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por Marcelo Miranda
Terra Deu Terra Come, Ex-Isto e Tropa de Elite 2: visões de um país confuso
Representar um país na tela de cinema é tarefa não apenas difícil, como inglória. Apesar das mais esforçadas tentativas, na maior parte das vezes o que se vê são as visões da representação de um país imbuídas de todo o consciente (e inconsciente) que impregna a mente do artista cuja ambição é compartilhar com o outro a sua forma de enxergar a realidade ao redor. O Brasil, em especial, costuma patinar para se lançar numa imagem plana. Cheios de vícios, má consciência, ideias pré-concebidas, excesso de “projetos” fílmicos e escassez de olhares essencialmente cinematográficos ao próprio entorno, boa parte dos diretores brasileiros transforma a representação do país pelo audiovisual em panfletos porcamente ideológicos ou limitadamente problematizadores das reais condições nas quais vive a população.
Pensa-se muito num suposto impacto que determinadas abordagens terão diante do público, seja pela via sensacionalista, seja pela estética bestaloide do “dedo na ferida”. Nisso resultam filmes de discurso vazio, em que a política aparece a fórceps, colocada na narrativa de maneira muitas vezes mastodôntica e sem absolutamente qualquer resquício de reflexão ou ousadia no trato com o que escolheu abordar. Filmes torpes como os recentes Olhos Azuis, de José Jofilly, e 400 Contra 1, de Caco Souza, são pequenos exemplos num autêntico mar de lama audiovisual, cujo grande propósito é apontar o rosto do espectador e tentar atingi-lo ou redimi-lo de sua própria maneira de se relacionar com o que acontece no interior da imagem.
O que é de se estranhar é que ninguém necessariamente “pede” ou “solicita” que os realizadores se tornem os profetas das verdades absolutas da pátria. Algum sentido de “dever a ser cumprido” faz com que determinados artistas se lancem na tarefa de dar palpites sobre o que acontece no Brasil usando o cinema como válvula de escape – mesmo que, para isso, sejam gastos milhões de reais em realizações insossas e inofensivas. Alguém ganha com isso, e raramente (nunca?) é o espectador.
Por aqueles acasos estranhos de entender e impossíveis de prever, três filmes de pegadas completamente diversas pululam nos cinemas brasileiros neste segundo semestre de 2010. São trabalhos que buscam não necessariamente entender o Brasil, mas olhar para o país de formas variadas, utilizando escolhas formais e temáticas para se chegar a questões que, antes de serem respondidas, são elas mesmas transformadas em interrogações sobre como representar os olhares particulares de seus criadores através daquilo que definiram como sendo o filme que ora se assiste. Terra Deu Terra Come tenta, através do mito primal de um Brasil profundo, colocar o passado dentro do presente, para que este mantenha aquele vivo e eternizado na história artística do país; Ex-Isto usa a chave poética na ânsia por mergulhar num outro Brasil profundo: o da relação de um outro, o estrangeiro, com o ambiente que lhe afeta; Tropa de Elite 2 atinge, pelo espetáculo massificado, um discurso diretamente político, pelo qual o panfleto, se aparenta certa mecanicidade na essência do filme, diminui a carga de exagero pela maneira perspicaz como o discurso vai sendo formado. O Brasil do mito, o Brasil da poesia, o Brasil do pragmatismo: sem utopias, sem ilusões, sem dores de cotovelo.
1. Terra Deu Terra Come
Um filme de alteridade, um encontro do moderno com o arcaico. Quando o diretor Rodrigo Siqueira está diante do contador de histórias e ex-garimpeiro Pedro de Alexina, não se tem o documentarista e seu objeto. Há o compartilhamento de experiências e sensações, de dúvidas e respostas. Rodrigo provoca, Alexina responde; Rodrigo é ator de si mesmo, Alexina idem. Mas o contador não é apenas ele. É, também, um outro – ou uns outros, se considerarmos que ele “incorpora” o espírito do morto, João Batista, e, no embalo, resume num único corpo séculos e séculos de gerações de escravos que queriam manter viva a cultura de um povo. O embate entre Rodrigo e Alexina é tão político quando impregnado de intensa carga histórica; é o reencontro do colonizador e do escravizado, o conflito da descrença contra a fé irrestrita nos poderes de um outro mundo, de uma outra realidade, de um outro plano.
