por Marcelo Miranda

A crítica de cinema: uma odisséia no espaço

 

A crítica de cinema é muitas vezes enxergada como um olhar técnico em cima dos filmes que avalia. Mais comum do que se possa imaginar, a expressão “tecnicamente você entendeu melhor” é bastante utilizada em conversas de “leigos” com os “entendidos”. Uns usam a pecha tecnicista de forma pejorativa; outros, de maneira laudatória. O que importa, no olhar de determinados leitores e interlocutores, é que o crítico “entende” o filme porque sabe diferenciar toda a parte técnica e dizer o que é bom e o que é ruim – mesmo que essas adjetivações possam ir contra a opinião alheia. E aí o crítico se torna, portanto, uma maquininha de apontar a fotografia, o figurino, o roteiro, os enquadramentos, a direção de arte, as atuações e tantas coisas mais. 

A categorização escalonar de elementos fílmicos é quase um vício dentro do universo de cinema. Especialmente em época de Oscar, a situação mais natural é testemunhar dezenas de pessoas indo a filmes para conferir um ator indicado ao Oscar, um roteiro lembrado pela Academia, um figurino comentado na festa. O filme vira um meio, um caminho, para se chegar ao detalhismo categórico e se ficar por dentro do que está sendo tão comentado. Um jornal mineiro recentemente estampou na manchete sobre produções indicadas ao Oscar que o espectador poderia aproveitar a safra para “treinar o olhar”. Era referência clara à “oportunidade” do público poder se balizar pelas opiniões de quem vota na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e tentar aprender alguma coisa do melhor diretor, do melhor ator coadjuvante, da melhor canção, da melhor trilha sonora... Enquanto isso, do lado de cá, estão os críticos que a isso tudo dominam.

Pois até quando a visão sobre a crítica de cinema por parte de quem não está diretamente envolvida nela se pautará pela idéia da técnica acima da sensibilidade? A impressão perpetuada é de que o analista de cinema perdeu o coração e apenas assiste aos filmes para captar vantagens e desvantagens das escolhas técnicas do realizador. E nem me refiro a um pensamento sobre a forma do filme, o desencadeamento de sua linguagem, os mecanismos de sedução para chegar à emoção. Falo do “compromisso” dado ao crítico de saber qual câmera foi usada, quantos cortes foram feitos, quanto durou o plano-seqüência, o que foi aquele travelling.

Tudo isso é importante, sim, e é compromisso do bom crítico de cinema saber, se preciso, detectar e discorrer sobre cada ponto. Porém, não apenas isso. Creio firmemente na tão propalada filosofia do francês André Bazin: “a função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto da obra de arte”. Para ficar no Brasil, vale lembrar pensamento exposto por Paulo Emílio Salles Gomes a respeito do mesmo assunto: “não perdôo ao crítico cinematográfico o fato de seus artigos serem sistematicamente mais cacetes do que as fitas que comenta. Também não levo a sério a história do crítico ser intermediário útil entre as fitas e os espectadores”.

O que se pode tirar das duas assertivas é o que se defende aqui a respeito da crítica de cinema – ou, mais diretamente, da relação entre o público e a crítica de cinema: o analista não deve servir de garçom ao espectador, indicando a ele o que é melhor ou o que não deve ser consumido dentro do cardápio de filmes. E nem o espectador deve esperar do crítico tal postura. A situação ideal dessa relação seria um lado alimentando o outro, completando, congregando, respeitando. Não são tantos os leitores que param e tentam entender os motivos para o crítico tecer determinados argumentos. Menos ainda tentam compreender seu ponto de vista. Se foi contrário ao de quem lê, é guerra decretada. E como a crítica em geral, por viver e estudar aquilo que escreve, por estar inserida em universos quase específicos das artes, já desenvolveu certo refinamento nos gostos, na escrita, nas opiniões, o pensamento médio é normalmente o mesmo: se o crítico gostou, estou fora. E dá-lhe uma barreira por vezes intransponível entre as duas entidades, o todo-poderoso crítico e o indefinido público médio. Enquanto existirem os críticos, existirão os detratores dos críticos e essa aura de “do contra” do profissional que se aventura a escrever da obra de arte alheia.

Mas o universo das artes não vive sem a crítica. O editor deste Filmes Polvo, Rafael Ciccarini, já disse algo muito interessante a respeito: uma obra precisa ser colocada em crise, ser questionada e comentada, porque, sem isso, não se movem os parâmetros e, sem essa mobilidade, a arte não evolui. “Crítica”, em sua acepção mais forte, nada mais é do que pôr em xeque, entrar em conflito, gerar um embate. Ao se pensar um filme, a idéia primordial não deveria ser categorizá-lo, dar-lhe cotações diminuidoras, colocar um bonequinho saindo da sala. Pensar um filme deveria ser adentrar no universo do realizador e se permitir envolver por ele, acompanhar os pensamentos, exprimir sentimentos, deixar que todo o aparato técnico utilizado para dar vida ao cinema torne-se ferramenta para o adensamento e a aprofundamento de uma carga sensível de arte.

Neste sentido, mesmo um filme que não agrada é passível de ser respeitado e pensado. Qualquer trabalho, por pior que seja, por mais desprezível, tem algo a nos dizer – e aqui não falo da famigerada noção de “mensagem” tão fartamente propalada em determinados espaços. Refiro-me a algo mais específico, mais sutil, a respeito do que um trabalho de baixa qualidade é capaz de nos despertar – as escolhas formais e estéticas, a ideologia inserida no filme, o caráter de autor da obra. É preciso, acima de tudo, tornar a técnica um caminho para se chegar à estética. Jean-Claude Bernardet já escreveu: “crítica nada tem a ver com verdade. Em estética, a verdade não é critério relevante”. Outro francês, Serge Daney, também defendeu a idéia de que o crítico deve ajudar o espectador a “reencontrar a capacidade de interrogar o mundo dentro de sua diversidade real, sociopolítica (e também geográfica, meteorológica, gastronômica...), a partir dos filmes”.

Por esta filosofia, a última coisa que deveria existir numa crítica de cinema é o juízo de valor puro e simples. O olhar muda de olho para olho, de espectador para espectador, mesmo de crítico para crítico. A contribuição que cada profissional da área pode dar a todo esse manancial de questões é buscar, como formiguinha, fazer a sua parte compondo e somando impressões ao que se pensa de um filme, sem ambicionar ou pretender tornar-se um ser magnânimo altamente entendido das técnicas cinematográficas e que, com uma estrelada, busca encaminhar o séquito de espectadores. Do lado do leitor/consumidor, espera-se respeito, compreensão e abertura ao diálogo, mas isso só vai existir a partir do momento em que o próprio crítico se der ao respeito, à compreensão e ao diálogo. Afinal, novamente citando Bernardet, “há muitas maneiras de falar da Lua, não apenas a do astrônomo”.