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por Mariana Souto
Crash: Preconceitos - entre a cadeia e a canonização
Crash não é só um filme sobre choques de carro, mas também de culturas e valores. São várias as vidas e relações pessoais entrelaçadas tendo em comum o preconceito envolvendo questões étnicas. A narrativa é circular, assim como a forma com que o filme trata a discriminação racial. O diretor Paul Haggis nos mostra como o preconceito se retro-alimenta, desenvolvendo-se como uma bola de neve; não aponta um início ou um fim, um certo ou um errado, mas explicita o preconceito em sua forma cíclica e desenfreada. Ideologias racistas são perpetuadas através do discurso, de ações e até mesmo de mal-entendidos. É possível perceber o caráter interligado de cada núcleo de personagens e como determinada atitude de um interfere em um acontecimento posterior entre outros. É um belo caso em que a estrutura do roteiro e da montagem serve perfeitamente à história e a enriquece. A forma como o filme é feito serve ao seu conteúdo, ao contrário de vários casos em que técnicas de montagem inversa ou não-linear são usadas apenas pelo seu efeito e beleza, sem nenhum objetivo narrativo. Não que isso não seja válido, mas quando forma e conteúdo se combinam, o resultado torna-se muito mais rico.
Os personagens de Crash são mostrados em sua complexidade, em atitudes ora desprezíveis, ora admiráveis. O filme defende que nenhum ser humano é totalmente bom ou totalmente mau por natureza, mas revela-se uma obra maniqueísta, mostrando-os ou perfeitos santos ou capetas de chifre e rabinho pontudo. Na vida cotidiana, nos encontramos mais com o meio termo e ninguém sai por aí alternando momentos que mereçam cadeia e outros, canonização. Entretanto, o recorte escolhido pelo diretor foi mostrar a amplitude no leque de ações de uma mesma pessoa. Queria transmitir a idéia de que uma pessoa tem dentro de si a capacidade de ser boa, mesmo que em seu dia a dia chafurde em erros. E que, de forma contrária, ninguém está protegido em sua bondade, podendo agir ridiculamente em alguma situação inesperada. Restrito a duas horas para expor seu ponto e com uma multidão de personagens, sua interessante intenção acaba perdendo a dimensão humana e, portanto, mais próxima do público mostrando situações exageradas como a do policial vivido por Matt Dillon, que abusa de sua posição de autoridade ao se aproveitar de Christine (Thandie Newton) e, virando a esquina, salva heroicamente a mesma moça de um acidente de trânsito. Essa é uma situação extrema, mas para o espectador, o efeito pretendido é o de que vá para casa pensando que o ser humano é capaz de atos tanto grandiosos quanto tenebrosos. E se pensar um pouco mais no que vê e exercer o valor da tolerância, verá que de nada adianta julgar alguém, porque todos compartilhamos dessa característica da natureza humana. O cinema precisa fazer dessas coisas às vezes – usar de muito exagero e simbologia para transmitir idéias, devido ao tempo reduzido. Apesar de ser possível compreender seu objetivo, Haggis não foi bem-sucedido ao se radicalizar no contraste, perdendo na qualidade humana dos personagens. Faltaram carne, osso e as nuances que os acompanham.
Pessoas têm comportamentos variáveis de acordo com as circunstâncias e, sendo assim, não se pode julgar independente delas. Os que condenam o preconceito diante de negros podem ser absolutamente fóbicas em relação a árabes ou a latinos. Gente com determinados valores éticos sucumbem diante de uma oferta maior, de um benefício pessoal. O detetive Grahan Waters (Don Cheadle) é convicto em seus ideais, mas quando lhe é dada a oportunidade de salvar o irmão delinqüente, ele abre mão de seus próprios princípios e “se vende” em prol de um ganho familiar.
Crash trata o preconceito étnico analisando suas múltiplas variáveis e aprofundando tanto motivações como conseqüências. A discriminação contra qualquer grupo racial está presente no íntimo de todo personagem do filme. A enfermeira Shaniqua Johnson, negra, demonstra indignação ao receber ofensas do policial Ryan (Matt Dillon), mas em outra ocasião dirige todo o seu ódio a determinado grupo de imigrantes. Mesmo quem, a princípio, mostra-se incorruptível, como o oficial Hansen (Ryan Phillippe), sentindo-se enojado pelo comportamento racista explícito do companheiro Ryan, no fim das contas, acaba tendo atitude similar. Racionalmente, condena a discriminação do colega, mas quando a situação se encontra fora dos limites da racionalidade e pede uma reação rápida e intuitiva, Hansen desconfia do negro a quem dá carona e, por um movimento que parece suspeito, entende que está sob ameaça e atira. Até mesmo quem luta contra e parece fortemente apoiado em valores humanos, não consegue escapar de um preconceito arraigado, sustentado pela educação numa sociedade racista.
Crash aborda também o papel da mídia através do personagem de Cameron (Terrence Howard), diretor de tv. Cameron se vê obrigado a refazer uma cena em que um ator negro falou sem as gírias características e, portanto, fugiu ao seu estereótipo. Ao repetir a cena, repete também um padrão de comportamento esperado para um negro. A Cameron, detentor de um certo poder por trabalhar em um veículo de comunicação, é cortada a possibilidade de disseminar uma mudança na sociedade ou, ao menos, de não compactuar com o que considera estar errado. Mesmo quando um negro ocupa uma posição de destaque e tem a possibilidade de intervir, forças maiores interferem em sua liberdade de ação e ele se vê de mãos amarradas. Torna-se cada vez mais difícil a sonhada mudança de mentalidade e a bola de neve aumenta de diâmetro.
P.S: Troféu esguicho-polvo* para a trilha sonora que, em alguns momentos, não assume função alguma e, em outros, até interfere negativamente no filme. Falha ao transformar cenas belas em piegas, como acontece em momentos finais do filme. Insossa.
* Segundo o Discovery Channel, trata-se de um jato de tinta expelido pelo polvo no momento de sua fuga - um instrumento de proteção contra seus predadores. E se o polvo foge, é porque não está contente.
Filme Citado:
Crash (Idem, 2004/Paul Haggis)







