

Uma outra marca de autoralidade também pode ser a recorrência de temáticas e olhares. Mais uma vez Lynch se enquadra, e aqui chegamos ao ponto nevrálgico deste artigo: voltar a Eraserhead, primeiro longa-metragem de David Lynch, e buscar os elementos que ele já plantava e que seriam trabalhados dali em diante. O lançamento do filme em DVD, via distribuidora Lume Filmes, nos permite atentar para as peculiaridades expostas por Lynch a cada fotograma. Eraserhead, aliás, antes de ser um filme perturbador, é um filme perturbado – ou, mais do que isso, é o filme de um homem perturbado. Reza a lenda que o diretor fez este trabalho num período conturbado de sua vida: a namorada engravidou sem que o bebê fosse planejado; e, para complicar, a criança nasceu com os pés deformados. Munido do trauma de ser pai fora do tempo e ainda lidar com um bebê portador de deficiência física, Lynch lutou por cinco anos para levar Eraserhead às telas, auxiliado por uma bolsa do American Film Institute em Los Angeles.

Percebe-se, portanto, que o filme carrega, desde antes de sua existência, aura profundamente pessoal de Lynch. Se pensarmos no que veio em seguida (como O Homem-Elefante, Veludo Azul, A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos), é explícito o quanto o diretor manteve-se fiel ao espírito de sua obra original, sempre acrescentando novos elementos e jamais deixando de falar, ao mesmo tempo, de si mesmo e do mundo “real”. Eraserhead traz carga pesadíssima de imagens incômodas, a começar pelo visual do filme – um preto-e-branco que parece retratar algum não-lugar habitado por não-pessoas que tentam seguir em frente numa não-vida. É, em todos os aspectos, universo de negativismo e pessimismo, onde tudo parece ir contra todos. Logo nos minutos iniciais, o protagonista Henry (Jack Nance) surge caminhando por fábricas insuportavelmente barulhentas. Uma série de gags potencialmente cômicas faz o que podem para atrapalhar esse caminho: a poça de lama, a porta e as luzes do elevador, os cachorros. Mesmo quando chega à casa da namorada, Henry não consegue estar em paz. A família da moça é cheia de disfuncionalidades, o galeto em seu prato ganha movimento próprio ao ser cortado (!) e a mãe de sua pretendente o assedia descaradamente (num movimento imediatamente reconhecível de Coração Selvagem, realizado 13 anos depois).

Todas as barreiras enfrentadas por Henry o deixam absolutamente sem controle do ambiente onde transita. A perda total desse controle se dará com a notícia de que a namorada teve um filho – ou, como a mãe diz, “uma coisa que está no hospital”, no que a garota retruca “ainda não sabemos se é mesmo um bebê, mãe!”. O olhar aparvalhado de Henry (e o nariz que sangra ao saber da notícia da criança) é a súmula de toda a galeria de personagens de Lynch – e também da perplexidade de seu público diante de um cinema tão especial. Vale atentar ainda para a curiosa semelhança física de Henry (e seu cabelo "esculpido" para cima) com Lynch em pessoa.


David Lynch e Henry Spencer, personagem de Eraserhead vivido por
Jack Nance: semelhanças além da imagem

As gags vão se acumulando. Agora casado, Henry é rejeitado pela esposa na cama, e o bebê não passa de um monstrinho embrulhado em algo que mais parece gaze do que fronha. O uso do som, outra forte característica de Lynch, se configura como primordial. O choro do bebê, cada vez mais alto e estridente, provoca a ruptura com a mãe e o fim do casamento. Paralela e continuamente, ouvimos o barulho das máquinas que insistem em jamais parar. E a trilha sonora permanece constante, sem algo que possa ser chamado de “música”, e sim uma nota grave e contínua que serve de incômodo crescente. O uso desse tipo de trilha, tanto os sons externos (em que, aqui, destacam-se a chuva, o ranger de dentes e a desesperadora coçada de olho) quanto a nota contínua, foram tornando-se algumas das marcas típicas de Lynch, absolutamente indispensáveis para o tipo de sentimento que seus filmes costumam transmitir (inclusive na antologia Rabbits, em que a câmera fixa é muito potencializada pelo uso dos barulhos e da nota musical agonizante).

 Incrível como, numa pequena duração de pouco menos de 90 minutos, Eraserhead consiga provocar tantos momentos de falta de respiro. A opressão de Henry é o seu pesadelo, e Lynch filma isso sem qualquer tipo de preocupação em parecer sensato. Uma das grandezas do filme é justamente mergulhar (de cabeça) nos riscos, sem pretender dosar ou dourar quaisquer situações lançadas na imagem. Disso, aliás, Lynch nunca teve medo. A fruição de seus filmes depende muito do grau de riscos que eles nos fazem sentir. Se por vezes um Coração Selvagem pode parecer excessivo na série de citações e referências, A Estrada Perdida só é o grande trabalho que conhecemos porque Lynch desrespeitou todos os limites. Se em Império dos Sonhos transparece o paroxismo do que de mais “estranho” o diretor é capaz de fazer, História Real tem na sua aparente simplicidade uma série de desafios ao óbvio que só mesmo um artista como Lynch, disposto a destruir tabus, regras e manuais, poderia realizar com tamanha economia de recursos – e ainda assim soar autêntico.

