por Marcelo Miranda

A América delirante de Werner Herzog

 

Werner Herzog tem algum tipo de fascínio invertido pela América. Não aquele fascínio encantado, lúdico, ingênuo, de quem enxerga no outro mundo o caminho da felicidade. O que parece mobilizar o olhar do alemão especialmente para os EUA é a estranheza de um universo regido por leis ímpares e difíceis de definir, entender e seguir. Um universo cheio de arestas, de detalhes incompreensíveis, de estranhezas, de alteridade travada. Os EUA de Werner Herzog são, quase literalmente, um zoológico habitado por crocodilos, avestruzes, galinhas, iguanas, flamingos, cobras, peixes e cachorros, com alguns homens circulando no meio desses animais – e, por vezes, sendo parte da fauna. 

Tudo isso forma a visão mais típica do cineasta para o tipo de drama humano que ele se sente compelido a retratar ao colocar sua câmera e a força de suas narrativas na terra do “american way of life”. Vamos deixar de fora, aqui, os filmes “selvagens” de Herzog no país – O Homem-Urso e O Sobrevivente. O que mais nos interessa pensar são os filmes urbanos, nos quais as “regras” para os personagens em cena funcionam (ou deveriam funcionar) de maneira igual a todos – e justamente a quebra dessas regras é que vai desencadear o que efetivamente se tornará o filme. 

vicio

Vício Frenético
e My Son, My Son, What Have Ye Done são evidentes jorros estéticos de Herzog basicamente sobre o ato de narrar dentro dos EUA. Produzidos e lançados no mesmo ano (na competição do Festival de Veneza em 2009), não é coincidência que ambos os filmes tenham policiais desencadeadores da ação e retratem momentos-limite de seus protagonistas, embalados por delírios e alucinações dos mais diversos: para rachar as “regras” impostas a um cinema americano dito de “eficiência”, Herzog vai ao centro da autoridade e lá instala as inquietações que lhe afligem. Não é suficiente a ele falar sobre as estranhezas que os EUA lhe causam; é politicamente necessário que isso faça parte do filme dentro de sua linguagem, que seja transportado para o tom, a atmosfera, o andamento das narrativas. 

Daí que tanto Vício Frenético quanto My Son, My Son, What Have Ye Done se iniciam a partir de códigos devidamente estabelecidos pela tradição da narrativa americana – no primeiro caso, o filme policial de investigação; no segundo, o drama de um criminoso com reféns e cercado pela polícia – para, em poucos minutos, implodir essa mesma tradição e colocar, nem sempre de forma sutil, um olhar absolutamente próprio ao que se mostra. Em momento algum dos dois filmes, Herzog impõe certezas às narrativas. De maneiras distintas, ele sacode os códigos sem esclarecer aonde pretende chegar e por quais caminhos intenciona seguir. Dá-lhe muito mais prazer provocar uma fissão, alguns cliques e ruídos, do que necessariamente provar determinado ponto de vista. 

Logo na primeira cena de Vício Frenético, o policial Terence salva um presidiário de ser afogado, para logo em seguida descobrir que sofreu um deslocamento na coluna cujas consequências serão dolorosas pelo resto de sua vida. Nesta fissura física do personagem, o filme sofre também uma fissura de tom: dali em diante, o cotidiano de Terence vai escoar da cabeça dele e do espectador, com vícios em drogas, achaques de inocentes, pressão em testemunhas, corrupção, sedução, prostituição. É difícil saber qual regra social e penal Terence não quebra, e mesmo assim o público está sempre com ele, porque o filme se sustenta no olhar dele para o que lhe surge ao redor ou diante de si. Quando um jacaré aparece atropelado em primeiro plano, o filme vai entrar também no imaginário alucinado de Terence, e passaremos a enxergar coisas que apenas ele está vendo – sempre tendo répteis como projeção principal. A captura visual de imagens muda conforme o delírio de Terence, e a câmera assume o ponto de vista dos bichos com desconcertante organicidade. 

Há, nisso, a adesão irrestrita ao mundo mental de Terence. Não se pode dizer que seja um filme a favor dele, mas também não é nada contrário: todos nos divertimos com as confusões do policial, com as visões de iguanas teimosas, com a alma do traficante que não se solta do corpo enquanto dança hip hop. Sem demagogia ou falso moralismo, Herzog se encanta com o personagem amoral e faz dele a essência de um filme construído em camadas de situações acumulativas que, como num passe de mágica, serão resolvidas em duas ou três cenas. Isso porque estamos no terreno da crença, da subjetividade, da vinculação ao olhar. Os dramas de Terence o obrigam a ser o que é, mas são muito menos importantes do que a persona Terence, esta sim o que ele efetivamente é. 