Terra Deu Terra Come faz desse conflito a essencialidade do existir – a sua ontologia. Para tirar do espectador a atenção de um aspecto e conduzi-lo/induzi-lo a outro, Rodrigo Siqueira utiliza um artifício que falseia a realidade documentada por ele. Nesse falseamento – que se assume manipulatório quando finalmente revelado –, o filme ironicamente ganha em reconfigurações. Para Alexina revelar o mito, é necessário que se encene o caminho até esse mito. Como qualquer encenação, a verdade deve estar na imagem, por mais fantasiosa ela seja: se o que vemos nos soa verdadeiro, a absorção tende a ser mais certeira, e o falseamento ganha contornos de realidade. No filme de Rodrigo, o velho Alexina apenas cria um autopersonagem, a sua autoficção, porque o cineasta lhe propõe um jogo. Ao omitir do espectador a existência deste pacto, Rodrigo se transforma no diabo das histórias de Alexina, o “outro”, o “tal”, ele mesmo o artífice de uma realidade falseada, um Brasil que passa a existir através de suas maquinações de narração e montagem e no ato de esconder elementos que oportunamente lhe convêm.
Esse Brasil que surge de Terra Deu Terra Come é um país primitivo, aqui redescoberto apenas para ser realmente descoberto. O mito, sendo por definição uma “narrativa de caráter simbólico relacionada a determinada cultura”, está incorporado à mente, voz e memória de Pedro de Alexina através do filtro de Rodrigo Siqueira. Sem Rodrigo, Alexina não reviveria alguns mitos fundadores do país; e sem o cinema (e a consciência do uso de suas potencialidades de linguagem), Rodrigo não chegaria ao que Alexina representa como imagem resumida e reflexiva de um tipo de Brasil que não existe mais – ou que, no mínimo, está deixando de existir.
2. Ex-Isto
É um Brasil da poesia o que surge diante dos nossos olhos neste filme de Cao Guimarães. Na verdade, surge aos olhos de René Descartes, personagem real inserido num universo de ficção, vivido por um ator (João Miguel) que circula em paisagens e ambientes reais. O círculo se fecha, apenas para sempre recomeçar. Nunca os limites entre ficção e documentário estarão muito claros no filme. Como Terra Deu Terra Come, é preciso recriar o mundo e travesti-lo de verdade cênica para que ele surja verdadeiro diante dos nossos olhos e ouvidos.
Mas, diferente de Rodrigo Siqueira, Cao Guimarães coloca o objeto central do relato como uma criação autêntica desde o início. Não se vê o ator interpretando a si mesmo (deixemos de lado noções de improviso e liberdade cênica). Na tela, João Miguel é Descartes, e é incorporado como o filósofo francês que ele transita por um Brasil que não é o de hoje nem o de ontem nem o de amanhã. É um Brasil de outra esfera, munido de poderosa carga poética que o faz se impor como um país maior que o homem e maior que a vida.
Descartes navega, caminha, mergulha na areia, flutua no mar. Luzes e sons, enquadramentos e cortes, planos longos e curtos: é de cinema que se faz o filme, mas é também de como o cinema traz à tona e coloca à prova um olhar sobre o país a partir de sua própria força. Ser estrangeiro não é condição incólume para o personagem. Na distopia criada pelo poeta Paulo Leminski no romance Catatau (a inspiração para Ex-Isto), Descartes vem ao Brasil acompanhando a expedição holandesa de Mauricio de Nassau, no século XVII.
A saga dessa figura cujo olhar parece se encantar com o que lhe aparece a cada novo lance do filme dará saltos espaciais e temporais na medida em que o país lhe impregna totalmente o corpo. Os sons de um avião a decolar são o portal para o “novo mundo” no qual Descartes tropeça. O cineasta filma essa passagem como a mistura entre sonho e poesia, ou como o delírio progressista de um personagem do Brasil lá de trás. Diferente de Terra Deu Terra Come, o passado em Ex-Isto não quer atingir o presente, mas intenciona ser incorporado a ele. Quando corpo e terra se juntam num único ser (a cena na areia), aquele estrangeiro inicialmente encantado é, por fim, absorvido pelo espaço onde habita. Esse Brasil que emerge de Ex-Isto está carregado de forte carga identitária, do desejo de fazer parte, de impregnar e ser impregnado, de pulsar junto com o chão e nele se refestelar.