Lynch está, a todo instante, em busca de uma imagem de si mesmo. Existe em seus trabalhos a recorrência de personagens que se enxergam – ou que enxergam no outro alguma parte própria que desconheciam. Eraserhead traz isso à tona quando Henry vê seu reflexo transmutado em outra figura, numa cena-chave de definição (ou indefinição) total de rumos. Na série televisiva Twin Peaks, o agente Dale Cooper sonhava consigo mesmo envelhecido – e, naquela condição, ouvia da própria assassinada Laura Palmer o culpado da morte dela. Tanto em A Estrada Perdida quanto Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, o personagem que se metamorfoseia em outro, ou mesmo que olha para a própria imagem dentro de um outro contexto, surge quando há a quebra, a ruptura, tanto dos caminhos percorridos por essas pessoas quanto do filme enquanto objeto narrativo – é no embate entre o “eu” e o “outro eu” que se dá o embaralhamento estético e conceitual que provoca o típico curto-circuito de um filme de Lynch, ainda mais catalisado pela inserção de sonhos que parecem servir quase como epifanias que servirão de chaves para os enigmas propostos nos filmes (mas jamais chaves óbvias e bem resolvidas; pelo contrário: sonhar, num filme de Lynch, pode revelar verdades, mas não é das experiências mais agradáveis).

A imagem de um palco também tem carga forte na transfiguração de personagens. E lá está em Eraserhead o devaneio de Henry assistindo a uma criatura esquisita dançando e cantando num palco. Mesmo no preto-e-branco, é possível imaginar as cortinas vermelhas idênticas às de onde dança o anão de Twin Peaks (no mesmo delírio do agente Cooper mais velho) ou canta ardorosa e falsamente a artista do Club Silencio de Cidade dos Sonhos – para não falar de Isabela Rosselini hipnotizando o público ao entoar “Blue Velvet” em Veludo Azul. É de espetáculo, afinal, que também fala David Lynch (o deformado explorado pelo cientista em O Homem-Elefante, a indústria de Hollywood como o inferno na Terra em A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, as estripulias sensacionalistas do casal apaixonado de Coração Selvagem, a citada cantora de cabaré de Veludo Azul, os coelhos e as claques da série Rabbits). E para representar espetáculos, nada mais significativo do que um palco e alguém cantando, dançando ou simplesmente se apresentando (ou sendo apresentado) nele.


Os palcos da ilusão em Veludo Azul, Twin Peaks e Cidade dos Sonhos

O que subverte a visão espetaculosa das situações expostas nestes filmes é o caráter falso desses mesmos espetáculos. O homem-elefante é um monstro de circo aos olhos dos outros, mas é um ser humano, na verdade, repleto de angústias e vontade de viver; a cantora de Veludo Azul encanta quem a ouve, mas sua vida pessoal é um redemoinho desenhado com os piores traços possíveis. Em especial a trilogia sobre o espetáculo formada por A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos é toda ela formada por quebras do que viria a ser a imagem real do sucesso e da ilusão de Hollywood. Em todos eles há um intenso questionamento do que é visto na tela, e de fato nada do que assistimos parece ser de verdade. As fitas do casal de A Estrada Perdida, a interpretação quase ingênua de Naomi Watts em Cidade dos Sonhos e o declínio absoluto da personagem de Laura Dern próximo aos mendigos na Calçada da Fama (para, em seguida, escutar o grito de “corta”, revelando o artifício de uma cena construída e previamente modelada) caracterizam a noção de Lynch de que Hollywood é, sim, a terra dos sonhos, fantasias e devaneios, mas que, justamente por alimentar tal noção, torna-se um mundo de pesadelos, desilusões e assombros dos mais inacreditáveis – e difíceis de serem entendidos e recodificados inclusive por nós, espectadores. “Não há banda”, repete por diversas vezes o apresentador do Club Silencio.

Como um bom filme de Lynch, é sempre difícil parar de desenvolver idéias ao falar deles – e olha que o ponto inicial era Eraserhead, e veja até onde chegamos. Se foi discutido no começo a carga autoral de Lynch lançada desde o primeiro longa (para ser mais exato, valeria dizer desde o primeiro curta, Six Men Getting Sick, em 1966), vale registrar trecho de um depoimento dado pelo cineasta ao jornalista francês Laurent Tirard, publicado no livro Grandes Diretores de Cinema:

Ninguém gosta de se repetir e ninguém gosta de fazer sempre a mesma coisa. Mas, ao mesmo tempo, cada um tem gostos que lhe são próprios, que são mais ou menos pronunciados e dos quais se é mais ou menos escravo. (...) Só podemos mergulhar em um tema, em um personagem etc se realmente estivermos apaixonados por eles. É como uma mulher. Ora, alguns homens só gostam das louras e se recusarão, conscientemente ou não, a ter relações com morenas. Até o dia em que encontrarem uma morena pela qual sentirão amor à primeira vista e tudo mudar.

Filmes citados*:
Six Men Getting Sick (idem, 1966)
A Amputada (The Amputee, 1974)
Eraserhead (idem, 1977)
O Homem-Elefante (The Elephant Man, 1980)
Veludo Azul (Blue Velvet, 1986)
Twin Peaks (idem, série de TV, 1990-91)
Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990)
A Estrada Perdida (Lost Highway, 1997)
Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001)
Império dos Sonhos (Inland Empire, 2007)

*todos dirigidos por David Lynch 

 Livro citado:
Grandes Diretores de Cinema (Movie Makers Masterclass: Private Lessons from the World ‘s Foremost Directors), de Laurent Tirard (Ed. Nova Fronteira, 2002, 252 págs)