My Son, My Son, What Have Ye Done também terá a sua fissura nos minutos iniciais. Começa com dois policiais circulando pelas ruas de carro, até receberem pelo rádio um chamado comunicando um assassinato. No local, vão se deparar com o suposto assassino, Brad, trancado em casa, mantendo dois reféns. Aos gritos de que não precisa mais de Deus, ele faz rolar pelo chão uma latinha de cereais. A câmera acompanha o objeto como se ele fosse a imagem da revelação divina, e este será o momento de quebra das expectativas do filme: Herzog não quer narrar um suspense sobre o assassino e dois reféns, mas as idiossincrasias de um personagem perturbado que basicamente não se adequa ao que se espera dele. 

myson-myson

Ecos freudianos da relação de Brad com a mãe serão insinuados, mas não reforçados, porque Herzog está a milhas de distância de ser um cineasta preocupado com psicologismos. Mesmo os instantes mais enigmáticos (três homens, um deles anão, parados numa floresta ao som de Caetano Veloso; cenas documentais de uma feira de sikhs, com estes a olhar diretamente para a câmera; uma tropa de avestruzes correndo desembestados pelo deserto) não procuram nem emular metáforas nem atingir a equação significante versus significado. São imagens internalizadas do personagem que o filme assume para si, sem diferenciá-las esteticamente (como os répteis de Vício Frenético) e sem duvidar da relevância delas para Brad. Herzog parece querer que o público compartilhe o que o move, mesmo que isso apenas faça sentido (ou não) ao próprio Brad. Ainda que a negação do psicologismo seja característica de Herzog, a produção executiva de David Lynch em My Son, My Son... não deve ser desconsiderada.
 

Um dos grandes fascínios do cineasta alemão é mesmo esse: levar o símbolo até o paroxismo, evitando ao máximo que ele faça sentido pleno dentro do filme, funcionando muito mais como sensação do que explicação ou ilustração. Isso já estava presente num filme anterior em que Werner Herzog também expunha uma visão cínica e surreal de desventuras na América. Em 1976, Stroszek acompanhava as andanças do personagem-título encarnado por Bruno S. (com inspirações na vida do próprio ator) numa frustrada tentativa de acumular fortuna no interior dos EUA. Espécie de “prólogo” informal de Vício Frenético e My Son, My Son, What Have Ye Done, o filme já evidenciava a sensação de estranhamento de Herzog em terras norte-americanas. Numa narrativa mais seca, em produção ainda essencialmente alemã, trata-se do périplo do protagonista rumo aos EUA, lá encontrando todo tipo de resistência às tentativas de viver de maneira minimamente digna. 

Acuado pela simpatia cruel, pela exigência do capital, pela falta de oportunidade e pela aparentemente intransponível barreira linguística, Stroszek se torna a imagem da desilusão. “Aqui, não somos maltratados fisicamente. Eles nos maltratam espiritualmente”, lamenta. É uma visão que vai reverberar no desfecho delirante do filme, quando a constatação – de personagem e de realizador – é de que não há saída. A solução talvez seja girar em círculos até o esgotamento. 

Esse olhar vai impregnar as incursões de Herzog quando ele, de fato, for filmar nos EUA e dentro de território americano. Não mais narrando o olhar de um estrangeiro na América, como em Stroszek, agora Herzog é o próprio estranho em terra estranha. Vício Frenético e My Son, My Son, What Have Ye Done funcionam como se fossem filmes realizados sob o filtro do olhar subjetivo, desencantado e “violentado” de Bruno Stroszek. Os EUA para Werner Herzog – para o cinema de Werner Herzog – é um território incompreensível e, por isso mesmo, de infinitas possibilidades de delírio e de cruezas.

Filmes Citados*: 

Stroszek (idem, 1976)

O Homem-Urso (Grizzly Man, 2005)

O Sobrevivente (Rescue Dawn, 2006)

Vício Frenético (Bad Lieutenant, 2009)

My Son, My Son, What Have Ye Done (2009)

* Todos dirigidos por Werner Herzog