3. Tropa de Elite 2
Em mais um de seus filmes-tese, José Padilha novamente mistura o domínio da técnica do cinema ao discurso sobre as mazelas sociais e econômicas brasileiras. Desta vez, porém, a política entra chutando a porta. Se há algo a que Padilha nunca foi dado, isso é a sutileza. E ele não faz questão alguma de ser sutil, se seu recado puder ser amplamente entendido. Espetáculo no sentido estrito do termo, com o maior número possível de facilitadores de entendimento (sendo a narração off do personagem Nascimento o ápice do didatismo assumido), Tropa de Elite 2 consegue a proeza de ser um grande filme mesmo intermediado pelo controle do diretor de se fazer entender na base do grito.
O ponto de chegada de Padilha é muito claro ao final. O já antológico plano aéreo de Brasília mesclado ao discurso final de Nascimento é imagem política por natureza intrínseca: ela mostra o centro do poder nacional enquanto a voz aponta e questiona: “quem você acha que paga tudo isso?”. Lançar essa imagem na tela como a conclusão de um fio de acontecimentos que começa numa rebelião de presidiários e desemboca numa comissão de ética protagonizada por políticos corruptos não chega a ser algum ato político em sua estética (como o fez, por exemplo, Glauber Rocha em Terra em Transe, no qual a fragmentação dos acontecimentos, tornados pedaços de memória, formava um discurso tão coerente quanto frustrado com a então realidade brasileira), mas é um ato político na escolha por concluir a tese de forma tão explícita e provocadora – o que nos faz, como em Terra Deu Terra Come, reconfigurar todo nosso entendimento dos mecanismos que fizeram Padilha chegar até aquele ponto.
O país construído em Tropa de Elite 2 é o mais desilusivo, o mais desencantado, o menos passível de qualquer solução, nostalgia ou reflexão. O Brasil do filme de Padilha está arrebentado por uma entidade denominada “o sistema”, monstro sem forma que encontra paralelos no diabo de Terra Deu Terra Come e na relação com o chão e a terra de Ex-Isto: o grande causador do choque, a essência do embate, o catalisador do filme como experiência problematizante de como representar o país.
Padilha deixa de lado qualquer busca por raízes históricas ou efeitos poéticos e entrega um filme seco, objetivo, pouco afeito a interpretações variadas. O cineasta retoma questões deixadas em aberto no primeiro Tropa de Elite em 2007 e as torna mais amplas. Se antes o problema parecia se circunscrever à relação de Nascimento com a “missão” que lhe foi dada de varrer a criminalidade das ruas do Rio de Janeiro, desta vez a nódoa está ampliada. O personagem enfrenta defensores dos direitos humanos, presos rebelados, milícias ilegais, autoridades corruptas e líderes criminosos inseridos dentro da cadeia de comando nacional. Com visão pessimista de tudo e todos, resta a Nascimento se refugiar na família esfacelada, que começa a ganhar um novo aspecto quando ironicamente os entes queridos do policial sofrem barbáries por conta de sua função dentro do esquema de segurança do país.
Novamente o ciclo: a violência tira de Nascimento o que lhe poderia restar de humanidade, e será essa mesma violência que terá potencial de fazê-lo voltar-se a si mesmo e encarar os fantasmas que atormentam o mundo defendido por ele na base da brutalidade. Contra a politicagem, a pancada na cara; contra as manipulações, o discurso “ficha-limpa” no Congresso Nacional. Nascimento é a figura a transitar em todos os meios constitutivos da nação, e a nação encontrada por ele – e referendada pela tese de José Padilha – é podre e fede muito.
Filmes Citados:
Terra Deu Terra Come (Rodrigo Siqueira, 2010)
Ex-Isto (Cao Guimarães, 2010)
Tropa de Elite 2 (José Padiha, 2010)
Tropa de Elite (José Padilha, 2007)
Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967)







