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por Marcelo Miranda
“Permanências”, de Ricardo Alves Jr: quadros que se movem
A sedução mais imediata num primeiro contato com Permanências, média-metragem de Ricardo Alves Jr, é aproximá-lo do trabalho do português Pedro Costa. Estão lá planos alongados e estáticos, o contato com um espaço específico e aparentemente delimitado (por paredes, portas, frestas, muros, escadas, corredores), a presença de pessoas no limite entre o registro espontâneo e a encenação puramente ficcional, uma certa exegese do significado de uma imagem fixa e mesmo a noção quase cósmica de que o mundo pode estar resumido ali.
Evidentemente, Permanências não é destituído de pontos de contato com Pedro Costa, e nem seria preciso registrar aqui o conhecimento cinefílico e a sensibilidade de Ricardo Alves Jr (atestados tanto num contato pessoal com o realizador quanto em seus curtas anteriores, Material Bruto e Convite para Jantar com o Camarada Stálin) para se ter certeza disso. Porém, o que o diretor mineiro faz no novo trabalho não é exatamente “dialogar” com um espaço ou se fazer presente diante daquele ambiente para, eventualmente, modificar diretamente o cotidiano em questão (como se percebe em alguns trabalhos de Costa). Ricardo Alves simplesmente tenta tornar a imagem um reflexo dela mesma, ou partir de um enquadramento e deixar que a suposta fixidez do plano fale por si própria e se complete dentro de um limite de linguagem tão rígido quanto a própria fisicalidade de onde a câmera está. Ricardo escolhe um ponto de vista de onde vai observar e “desaparece”.
Esse sumiço do diretor é uma ilusão, obviamente, já que ele tem total controle de cada escolha de seu filme, assim como estará sempre “controlando” o espaço ao redor – e este dado é denunciado pela mulher que sussurra “Ricardo...” por duas vezes e diz fazer isso para não esquecer o nome dele. Ou então está no olhar semifrontal à câmera de um dos homens filmados pelo cineasta: em meio à observação da chuva e às tragadas no cigarro, o sujeito vez ou outra encara a lente, como a desafiar o próprio Ricardo Alves, a tentar “desobedecê-lo” de alguma ordem a qual não temos contato. Nessa perspectiva, o homem rompe um trato que tinha sido devidamente cumprido, minutos antes, por uma outra mulher, também cigarro em riste, que surge por longos minutos encarando um fora de plano que pode tanto ser um elemento existente e físico quanto possivelmente são as próprias reflexões dela (e aí teremos não só o fora de plano, mas também o “fora da objetividade”, ou o “fora do palpável”).
Em procedimento raro no filme (único, talvez), essa mulher ganha dois planos distintos em Permanências. Num, ela é quase toda encoberta pela escada, e pode-se ver que ela fuma sentada, enquanto são ouvidos vozes num rádio e o sopro do vento. No outro plano, ela surge de costas, ainda fumando, com uma parede ao fundo. O que aquela mulher faz ali? Ela interpreta diante de Ricardo Alves ou a câmera de Ricardo tenta interpretá-la? Os movimentos dela são “reais” ou encenados? Para onde ela olha ao se virar? Fato é que ela nunca olha para a câmera. O olhar é triste, vago e firme. Jamais saberemos o que ela pensa ou busca ou espera, porque interessa a Permanências fazer essa mulher existir através de um enquadramento específico. É um quadro que se movimenta, uma pintura que se distorce por nunca estar realmente parada dentro daquele tableau transformado em ponto de vista do filme.
A noção pictórica de Permanências se reforça justamente no plano seguinte ao da mulher fumante. Em perspectiva, há um portão ao fundo, emoldurado por paredes desgastadas que parecem transmitir a noção de algum desenho abstrato, indefinido, inconstante e desequilibrado. Novamente revelando a natureza profundamente audiovisual do filme, ouvem-se sons de talheres e, de repente, uma mão surge abrindo o portão. Nesse exato instante, como para concluir um processo de desconstrução do próprio quadro e também de um suposto distanciamento do realizador, há o corte para o plano seguinte, que será o do homem fumando na chuva a olhar, vez ou outra, semidiretamente para a câmera.
Logo adiante, quem olhará completamente frontal à câmera é a outra mulher que fuma (aquela que sussurra o nome de Ricardo Alves). Ela está numa cozinha. Aloirada, envelhecida, tensa, com rugas e muito magra, essa senhora surge na tela como se carregasse o peso do mundo. Ela olha quase o tempo inteiro para a câmera e, a cada tragada no cigarro, parece ser mais e mais corroída. É como se ela fosse a pintura de Basil Hallward em O Retrato de Dorian Gray. No romance de Oscar Wilde publicado em 1891, a pintura representando a beleza do personagem-título envelhece e acumula as chagas, os horrores e as imperfeições de Dorian, deixando que ele, em pessoa, permaneça sempre jovem e bonito.
No caso da mulher de Permanências, é ela mesma um retrato vivo e desgastado de suas vivências. A relação dessa figura com a obra de Wilde parece reforçada (por coincidência, ironia ou acaso) no plano seguinte, no qual, panelas ao fundo, pode ser vista uma fotografia retratando uma garotinha e uma moça sorridente. Alguma delas é a mulher de antes? Seria ali um negativo invertido do simbolismo do “retrato de Dorian Gray”? De novo, esses detalhes não interessam ao filme, mas, sim, o fato de que aquela mulher tenha existido de maneira tão forte no plano anterior a ponto de ainda pensarmos na presença dela no plano seguinte.
Permanências sempre se encaminhará de maneira a nos instalar em alguma outra circunstância a qual deveremos nos ater por vários minutos de maneira aparentemente independente e unilateral. A cada novo corte e a instalação de mais um plano, porém, terá se formado um conjunto de pessoas, espaços e sons, um mosaico que, se não se interliga diretamente, está claramente reunido ali a partir de algum tipo de experiência muito íntima de Ricardo Alves Jr diante daqueles elementos.
O
desenrolar dessa trajetória pode ser ilustrado pelo tecladista que abre e fecha
Permanências. Em sua primeira aparição, ele toca Beethoven de maneira
sempre serena e com movimentos ritmados; ao fim, faz uma mistura de sons
indefinidos e eletrônicos. De corpo mais ágil, o risco assumido por ele parece
bem mais inerente, mais caótico, bem próximo da noção de abstração captada em
algumas imagens anteriores. Ao fim, o tecladista encara a câmera e sorri muito,
satisfeito, talvez, com a performance. Diante daquele espasmo de riso sincero,
só resta a Ricardo Alves Jr cortar a imagem e terminar o filme.
Filmes Citados:
Permanências (2010)
Convite para Jantar com o Camarada Stálin (2007)
Material Bruto (2007)
Dicas:
- Leia uma entrevista de Ricardo Alves Jr para o festival CineEsquemaNovo:
- Assista aos dois primeiros filmes de Ricardo Alves Jr:
http://portacurtas.uol.com.br/buscaficha.asp?Diret=31849







